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Bob Dylan: valorizando seu "outro lado"

Resenha - Another Side Of Bob Dylan - Bob Dylan

Por Claudinei José de Oliveira
Postado em 01 de outubro de 2017

Nota: 9 starstarstarstarstarstarstarstarstar

Em 1964, Bob Dylan encerrava sua fase folk com o álbum "Another Side Of Bob Dylan", o qual prenuncia, principalmente nas letras, aspectos que seriam, futuramente, valorizados pelo artista.

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Talvez por estar situado entre o raivoso e engajado "The Times They Are A-Changin'" e o meio acústico/meio elétrico "Bringing It All Back Home", o álbum "Another Side Of Bob Dylan" sempre foi subestimado, principalmente pela crítica, dentro da extensa discografia do artista.

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Lembrado, quase que exclusivamente, em coletâneas, pela canção "It Ain't Me Babe", apenas mais uma (e não das melhores) canção de adeus composta e gravada por Dylan, "Another Side..." traz os primeiros exemplos de originalidade lírica do artista.

Nos álbuns anteriores, Dylan já havia conquistado respeito como letrista e, de fato, sua lírica fazia por merecer. No entanto, o estilo de composição ainda estava atrelado à tradição folk norte-americana. Se hoje o compositor é visto, quase que unanimemente, como um verdadeiro exemplo de relevância literária no século XX, sendo, inclusive, agraciado com um Nobel, tal condição começa a despontar neste álbum.

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As letras começam a adquirir um viés rebuscado, passando longe da abordagem direta de temas que acorria até então em canções como "Masters Of War", "Blowin' In The Wind", "Hard Rain's A-Gonna Fall" e "The Times They Are A-Changin'", para ficarmos só nos exemplos mais marcantes.

A obra de Dylan, principalmente, nesses anos iniciais, oscilava entre a seriedade e o humor, ecoando o antagonismo teatral tragédia/comédia. "Another Side..." dá prosseguimento a isto, porém, novos matizes são acrescidos. Canções como "Chimes Of Freedom" e "My Back Pages" podem ser, facilmente, associadas à escola literária do Simbolismo e ao movimento Beatnik. Lembram muito a abordagem poética de Rimbaud e de Allen Ginsberg. Imagem vêm e vão, num ritmo vertiginoso, entre os versos.

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No sentido humorístico, algumas canções do álbum trazem uma lírica que, também, foge de qualquer obviedade, remetendo, por sua vez, às escolas literárias do Dadaísmo e do Surrealismo, sendo que elementos da última também podem ser identificados no "lado sério". "Spanish Harlem Incident", "I Shall Be Free No. 10" e "Motorpsycho Nitemare" são exemplos neste caso. Futuramente, tal viés adquiriria nuances herméticas, atraindo, como urubus sobrevoando carniça, teóricos da conspiração sobre o artista, numa desesperada tentativa de exegese, talvez procurando chifres na cabeça de égua. Talvez não.

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Aqui, todavia, podemos seguir pistas rumo a uma auto-ironia, um certo cinismo relacionado à cena folk, na qual Dylan havia sido alçado ao pedestal e, até mesmo, toques sobre a jovialidade e o "desencanamento" do rock inglês, os quais, ele "traria de volta pra casa" no álbum seguinte ("Bringing It All Back Home" que, em tradução literal quer dizer "trazendo tudo isso de volta pra casa").

Mesmo em um momento convencional, como podemos perceber em "Black Crow Blues", um blues levado no piano, não há como não imaginarmos cenas que assombravam Van Gogh pairando sobre harmonia e melodia.

Uma característica que sempre foi marcante no trabalho de Dylan é o ressentimento do eu lírico direcionado a certas relações pessoais, sejam elas efetivas ou não. "Like A Rolling Stone" é o exemplo mais claro, mas também poderíamos citar "Positively 4th Street" e "Just Like A Woman". "Another Side..." neste sentido, nos traz "Ballad In Plain D", uma epopeia de mais de 8 minutos abordando seu rompimento com Suze Rotolo, sua namorada até então. Nunca tanta roupa suja foi lavada numa canção popular. Dylan destila, sem dó nem piedade, todo ressentimento, raiva e mágoa possíveis ao rompimento e, principalmente, à mãe e à irmã de Suze, apontadas por ele como as responsáveis pela separação. Golpe baixo dirão alguns. Muita coragem em expor questões pessoais dirão outros. Nunca mais elementos pessoais foram por ele, diretamente, demonstrados através de sua arte.

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Quando começou a fazer uso de instrumentos elétricos e acompanhamento de banda em suas gravações, Dylan foi execrado pela mesma comunidade folk que, antes, o endeusara. Tornou-se, assim, o primeiro "traidor do movimento" na história do rock, por não se acomodar à fama e à bajulação. Não foi perdoado por seus bajuladores, por ter esnobado a condição que eles endossavam. Instrumentos elétricos à parte, a temática folk, aqui, já havia ficado para trás. Liricamente falando, a "fase elétrica" de Dylan é um desdobramento desse fascinante "outro lado" que Dylan começou a nos mostrar, mas só se faria evidente revestido nos altos decibéis de uma guitarra elétrica.

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Tracklist do CD:
1."All I Really Want To Do"
2."Black Crow Blues"
3."Spanish Harlem Incident"
4."Chimes Of Freedom"
5."I Shall Be Free No. 10"
6."To Ramona"
7."Motorpsycho Nitemare"
8."My Back Pages"
9."I Don't Believe You"
10."Ballad In Plain D"
11."It Ain't Me Babe"

Gravadora: Columbia Records

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Sobre Claudinei José de Oliveira

Claudinei José de Oliveira é graduado em História e aproveita o tempo vago para ouvir, ler e escrever rock'n'roll e conversar com seus cachorros. Criou e mantém o blog rollandorocha.blogspot.
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