Alice Cooper: Esse é um planeta tão brutal, um mundo tão feio!

Resenha - Brutal Planet - Alice Cooper

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Por Neimar Secco
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


O adolescente que não sabia o que queria em 1971 (I'm in the middle without any plans / I'm a boy and I'm a man / I'm eighteen / and I don't know what I want / Eighteen / I just don't know what I want / Eighteen / I gotta get away), que no ano seguinte, estava farto de professores e da escola (Well we got no class / And we got no principles / And we got no innocence / We can't even think of a word that rhymes / School's out for summer / School's out forever / My school's been blown to pieces) chegava ao crepúsculo do século 20, denunciando, meses antes do 11 de setembro de 2001: Esse é um planeta tão brutal, um mundo tão feio!
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BRUTAL PLANET, produzido por Bob Marlette (produtor das músicas de estúdio do REUNION do Black Sabbath), juntamente com KILLER, SCHOOL’S OUT, WELCOME TO MY NIGHTMARE, FROM THE INSIDE e DADA compõem um grupo particular dentre os álbuns de Alice Cooper lançados até então: cada um em sua temática e sonoridade contém uma crueza e um direcionamento sem rodeios, uma sinceridade que, talvez, só o punk consiga expressar tão diretamente como esses álbuns. BRUTAL PLANET é o ápice desse caráter direto ao ponto da obra de Alice Cooper até então, que seria complementado com sua sequencia, DRAGONTOWN, lançado no ano seguinte e que, em breve, será resenhado aqui.

O peso das guitarras e da bateria e a potência da base do contrabaixo, embalam de forma eficiente e precisa a denúncia de Alice já na faixa de abertura dessa obra, que, infelizmente, não contou com a promoção de uma multinacional de maior porte e maior presença no mercado roqueiro para promove-lo melhor. E, por falar em peso, esse é sem dúvida o álbum mais pesado de Alice Cooper, superando RAISE YOUR FIST AND YELL, de 1987.


O ouvinte desavisado (ou malicioso) poderia dizer que Alice estava apenas seguindo a corrente sonora dos novos tempos, o segmento hard/heavy, mas convenhamos, poucas vezes ouvimos Alice Cooper “desabafando”, “denunciando” suas ideias de forma tão autêntica e pessoal. Se a faixa título chegava para avisar que habitávamos um planeta brutal, a segunda trazia talvez seu maior representante: “Wicked Young Man”, um personagem que admitia que não são os jogos de videogame que ele joga, nem os filmes que vê, nem a música que “escava”, mas apenas o seu caráter perverso, inspirado no símbolo da suástica que permeia sua maldade e ódio que esse personagem, com tanto prazer, alimenta. Destaque nessa faixa para a bateria “metralhadora” de Eric Singer. O que temos a seguir é “Sanctuary”, uma descrição de pessoas que não vêem nada à sua frente a não ser o piloto automático das obrigações diárias, um bando de autômatos sem rosto, desprovidos de personalidade e de pensamentos próprios, que Alice compara ao personagem Quasimodo, personagem central da obra de Vitor Hugo, Notre-Dame de Paris.

The Controller
The Controller

A seguir temos “Blow Me A Kiss”, uma espécie de profunda ironia ao pedir que o interlocutor o trate com afeto por ele ser tudo o que seu algoz condena e depois pede para que o mesmo o expulse, uma denúncia de todas as formas de intolerância:

Calico Cooper, passeando com o papai
Calico Cooper, passeando com o papai

So blow me a kiss 'cause I'm black (Então mande-me um beijo, porque sou negro)
Blow me a kiss 'cause I'm gay (Mande-me um beijo, porque sou gay)
Blow me a kiss 'cause I'm shakin' (Mande-me um beijo pois estou tremendo)
Say goodnight then blow me away (Dê boa noite e então me explse)
Blow me away (Me expulse)
Blow me away (Me expulse)
E a obra segue com expressões de voracidade, “Eat Some More”, uma música que denuncia injustiças sociais, na qual a interpretação de Alice exala ironia em seu tom enquanto profere seu inconformismo:

Sixty million tons of meat (Sessenta milhões de toneladas de carne)
Spoiling in the stinking heat (Apodrecendo no calor infecto)
Train loads full of moldy bread (Cargas de trem cheias de pão mofado)
Millions will still go unfed (Milhões ainda ficarão sem alimentos)
Acres full of dying wheat (Acres repletos de trigo morto)
Burning brightly at our feet (Queimando ‘vivamente’ aos nossos pés
A billion tons of ocean fish (Um bilhão de toneladas de peixes oceânicos)
Some with nothing on their dish (Alguns sem nada em seus pratos)

A falta de alimentos pode matar, certo, então que se recolham os ossos: “Pick Up The Bones” vem a seguir, uma das faixas mais climáticas, se não a mais climática do álbum. Nosso personagem se encontra em meio aos restos mortais de sua família.


Como complemento natural a esse estado de coisas, chega “Pessi-mystic”, uma faixa, curiosamente composta em parceria com o assistente pessoal de Alice Brian “Renfield” Nelson, falecido em 2009.

I'm pessi-mystic (Sou pessimista)
I'm so fatalistic (Sou muito fatalista)
I'm pessi-mystic (Sou pessimista)
I don't believe a thing (Não acredito em coisa alguma)
I'm pessi-mystic (Sou pessimista)
I'm so nihilistic (Sou muito niilista)
I'm pessi-mystic (Sou pessimista)
For what tomorrow brings (Sobre o que o amanhã traz)
Não se pode afirmar que Alice tenha se inspirado nessa referência, mas a letra de “Pessi-mystic” remete à do antigo amigo de bebedeiras, John Lennon, em sua clássica “God”.
Em seguida vem “Gimme”, o retrato de um personagem dominador, pronto para subjugar àqueles desprovidos de armas ou condições para se manter por si só. O personagem dessa música requer de seu alvo confiança cega em seus propósitos e ações, alegando estar sinceramente ao lado daquele a quem pretende dominar.


“It’s The Little Things”, a faixa seguinte, é um desabafo ranzinza de alguém farto de receber sempre a mesma abordagem, as mesmas perguntas, como se dissesse: não vê que não sou só isso??? Além de deixar claro que sua tolerância tem um limite bem tênue.

“Take It Like A Woman”, a bela balada do album é uma releitura de “Only Women Bleed”, do album WELCOME TO MY NIGHTMARE de 1975, destaque para o arranjo e, em especial, o piano de Bob Marlette. Alice quer dar a entender que o único ser realmente forte e resistente nesse planeta brutal é a mulher? Talvez. Mas seja como for, é uma bonita homenagem às mulheres.


“Cold Machines”, música que Alice já disse ter sido inspirada em Marilyn Manson, fecha o álbum. O Planeta Brutal é operado e colocado em movimento por seres robóticos, sem alma, sem ideias próprias, que não se relacionam, não se reconhecem e que marcham feito zumbis rumo a um calabouço de onde não se escapa com facilidade. Condicionados como os personagens de castas funcionais ou intelectualmente mais desenvolvidas de Admirtável Mundo Novo, a vontade não basta para alterar todo um estado caótico de coisas. E ataque às torres gêmeas nem havia ocorrido ainda.

Se Alice foi profético ou apenas sentiu o rumo que o nosso planeta estava tomando, não é o caso de se orgulhar, apenas de lamentar o fato de BRUTAL PLANET, ao contrário da obra de Aldous Huxley, estar um tanto mais próximo da realidade de sua época. A sonoridade que nos empolga vem embalada pela mensagem que nos alerta que o mundo real não passa prioritariamente nos canais de variedades ou de culinária. O mundo que nos cerca passa priorotariamente na CNN.

NOTAS:

FAIXAS:
01 Brutal Planet (Cooper/Marlette) [4:39]
02 Wicked Young Man (Cooper/Marlette) [3:50]
03 Sanctuary (Cooper/Marlette) [4:00]
04 Blow Me A Kiss (Cooper/Marlette/Ezrin) [3:18]
05 Eat Some More (Cooper/Marlette) [4:35]
06 Pick Up The Bones (Cooper/Marlette) [5:15]
07 Pessi-Mystic (Cooper/Marlette/Nelson) [4:56]
08 Gimme (Cooper/Marlette) [4:46]
09 It's The Little Things (Cooper/Marlette) [4:11]
10 Take It Like A Woman (Cooper/Marlette) [4:12]
11 Cold Machines (Cooper/Marlette) [4:18]

Edições especiais da Austrália e do Japão continham uma faixa bonus: “Can't Sleep, Clowns Will Eat Me” (Cooper/Marlette/Blake/Wilson) [4:09].

Alguns meses depois do lançamento original a gravadora Spitfire lançou uma ‘edição da tour’ na Europa que continha as seguintes faixas adicionais:

It's The Little Things (Live) [5:19]
Wicked Young Man (Live) [3:32]
Poison (Live} [4:52]
My Generation (Live) [1:32]

FICHA TÉCNICA:
Produced by Bob Marlette
Executive Producer: Bob Ezrin
Mixed, engineered and arranged by Bob Marlette
Cover Design: Kane Roberts
Musicians
Ryan Roxie – Guitars
Phil X – Guitars
China – Guitars
Bob Marlette – Bass
Eric Singer – Drums

TOUR:
Os shows dessa tour foram os mais teatrais e cênicos desde THE NIGHTMARE RETURNS TOUR, do álbum CONSTRICTOR, de 1986. Foi lançado o DVD BRUTALLY LIVE, com o show realizado no Hammersmith Apollo, em Londres na noite 19 de Julho de 2000.

Banda:
Ryan Roxie – Guitar
Pete Friesen – Guitar
Greg Smith – Bass
Eric Singer – Drums
Teddy `Zigzag` Andreadis - Keyboards (Da banda de Ryan Roxie ‘Glamnation’ e dos Guns' And Roses)

SETLIST (MAIS FREQUENTE):
01 Brutal Planet
02 Gimme
03 Go To Hell
04 Blow Me A Kiss
05 Eighteen
06 Pick Up The Bones
07 Feed My Frankenstein
08 Wicked Young Man
09 Dead Babies
10 Ballad Of Dwight Fry
11 I Love The Dead/Devil`s Food/Black Widow – Instrumental
12 Drum Solo
13 Dwight Fry Intro
14 No More Mr Nice Guy
15 It`s Hot Tonight
16 Caught In A Dream
17 It`s The Little Things - The first few shows has Guilty here instead.
18 Poison
19 Take It Like A Woman/Only Women Bleed
20 You Drive Me Nervous
21 Under My Wheels
22 School’s Out
23 Billion Dollar Babies
24 My Generation
25 Elected
26 Brutal Planet Reprise

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Sobre Neimar Secco

Welcome to my nightmare. Sou professor de inglês e de português e também tradutor eventual. Rock sempre foi e continua sendo a minha trilha sonora de todas as horas. Minhas preferências são hard rock, progressivo e classic rock em geral (anos 60, 70 e 80). Bandas favoritas: Alice Cooper, Led Zeppelin, Black Sabbath, Ozzy Osbourne, Pink Floyd, Beatles, Creedence, The Doors, Dire Straits, entre muitas outras.

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