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Steven Wilson: Em 2013, prestava grande homenagem a seus ídolos

Resenha - Raven That Refused to Sing (And Other Stories) - Steven Wilson

Por Guillermo Gumucio
Fonte: Sociedade Publica
Em 10/04/16

Nota: 7

Há três anos, ficava realmente latente a impressão de que Steven Wilson resolvera tirar férias prolongadas do Porcupine Tree e investir pesado na carreira solo. Segundo disco sob a própria assinatura em dois anos, The Raven That Refused to Sing (And Other Stories) (Kscope, 2013) é um compêndio de contos musicais que resgatam o legado de músicos cujas mentes criativas formaram o que se convencionou chamar de "rock progressivo" e "art rock".

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O líder do Porcupine Tree decide abandonar o experimentalismo e render homenagens claras desde a primeira nota de baixo calcado em Geddy Lee que abre o disco até o último segundo melancólico da faixa-título e encerramento. No recheio, frases de piano singelas, a cadência floydana para resolver canções, as levadas do Chapman stick que fizeram a fama de Tony Levin ("The Holy Drinker"), e a tragédia musical do Genesis na sua Broadway em quase tudo.

Nos primeiros versos de "Luminol", já se encontra mais uma pérola autobiográfica da cultura do fetiche musical de Wilson: "As músicas que você aprende a tocar de LPs riscados…", sucessora natural de letras como as de "Pure Narcotic" ("Você continua me odiando / Você continua fazendo com que eu ouça o The Bends) e "Time Flies" ("Eu nasci em 1967 / O ano do Sargent Pepper e Are You Experienced?"). "Luminol" foi apresentada em diversas datas da turnê do disco anterior, Grace for Drowning (Kscope, 2011), inclusive em São Paulo, e ficou evidente para todos os presentes que uma espécie da mais forte nostalgia acometera o roqueiro inglês.

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Para Steven Wilson, o iluminismo musical se deu com um toque de tons lisérgicos, que agora ganham uma coloração sépia. Como abrir uma fenda do tempo e resgatar um gênero inteiro em um único disco? Os timbres que marcaram época são um primeiro passo, mas talvez o compositor também queira escrever sobre amantes-fantasmas ("Drive Home") ou uma profissão tão romântica e aberta a tantas interpretações filosóficas quanto o relojoeiro ("The Watchmaker"). Na era do iPhone e cantoras adolescentes de validade trimestral (ou até o próximo American Idol), Steven Wilson encarna o artesão meticuloso que prefere explorar seu território como ninguém.

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De certa forma, Steven Wilson parece ir contra a maré até mesmo no modus operandi do artista de rock: nesse cenário, as primeiras gravações, de modo geral, explicitam as influências, para só depois consolidar-se uma personalidade própria (para permanecer no âmbito do Genesis, o primeiro álbum do Marillion, Script for a Jester’s Tear, de 1981, é um ótimo exemplo dessa rota). Insurgentes (Headphone Dust, 2008), primeiro trabalho solo de Wilson, é o mais experimental, enquanto que seu sucessor, Grace for Drowning, alivia nesse aspecto, mas ainda conta com momentos extremamente originais, como "Index", a mais autêntica prova do aficionado musical que Steven Wilson é, uma descrição clínica do colecionismo ("Eu sou um colecionador e sempre me interpretaram mal / Gosto das coisas que os outros subestimam / Reúno e faço um catálogo no meu livro / Já tenho tanta coisa que esqueço se não tomo nota"). Neste terceiro disco da carreira solo, Wilson decide prestar um grande tributo a vários de seus heróis como nunca antes. O biênio 2012-2013 foi bastante atípico nesse sentido para o cenário do rock progressivo: Steven Wilson, que vinha inovando e experimentando a cada lançamento, traz o trabalho menos surpreendente sob seu próprio nome; já o Marillion, por exemplo, volta à força total com Sounds That Can’t Be Made (Intact, 2012), talvez o melhor disco do grupo inglês desde Marbles (Dead Ringer, 2004), que abre com os dezoito minutos de "Gaza" e um riff de guitarra matador como há muito não se via Steve Rothery fazer, e o Pineapple Thief continua encantando como sempre, com sua mistura de música pop e rock progressivo guitarreiro da melhor qualidade em All The Wars (Kscope, 2012).

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Mais uma vez, Steven Wilson demonstra que grava discos como um grande pintor planeja seu afresco, dando passos para trás e vislumbrando como trabalhar com cada cor e cada pincelada. Além de as composições evidenciarem a ilha que seu farol quer mostrar neste The Raven that Refused to Sing, a mão de Alan Parsons coloca tudo nos eixos da escola setentista, onde fez história como engenheiro de som do Pink Floyd e seu próprio projeto, o Alan Parsons Project. Para os navegantes de primeira viagem, a mera presença de Alan Parsons nos créditos deve dar uma noção do nível de respeito que Steven Wilson goza nos corredores do progressivo.

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Os solos de guitarra de Guthrie Govan em "Drive Home" e "The Pin Drop" seguem a cartilha de eulogia do disco, mas também carregam uma dose de bom gosto digna de nota. Outro louvor é o resgate do papel fundamental dos sopros no rock progressivo, com Theo Travis responsável por momentos inspiradíssimos na flauta, saxofone e clarinete.

Para aqueles que se identificam com o colecionismo de Wilson, a versão de "Deluxe" conta com duas demos ("The Holy Drinker" e a faixa-título) e um encarte com 128 páginas de textos e fotos. Além desses adicionais, o Blu-ray também traz uma versão lounge de "Drive Home" que poderia tocar em qualquer whisky bar sem problema algum, um chiste de última hora em um registro denso.

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A capa não poderia fugir das pretensões e traz a expressão de terror de In The Court of the Crimson King, disco inaugural do rock progressivo e cartão de visitas de Robert Fripp e seu eterno King Crimson, aliada ao desenho de uma lua, referência clara a Dark Side of the Moon, álbum emblemático do gênero e divisor de águas na carreira do produtor Alan Parsons. Impossível não se lembrar do corvo de Edgar Allan Poe com o título. As fileiras e mais fileiras de discos obscuros e antigos parecem ser as figuras que assombram Steven Wilson durante o sono. Talvez os vinis saiam dos encartes, perfilem-se à frente do músico inglês e digam: "Nunca mais".

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The Raven That Refused to Sing (And Other Stories) pode ser ser adquirido na página official do artista e no iTunes.

Tracklist:
1. Luminol
2. Drive Home
3. The Holy Drinker
4. The Pin Drop
5. The Watchmaker
6. The Raven That Refused to Sing

Publicado originalmente em
http://sociedadepublica.com.br/o-tributo-progressivo-de-steven-wilson/

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