Alice Cooper: "Dragontown" segue a mesma vibe do "Brutal Planet"
Resenha - Dragontown - Alice Cooper
Por Neimar Secco
Postado em 27 de agosto de 2014
Um ano depois de sermos apresentados ao BRUTAL PLANET, chegamos à sua capital, seu centro nervoso e inteligente, DRAGONTOWN.
Não é usual que álbuns que se propõem a ser continuação de um anterior sejam tão bons ou melhores que o seu "primeiro capítulo". Basta ver a disparidade entre duas duplas de álbuns lançadas entre 1975 e 76: A NIGHT AT THE OPERA e A DAY AT THE RACES do QUEEN e WELCOME TO MY NIGHTMARE e ALICE COOPER GOES TO HELL de Alice Cooper. Em ambos os casos, tudo de melhor estava no primeiro volume, sendo o segundo apenas um (até caprichado, convenhamos), apêndice dos seus respectivos originais.
Curiosamente e felizmente não é isso que acontece com a dupla BRUTAL PLANET / DRAGONTOWN. Ambos têm a mesma vibe, a mesma qualidade sonora, o mesmo Alice Cooper enfático e convincente, a mesma banda afinadíssima e letras tão impactantes quanto às de seu par complementar. Não por coincidência, a produção ficou novamente a cargo de Bob Marlette, de BRUTAL PLANET.
DRAGONTOWN abre com "Triggerman", um serial killer desprovido de qualquer identidade e critério a não ser sua ‘necessidade’ de realizar o que sabe fazer: matar. Destaque aqui para a letra e para o arranjo. Ponto falho: a voz de Alice parece encoberta pela massa sonora da música, o que não aconteceu no álbum anterior.
"Deeper", a segunda faixa merece menção especial: o início do caos, quando todas as evidências de um final nada esperançoso está a caminho. A interpretação de Alice, os backing vocals, o ritmo lento, mas pesado do arranjo, todos os itens dessa música são especialmente climáticos, até que constatamos que "Deeper", apesar de ser uma ótima música por si mesma, acaba funcionando como uma espécie de abertura para a faixa título: "Dragontown". Se Alice Cooper é nosso guia na visita à capital do seu planeta brutal, sinta-se como estivesse visitando o inferno sendo guiado pelo próprio Lúcifer. Logo na primeira vez que canta o refrão, Alice nos paralisa e mostra que o que tem a nos mostrar é apenas o começo de uma viagem cheia de histórias e nuances. Excelente solo de Ryan Roxie.
O que tanto obscurece a alma humana além da ambição desmedida tanto por dinheiro, como pela busca de poder e por sexo como fim e não como meio de satisfação, e a morte, que todos sabemos ser nossa única certeza? "Sex, Death And Money" embalada por uma base potente proporcionada pelas guitarras de Marlette e Roxie, o baixo de Greg Smith e a bateria de Kenny Aronoff nos fazem chegar à conclusão de que em maior ou menor grau, somos todos muito atraídos por "sex" and "Money" e que o mistério que envolve "death", pelo menos, nos perturba bastante.
Você é um cara bronco? Ou, pelo menos, nem encosta numa pia para lavar a louça, num fogão para cozinhar ou ver filmes mais açucarados, é homofóbico? Ok, assim como o personagem de Alice Cooper, você encontrou sua referência em "Fantasy Man", talvez a faixa mais radiofônica do CD, essa ode ao machismo e a qualquer forma de frescura é, pelo menos divertida.
Em "Somewhere In The Jungle", uma espécie de prima-irmã de "Pick Up The Bones" de BRUTAL PLANET, Alice externa seu lado cidadão, com preocupações e questionamentos sociais, um lado seu presente, pelo menos desde "Dead Babies" e "Generation Landslide" de seus clássicos álbuns KILLER e BILLION DOLLAR BABIES, respectivamente.
"Disgraceland", mais uma de suas homenagens ao Rei Elvis Presley, nesse caso, um lamento de como Elvis se acabou e morreu, cedo demais, aos 42 anos em sua mansão "Graceland", que nesse caso é rebatizada como o nome que representa bem o fim que Elvis levou ao sucumbir à sua dependência de medicamentos.
"Sister Sarah", ok, sister, irmã, membro de uma congregação cristã e você acha que isso é garantia de alma generosa, de empatia com os desfavorecidos e compaixão. Bem, se você conhecer "Sister Sarah" terá que mudar seus conceitos. Novamente Alice narra uma história que você preferiria não ouvir, se acredita na bondade humana. Mas calma, aqui tudo é (ainda) ficção. Destaque para a presença de Calico, a filha mais velha de Alice, nos backing vocals.
"Every Woman Has A Name" é a indefectível balada do álbum. Nada que se compare à ótima "Take It Like A Woman" de BRUTAL PLANET, a não ser a temática ‘sofrida’ de uma vida comum, padrão, de uma senhora que relembra seus anos de juventude através das fotos do passado. O instrumental, basicamente um violão e a voz calma e ‘sensível’ de Alice dão um momento de 'relax' a essa viagem cheia de vícios tão humanos.
Esse desabafo sensível é sucedido por "I Just Wanna Be God". Alguém do clã do "Triggerman" externa sua ambição de tudo poder controlar, dominar.
Aonde tanta ambição e ânsia de poder conduzem? Claro, na nossa cultura cristã, ao fim da linha e com tantos pecados no prontuário, você vai acabar chegando ao inferno, como em "It’s Much Too Late", que alguns consideram mais uma das homenagens de Alice ao seu amigo do tipo "os opostos se atraem", John Lennon. O personagem dessa faixa repassa todos os seus vícios e todas as vezes em que se recusou a dar vazão a eles, esquecendo, que toda ação, boa ou má, é precedida pela intenção. E quando se dá conta de seu erro de avaliação, já é tarde demais.
"The Sentinel" fecha o álbum com um personagem que, ao contrário dos religiosos, sejam católicos, judeus, muçulmanos ou budistas, sofrem com seus dilemas morais. O Sentinela de plantão aqui apenas dá vazão a seus sentimentos menos nobres e se conduz através deles. Lógico que não é isso que almejamos ou em que nos miramos, mas não se pode negar a existência do mal pelo mal em si. Alice nos deixa assim, vasculhando nossas consciências sobre como nos guiamos pela vida, se nosso destino é uma "Dragontown", ou se dela temos como escapar. Parece que, na visão dele, depende de cada um de nós.
COME ON, I’VE GOT SOMETHING TO SHOW YOU
COME ON, YOU THOUGHT THAT IT WAS OVER...
NOTAS:
Lançamento: Agosto de 2001
FAIXAS
01 Triggerman [3:58]
02 Deeper [4:34]
03 Dragontown [5:04]
04 Sex, Death and Money [3:37]
05 Fantasy Man [4:05]
06 Somewhere In The Jungle [5:20]
07 Disgraceland [3:32]
08 Sister Sara [4:33]
09 Every Woman Has A Name [3:43]
10 I Just Wanna Be God [3:51]
11 It's Much Too Late [4:38]
12 The Sentinel [3:53]
FICHA TÉCNICA:
Produced by Bob Marlette
Executive Producer Bob Ezrin
Musicians
Guitars - Ryan Roxie , Tim Pierce, Wayne Swinng, Bob Marlette
Bass - Greg Smith, Bob Marlette
Drums - Kenny Aronoff
Keyboards/Programming - Sid Riggs, Bob Marlette
String Arrangement - Bob Marlette
Backing Vocals - Ryan Roxie, Teddy ZigZag Andreadis, Eric Dover, Calico Cooper, Giovanna Moraga(`Sister Sara`)
The Tour: Descent Into Dragontown Phase One
Band:
Ryan Roxie – Guitar
Eric Dover – Guitar
Greg Smith – Bass
Eric Singer – Drums
Teddy `Zigzag` Andreadis – Keyboards
Calico Cooper - Nurse/Assassin/Britney etc.
Setlist:
01 Sex Death And Money/Brutal Planet/Dragontown(medley)
02 Sanctuary
03 Eighteen
04 Welcome To My Nightmare
05 Go To Hell
06 Billion Dollar Babies
07 Teenage Frankenstein (Feed My Frankenstein in Europe)
08 Triggerman (Wicked Young Man In Europe)
09 Nurse Rozetta
10 Dead Babies
11 Ballad Of Dwight Fry
12 I Love The Dead/Devil`s Food/Black Widow – Instrumental
13 Drum Solo
14 No More Mr Nice Guy
15 Is It My Body
16 Fantasy Man
17 Be My Lover
18 Lost In America
19 Every Woman Has A Name
20 Only Women Bleed
21 Poison
22 Under My Wheels
23 School`s Out
24 Elected
25 Fire
26 Department Of Youth
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