Pink Floyd: A edição luxuosa de "Endless River"

Resenha - Endless River (Deluxe Edition) - Pink Floyd

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Por Ricardo Pagliaro Thomaz
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Nota: 8


"With friends surrounded / The dawn mist glowing / The water flowing

The endless river / Forever and ever" (High Hopes)

O Pink Floyd oficialmente acabou. Fico muito triste por isso. Sou o que se pode chamar de um daqueles fãs tardios da banda, ou seja, nasci em 1980 e até os 12 anos ainda não sabia cantar "Wish You Were Here" ou "Comfortably Numb" de cabeça como sei hoje. Em outras palavras, somente fui fechar os olhos e escutar Dark Side of the Moon embebido naquela atmosfera louca e viajante próximo dos 20 anos. Hoje, com 34 recém-completados, tive três ocasiões oficiais que presenciei desta banda maravilhosa no calor dos acontecimentos: uma delas foi a reunião no Live 8 e o lançamento do DVD Pulse, a segunda a morte do nosso querido Richard Wright e finalmente, este ano, o lançamento oficial do álbum final, The Endless River.

Claro, o fato de ser um fã tardio jamais me impediu de admirar cada trabalho brilhante que a banda realizou ao longo de sua carreira e de conhecer o som do alucinante Syd Barret lá dos primórdios. Por isso hoje não tenho reservas ou vergonha de me anunciar como um dos fãs mais fervorosos da banda inglesa. Ainda posso sonhar em assistir Roger Waters ou David Gilmour em turnês individuais.

No mesmo passo que o grupo de Progressivo me permite adquirir a versão de luxo de seu último álbum também me garante fazer uma última viagem de volta a 1994, quando eu tinha 14 anos, enquanto os gênios de Gilmour, Wright e Mason escreviam este material belíssimo que, 20 anos depois, foi se tornar o canto dos cisnes do grupo. Por isso, esta resenha terá ares nostálgicos.

Eu estava na minha fase do "shredding" quando o Floyd lançou o seu The Division Bell, o que significa que eu curtia artistas como Steve Vai, Satriani e bandas como Van Halen, AC/DC e Guns'N'Roses, basicamente. Havia o Queen também, que basicamente comprendia o Greatest Hits II. Sendo eu um dos poucos reais amantes de Rock na cidade, não havia muita coisa para se basear ou gente para conversar. Graças a meu professor de música, meus canais musicais se abriram imensamente e eu pude descobrir o Blues e artistas mais, digamos, slowhand e melodiosos, e finalmente, artistas como o Pink Floyd entraram em minha vida de fato. E foi uma explosão, escutar Pulse e perceber todas aquelas nuances melódicas que eu raramente dava atenção antes. Foi antes de tudo, uma autodescoberta pessoal, assim como foi com o Genesis, outra banda a qual tenho como categoria fã tardio, apenas um pouco antes do Floyd. Vamos para 2002, quando escutei The Division Bell pela primeira vez na íntegra e fiquei apaixonado por aquele disco. Eu já sabia que se tratava de uma das empreitadas floydianas mais comercialmente viáveis, após audição de discos clássicos como Dark Side of the Moon, Wish You Were Here, The Wall e Meddle, claro, audições inspiradas após ouvir o Pulse.

Mas paralelamente à veia comercial do, claro, inegavelmente belíssimo, The Division Bell, o trio remanescente do Pink Floyd nos preparava algo que talvez remeta à sua fase mais instrumental e experimental da década de 70. Eu comumente associo The Endless River ao Ummagumma, outro disco do Floyd que tem em sua grande maioria passagens instrumentais. Quando penso nisso, as vezes me pego rindo de minha própria ingenuidade, apesar da estrutura das faixas ter semelhança com Ummagumma, porque aqui, o Floyd foi um pouco mais além. Digamos que The Endless River é o experimento da fase trio do grupo, ou seja, o DNA floydiano da fase inicial definitivamente está lá, mas as músicas são muito mais reminiscentes do período da banda dos anos 80 e 90. Há a veia new age também, uma vez que temos muitos temas de background e... bem, o sentimento que agrava esses temas do disco, pelo menos à minha pessoa forma a seguinte imagem: pense em um senhor no fim de sua linha de vida; aos poucos ele caminha novamente ao longo dessa sua linha de vida pegando os pedaços da existência dele no mundo. É assim que eu vejo este trabalho. Existem muitos momentos que você recaptura na memória e diz "puxa, eu lembro de ter ouvido essa melodia antes no disco The Wall, essa outra naquele outro disco", e por aí vai. Este trabalho instrumental eu vejo assim, como um pouco de tudo aquilo que o Floyd foi e representou em diversos momentos de sua existência como banda. Pense como se fosse as notas de rodapé de um livro.

O que me leva à seguinte questão: são notas de rodapé boas de rever? A resposta é sim, ENQUANTO notas de rodapé! Ou seja, não há aqui um momento sequer do disco que você ouça e não diga "é, eu já ouvi isso antes". Talvez o grupo estivesse guardando estes momentos para quando decidisse anunciar oficialmente o fim da banda, talvez seja por isso que deixaram este material na gaveta por tanto tempo.

A versão deluxe do disco é simplesmente linda, soberba. Uma caixa de papelão luxuosa contendo a ilustração melancólica de um navegante remando em direção ao desconhecido, detalhe, remando acima das nuvens. Eu sempre chamo esse navegante da capa de Richard Wright, acho que foi proposital a ilustração ter semelhança com o falecido tecladista do grupo, simbólico até, já que se trata de um álbum póstumo. E já que se trata de Floyd, vamos saborear o momento de chegar à música com calma e reverência, como se saboreia um bom vinho.

Abrindo a caixa do set, encontramos um digibook com informações sobre cada faixa, incluindo a letra de "Louder Than Words" que é a única faixa cantada do disco, além de ilustrações belíssimas, desde artes gráficas a fotos do grupo durante e entre as sessões do álbum, quase todas de 1994, uma ou outra mais atual com Gilmour e Mason. Passado o digibook luxuoso, temos cartões do grupo, um deles bem interessante, que se trata de uma ilustração de perspectiva, daquelas em 3D que, dependendo de que perspectiva você olhar, verá algo diferente; os outros dois cartões se tratam de uma foto atual de Gilmour e Mason, a mesma em tamanho menor do digibook e um cartão com a ilustração em contorno de duas cabeças, bastante parecidas com aquelas da capa do The Division Bell. Tudo muito bem impresso e digno de uma box de luxo. Passados os cartões, finalmente chegamos no que nos realmente interessa, o álbum final do grupo e o DVD com o material remanescente, guardados em duas embalagens finas de papelão, estrategicamente colocados no fundo da embalagem de luxo.

Vamos falar do CD. Ele está dividido em 4 "Sides" ou lados.

Side 1: A faixa de abertura, "Things Left Unsaid" inicia com samples vocais da banda e vai aumentando em uma música instrumental climática, lenta e que remete a um som bem ambiental. Há momentos, como falei acima que se nota passagens de outros álbums da banda, coisas bem parecidas com o que já ouvimos anteriormente. É o que se nota quando começa "It's What We Do", que me dá ares de Dark Side of the Moon, tanto no quesito andamento quanto no quesito melodia. É uma de minhas favoritas do álbum e não é para menos. "Ebb and Flow" é apenas um encerramento ao Side 1, o que nos leva ao próximo momento do álbum.

Side 2: inicia-se com "Sum", e uma sonoridade mais parecida com a fase do Floyd de 1987 a 1995, segue para "Skins" em uma jam instrumental tendo Mason como destaque enquanto Gilmour destila suas passagens de guitarra com som de nota prolongada tão característicos, evocando aí até momentos do período inicial da banda, "Unsung" é apenas uma bridge para a próxima, a lindíssima "Anisina" que tem um tom bastante melancólico em sua melodia, bastante apropriado até. Pesquisando, descobri que o termo 'anisina' é turco para 'em memória a'. Está aqui a única faixa do álbum feita em 2014, como uma homenagem a Wright de Gilmour e Mason e com uma sonoridade bastante reminiscente de "Us and Them", com Gilmour procurando emular ao máximo o teclado de Wright como forma de homenagear seu amigo.

Side 3: Inicia-se um prelúdio introdutório, "The Lost Art of Conversation" para desembocar em outra de minhas favoritas do disco, "On Noodle Street", que é bem climática, sem grandes incursões solo; segue esta estação do disco em mais uma breve bridge, "Night Light" que desemboca na ótima "Allons-Y (1)" que é uma grande favorita minha, com uma sonoridade bastante remanescente de The Wall e que também me lembrou bastante o arranjo de "Sorrow", do disco A Momentary Lapse of Reason. O título, interessante por si só provém do francês, que quer dizer "venha comigo" ou "vamos lá"; segue a bridge "Autumn '68" (sendo esta uma referência a uma fase inícial do grupo que teve uma certa turbulência, ao serem banidos de tocarem no Royal Albert Hall por terem deixado objetos perigosos em cima do palco após um show) que desemboca na sequência em "Allons-Y (2)", curiosamente a mesma estrutura da faixa "Another Brick in the Wall" composta de três partes, sem falar no arranjo semelhante. Assim, a terceira etapa do disco termina com "Talkin' Hawkin'" uma melodia lenta e arrastada, remanescente da sonoridade mais clássica do grupo e contendo os mesmos samples de voz feitos por Stephen Hawking em The Division Bell, na faixa "Keep Talking", fechando assim o Side 3.

Side 4: inicia-se com "Calling", cuja introdução me faz lembrar vagamente de "Echoes", até mesmo pelos efeitos arranjados por Gilmour com uma sonoridade bastante soturna e espacial e continua em "Eyes to Pearls", contendo um de meus arranjos favoritos no álbum composto pelo campo harmônico do violão de Gilmour; "Surfacing" dá sequência com o trio em perfeita sintonia lembrando novamente seu período mais clássico e termina na última faixa do álbum, "Louder Than Words", a primeira e única música cantada do álbum, e eu juro que imaginei o Gilmour cantando essa letra para um estarrecido Roger Waters, juro que imaginei! Que versos absurdamente condizentes à relação tempestuosa que ambos nutriam! Acho que, no fim das contas, todos alí poderiam ter parte nestes versos. Fechando a faixa, volta-se ao início da primeira faixa do álbum, com os sons e samples que o iniciaram, dando a ideia de um fecho de círculo, o círculo completo... o fim e o início se encontram novamente.

O álbum inteiro na verdade nutre-se deste tema, uma vez que resgata vários momentos da carreira da banda. Trata-se de um encerramento honrado e condizente com o momento, um adeus.

Passemos então ao DVD. Ele contém 4 setores, Album, Extras, Set Up e Credits. O primeiro nos apresenta o mesmo álbum que acabamos de ver, no formato de vídeo. Não contém nada de especial estes vídeos, apenas o nome das faixas impressos na tela e as mesmas músicas do álbum regular. Os dois últimos setores do DVD são auto-explicativos, com a configuração de áudio podendo ser alterada entre Stereo PCM, 5.1 Dolbi Digital e 5.1 DTS, dependendo do sistema que você possuir. Passemos então aos extras, que se dividem em dois momentos. No primeiro, vídeos mostrando a banda em sessões de gravação executando algumas das músicas e algum material extra; no segundo, mais três audio-vídeos com as três últimas composições do grupo.

Vamos ao primeiro momento. Temos o vídeo inicial, com Gilmour em 2014, gravando "Anisina" no piano em uma boa homenagem a Wright. Os outros 5 vídeos, são sessões de gravações de 1993; o primeiro, com 1:20 minutos de material não usado no disco, portanto o nome "Untitled" (sem título); nos próximos, temos uma composição de Gilmour, "Evrika (A)" e o respectivo vídeo da sessão de gravação, podemos ver Gilmour solando em cima de uma base já pré-gravada. Depois temos o vídeoclipe de "Nervana", uma composição que remete muito tanto ao Floyd inicial quanto ao Floyd noventista, uma vez que há bastante arranjos do trio mas também aquele clima de começo do Floyd. Podemos até arriscar um palpite que seja uma referência à banda de Kurt Cobain que estava em seu auge no início dos anos 90. Então temos um vídeo de aproximadamente 6 minutos com as jam sessions de "Allons-Y", inclusive com algumas passagens adicionais interessantes, proveniente destas jam sessions e, por fim, temos "Evrika (B)", sequência da parte A anterior mas com ajustes de andamento e arranjo em um trabalho instrumental sempre primoroso do grupo. O nome provavelmente foi colocado a esmo, uma vez que a palavra "evrika" nada mais é do que o grego de "eureca".

No segundo momento, temos os audio-vídeos com a faixa "TBS9" que é basicamente uma faixa de background climática, a mais interessante "TBS14", faixas estas que talvez não haviam mesmo planejado fazer nada e deixaram o nome padrão das pistas, claro, não deixam de conter o DNA floydiano nelas, mas não chegam a ser algo muito interessante. A segunda tem algumas mudanças de andamento e melodias que remetem à uma sonoridade que possivelmente inspirou o Marillion era Hogarth. Por fim, o áudio-vídeo de "Nervana".

O DVD em particular dá aquela impressão de ser algo mais documental mesmo, contendo alguns poucos momentos interessantes e outros que se mostram claramente como sobras de material, embora o disco como um todo não deixe de ser uma grande sobra também, levando vantagem em ser, de fato, um projeto paralelo desenvolvido pela banda na época de lançamento de seu último disco.

Isto joga até uma nova luz em relação ao álbum The Division Bell, se pensarmos que haviam dois trabalhos sendo desenvolvidos naquele exato momento. De um lado, o disco que conhecemos e uma banda disposta a avançar e novamente marcar seu nome na história da música e, de outro, músicos mergulhados em nostalgia, já possivelmente vislumbrando o fim de um caminho e preparando seus últimos ritos. Dizem que quando alguém está prestes a morrer, toda sua vida passa diante de seus olhos em um flash. Este é o The Endless River. O fim do caminho de uma das bandas mais brilhantes e icônicas que já existiram.

Shine on, you crazy diamonds, shine on. Forever and ever...

The Endless River (Deluxe Edition) (2014)
Pink Floyd

Tracklist CD:
Side 1:
1. Things Left Unsaid
2. It's What We Do
3. Ebb and Flow
Side 2:
4. Sum
5. Skins
6. Unsung
7. Anisina
Side 3:
8. The Lost Art of Conversation
9. On Noodle Street
10. Night Light
11. Allons-Y (1)
12. Autumn '68
13. Allons-Y (2)
14. Talkin' Hawkin'
Side 4:
15. Calling
16. Eyes to Pearls
17. Surfacing
18. Louder than Words

Tracklist DVD:
- The Endless River full album
- Extras:
Video:
1. Anisina
2. Untitled
3. Evrika (A)
4. Nervana
5. Allons-y
6. Evrika (B)
Audio-video:
1. TBS9
2. TBS14
3. Nervana

Discografia anterior:

- The Division Bell (1994)
- A Momentary Lapse of Reason (1987)
- The Final Cut (1983)
- The Wall (1979)
- Animals (1977)
- Wish You Were Here (1975)
- The Dark Side of the Moon (1973)
- Obscured by Clouds (1972)
- Meddle (1971)
- Atom Heart Mother (1970)
- Ummagumma (1969)
- More O.S.T. (1969)
- A Saucerful of Secrets (1968)
- The Piper at the Gates of Dawn (1967)

Site oficial:
http://www.pinkfloyd.com


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Sobre Ricardo Pagliaro Thomaz

Roqueiro e apreciador da boa música desde os 9 anos de idade, quando mamãe me dizia para "parar de miar que nem gato" quando tentava cantarolar "Sweet Child O'Mine" ou "Paradise City". Primeiro disco de rock que ganhei: RPM - Rádio Pirata ao Vivo, e por mais que isso possa soar galhofa hoje em dia, escolhi o disco justamente por causa da caveira da capa e sim, hoje me envergonho disso! Sou também grande apreciador do hardão dos anos 70 e de rock progressivo, com algumas incursões na música pop de qualidade. Também aprecio o bom metal, embora minhas raízes roqueiras sejam mais calcadas no blues. Considero Freddie Mercury o cantor supremo que habita o cosmos do universo e não acredito que há a mínima possibilidade de alguém superá-lo um dia, pelo menos até o dia em que o Planeta Terra derreter e virar uma massa cinzenta sem vida.

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