O Grito: EP Na Pressão é Hard Rock nacional de qualidade e conteúdo
Resenha - Na Pressão - Grito
Por Pedro Vieira
Postado em 19 de janeiro de 2018
Letras que te jogam pra cima, embaladas por uma bateria simples, mas marcante, guitarras entrosadas e um baixo que liga os elementos de forma fluida, somados a um vocal potente, rasgado, mas melódico em pontos chave de cada canção. "Na Pressão" é um daqueles CDs que a gente ouve e quer ouvir mais. O segundo EP da banda mineira O GRITO é um alento em tempos de música ruim e superficial, que há tempos tomam cada vez mais espaço no mainstream das rádios brasileiras, infelizmente.
Definir o estilo da banda é fácil: Hard Rock dos bons! Mas ao contrário do termo pejorativo "farofa" que se consagrou na década de 1980 e início dos anos 1990, com letras baseadas principalmente em festa, bebida e mulher, a banda oferece conteúdo. Todas as canções falam basicamente que, apesar de tudo jogar contra, do buraco parecer tão fundo que não há como sair dele, ou que a porrada foi tão forte que não há mais força para levantar, sempre é importante tentar. E para isso acontecer, deve-se ser fiel aos seus princípios, valente para continuar e acreditar que as coisas podem ser melhores, mesmo se você estiver afundado na lama.
A maioria das músicas deste novo trabalho foi composta há tempos. Algumas há mais de 10 anos. Nunca foram lançadas. Coube à banda, fazer um trabalho de renovação de sonoridade, com novos arranjos, pequenas adaptações de letras, mudança de tom, novos solos de guitarra, aberturas, entre outros aspectos. Quem é músico sabe: Muitas vezes esse trabalho é bem mais difícil do que compor "do zero". Criar em cima de algo que já existe, transformando radicalmente um trabalho foi um desafio que deve ter dado trabalho, mas que valeu a pena. Isso eu garanto, já que tive acesso a várias gravações originais.
A música de abertura do CD reflete exatamente essa minha reflexão. Em "O Melhor que Puder", Marcel Telles, vocalista, baixista e letrista de todas as canções prova isso. A primeira versão da música foi feita em 2008 e era tocada por um Power Trio. A inserção da segunda guitarra preencheu mais a sonoridade. O baixo com distorção dá peso e a letra mostra exatamente como é bom não se acomodar com algo preexistente. Sempre há espaço para evoluir. Basta estar disposto à mudança para ser melhor do que já se é. É o single de trabalho que rendeu um videoclipe simples, mas de muito bom gosto, gravado e editado pela própria banda. Também é a música de abertura do show.
"Na Pressão" dá nome ao álbum. A música começa com um teclado suave, breve, que logo dá lugar ao refrão poderoso. "Permanece em pé, nunca perde a fé, Não pode parar! Firme, na pressão, tiro de canhão, ruim de derrubar". Pegajoso, grudento mesmo! Básico de todo grande hit Hard Rock. A letra foi ligeiramente modificada. Originalmente, era "Permanece em pé, não engata a ré...". Sem dúvidas, "nunca perde a fé" é melhor para o propósito da canção e não gera comentários idiotas. O trabalho de timbre das guitarras deu mais vida à canção que também mudou de tom. Antes eram tocadas em D-, agora, em D+. Pra resumir a sonoridade: Peso, peso e mais peso, com 2 solos - antes do refrão e ao fim - lembrando um pouco o estilo da banda Muse.
"Longe" tem um tom mais comercial. Não chega a ser uma "Power Ballad", mas fica perto disso. Começa suave, mas logo ganha peso no vocal rasgado e tem riffs de guitarra cromatizados com muito groove e slide. A sintonia das guitarras é bem legal. Enquanto uma faz uma escala ascendente, a outra "desce". Um arranjo inteligente que equilibra a suavidade das palavras com o peso do instrumental. A letra enfatiza que, quando se sabe quem é, é importante se manter fiel aos seus conceitos, mesmo que esse caminho seja mais difícil e distante. Casa bem com a situação do cenário autoral no Brasil.
"Fogo" é daquelas canções inesquecíveis, que dá vontade de ouvir mil vezes no volume máximo, sacudir a cabeça e brincar de air guitar. É um grito de resposta às pessoas que te taxam de fracassado. Mal sabem elas que tem gente que é forjada no fogo e que, nem um, nem dois, nem mil tombos são capazes de destruir essas pessoas. No primeiro verso, Marcel Telles muda o estilo. Deixa o vocal agressivo por um tom melódico, triste. É quase um Réquiem. "Em cova rasa, vazio profundo, sem flores, velas no altar...". Mas sem demora tudo volta ao normal num refrão que explode dizendo que não! Não me entregarei, mesmo que todos apostem na minha derrota. "Ainda há lenha pra queimar, pra deixar arder, alimentar o fogo! Onde forjo minhas armas, cauterizo as feridas, ainda estou no jogo!". Sim, O rock autoral ainda está no jogo!
"Coragem de ser" fecha o álbum destoando um pouco do restante das canções. É uma música mais leve, quase dançante, com arranjo mais simples do que as demais. Lembra um pouco os bons tempos das aberturas da novela juvenil "Malhação", quando os caras do Charlie Brown Jr. garantiam a pegada mais forte da trilha sonora. Foi escrita em 2009 e a letra é, ao meu ver, uma celebração da vida. Pode ser interpretada de várias formas. Representar o amor de uma mãe ou de um pai pelos filhos e vice-versa. Pode ser um bate papo com a própria vida, caso esta conseguisse ser representada fisicamente. De novo, uma canção que nos mostra a importância de sermos fiéis aos valores que conquistamos e que nos foram ensinados, mesmo que pra isso precisemos ter muita coragem. "Quero o que puder me oferecer, tudo que vi é com você. Somos quem temos coragem de ser".
Para saudosistas da era de ouro do Rock como eu, já no caminho dos 50 anos, ouvir "Na Pressão" é mais que um presente. É um alento e a certeza de que há uma saída para tanto mau gosto. O EP é também um pouco do retrato da banda, formada por uma galera que já está na estrada há muito tempo, lutando contra tudo e contra todos em busca de um espaço fazendo Rock autoral. No Brasil investir nisso nunca foi fácil. Muito pelo contrário. Por isso é importante valorizar essa gente, que têm CORAGEM DE SER, que quer chegar LONGE, vive NA PRESSÃO, mas tem FOGO suficiente pra fazer de cada trabalho, O MELHOR QUE PUDER.
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