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Sepultura: "Against", o álbum mais injustiçado da banda?

Resenha - Against - Sepultura

Por Arysson Lima
Em 19/05/14

O ano de 1996, para a banda brasileira de maior repercussão em toda a história, foi formado por antíteses. Sim, antíteses. Nesse ano, eles colhiam os frutos do seu álbum melhor sucedido em toda a história, Roots, e chegariam a ser cotados como a maior banda de Metal do mundo por diversas revistas, zines e até mesmos jornais. Mas todo esse sucesso convivia em torno da tensão interna entre os membros da banda. Andreas, Igor e Paulo não queriam mais trabalhar com Glória Cavalera, empresária e esposa de Max. O resto, todos já sabem: Ocorre a saída do frontman, para a entrada de Derrick Green, que está até hoje na banda.

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Muito especulou-se sobre o que aconteceria ao Sepultura na época. Alguns pensavam que a banda poderia acabar. Outros ainda apostavam no futuro da banda, que poderia voltar ainda mais forte do que antes. Nomes como Chuck Billy, do TESTAMENT, e Robin Flynn, do MACHINE HEAD, haviam sido cotados para assumirem os vocais por toda a temporada. Mas, por unanimidade, o até então desconhecido Derrick Green, também norte-americano, acabou sendo o escolhido. Aí então, durante todo o ano de 1997, a banda se recolheu para iniciar os preparativos do primeiro álbum sem Max Cavalera: "Against". Este foi o penúltimo álbum do Sepultura distribuído pela Roadrunner e também representou o primeiro fiasco em venda da banda em 10 anos. A própria gravadora recusou-se a acreditar no futuro da banda e investiu todas as fichas no debut da nova banda do ex-frontman, o Soulfly, estratégia essa que deu um tanto certo para a gravadora, mas acabou deixando a banda com um profundo ressentimento, o que levaria o quarteto a deixar o selo dois anos mais tarde.

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A banda resolveu usufruir de experimentalismos nesse novo álbum. Outrora não poderiam abandonar a fórmula do sucesso de álbuns anteriores (Chaos A.D e Roots, que apresentam grandes quantidades de grooves nas composições), mas eles queriam ir além. Desde a capa, a banda adicionou à sua sonoridade influências de música japonesa (em grande parte, devido a Igor Cavalera e seu fascínio por tal), e também o Hardcore (Derrick havia cantado em bandas desse estilo, anteriormente a sua entrada) além da música brasileira, que já lhes era familiar. A produção de Howard Benson, acabou por extinguir aquela característica abafada do álbum anterior, com todos os instrumentos soando limpos e em seu devido lugar.

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Primeira foto promocional do Sepultura com Derrick Green
Primeira foto promocional do Sepultura com Derrick Green

O álbum inicia soturno, com algumas leves batidas num tambor, até iniciar-se um devastador solo de bateria de Igor Cavalera e explodir numa música rápida e animada. "Against" foi a faixa de abertura do álbum. A letra, carregada de raiva, aparentemente fala sobre aqueles que pensavam sobre o fim da banda, ou mesmo desejavam isso e não acreditavam num futuro sem Max Cavalera. A faixa tem pouco menos de 2 minutos, e está a deixa das influências de Hardcore, bem mais latentes que em álbuns anteriores.

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A segunda faixa, "Choke", inicia-se de uma forma bastante "Sepultura de ser". Um riff bastante grooveado, e uma bateria lenta bem ao jeito do Igor, com pedais duplos em grande parte dos momentos e uma passagem brevemente acústica e tribal, para depois acelerar novamente. A letra fala sobre uma pessoa falsa, sufocada em seu próprio orgulho, o ego e ganância. Seria essa uma indireta a Max Cavalera? Conspirações a parte, essa é a única música do álbum ainda tocada ao vivo, e ao que parece, é bem querida pelos fãs da nova fase.

"Rumors", inicia-se muito agressiva, por si só. Com o baixo denso de Paulo Xisto iniciando com a mesma levada do Riff, os pedais duplos de Igor dão as caras novamente, enquanto Derrick sussurra sorrateiramente os versos que, como já diz o título da música, falam sobre, de forma bem ríspida, os rumores a respeito do futuro da banda. Como de praxe, no meio, há uma pequena parada da banda, ficando apenas a rufar a bateria de Igor, e numa pegada bastante Nu Metal, os riffs e pedais duplos voltam com tudo, conduzindo a música a um final magistral.

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A quarta música, tem um início um tanto "barulhento", assim digamos. As guitarras de Andreas emitem sons desconexos e a banda aparece discretamente, até iniciar realmente, com uma levada que lembra algo como o Forró e o Baião. A bateria de Igor Cavalera é destaque: Talvez esse seja o álbum em que o músico mais tenha usado pedal duplo em toda a sua carreira, e ele aposta em arranjos ainda mais pomposos e técnicos que outrora já havia feito. A letra da música fala sobre o planeta e a humanidade em declínio, seguindo a letra, um planeta "apodrecido". A voz de Derrick Green, pela primeira vez, soa ainda mais agressiva, que em comparação as músicas anteriores. Uma das manias que Andreas adquiriu durante o Roots e perdurou por aqui, foi o fato de usar bastante a alavanca e sons estranhos no lugar de solos convencionais, prática que hoje, felizmente, ele abandonou.

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"Floaters In Mud" tem uma levada bem Thrash/Groove, remetendo aos tempos do Chaos A.D. Derrick canta, ora de forma agressiva, ora de forma mais calma, a letra que fala sobre uma pessoa que luta contra si mesmo, que não encontra razão para viver. Uma letra sufocante e com um significado que leva a diversas interpretações, a qual não irei apontar um ponto de vista prévio. Aqui nota-se as influências de música japonesa, ao decorrer de algumas passagens.

Boycott, pra mim, é uma das músicas mais fracas do disco. Com um início bastante "rap-metal", a música explode para uma levada rápida e com Igor Cavalera mostrando toda a sua força. Mas ainda assim, é aquele tipo de música que, em meio as outras, soa apenas como tapa buraco. Não empobrece a audição do álbum, mas também não enriquece. A letra fala sobre dificuldades da vida em si (esse é o tema mais comum em torno do álbum), e sobre como livrar-se de tudo isso através de boicotes (título da faixa).

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"Tribus", é uma faixa basicamente percussiva e instrumenta, a lá "Kaiowas", do Chaos A.D. Influências de percussões japonesas e brasileiras, o que resulta numa ótima combinação. Mas, por algum motivo, tenho a impressão de que ela foi má deslocada no álbum.

Primeiro ensaio do Sepultura com Derrick Green, em 1997
Primeiro ensaio do Sepultura com Derrick Green, em 1997

"Commons Band" retorna com todo o Groove, e também as influências de Nu Metal, como KORN e DEFTONES. A música possui o melhor riff de Andreas no álbum, a música tem uma letra que fala sobre as vitórias e derrotas de um ser humano, seus pontos de vista, sobre a força que cada um de nós possuímos, e como usamos ao decorrer das nossas vidas. O finalzinho da música é destaque, com Igor mandando uns D-Beats a lá Ratos de Porão, um pequeno solo de Andreas Kisser, e Derrick gritando o épico verso ao final: "STRENGHT IN MIND".

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"F.O.E", é outra música que eu consideraria dispensável. Nada mais é que a abertura do Globo Repórter. Sinceramente, não entendo até hoje porque motivo a banda quis gravar a sua própria versão. No entanto, acaba surgindo com uma curiosidade a respeito do álbum.

"Reza", conta com a ilustre participação de João Gordo, do RATOS DE PORÃO, e é uma das minhas músicas preferidas, não só do álbum, mas da carreira do Sepultura inteira. Com a melhor letra do álbum, que ataca diretamente a fanáticos religiosos e seus dogmas. Para que sua voz ficasse ainda mais gutural, Gordo gravou os vocais mastigando pedaços de bolo! O instrumental da faixa é veloz e direto, com destaque para a cozinha de Paulo e Igor.

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É a partir daqui que o álbum começa a se tornar um pouco cansativo. "Unconscious" é uma música muito pesada e com uma levada mais Metal, dentro dos parâmetros estabelecidos, com as já citadas influências de música japonesa e brasileira. A letra, como já diz o título, fala da dor da inconsciência, do medo desta.

"Kamaitachi", é o ponto alto das influências japonesas no álbum. Com a participação do Grupo K.O.D.O (percussionistas japoneses que levam a tradição de tocar os tambores pai para filho, a qual causava a fascinação do baterista Igor Cavalera), a música é um dos pontos mais interessantes do álbum. Mesmo sendo basicamente uma faixa de percussão soa agressiva e poderosa. Uma pena que seja uma música esquecida.

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Os tambores do grupo K.O.D.O.
Os tambores do grupo K.O.D.O.

"Drowned Out" é a mais Thrash e veloz do disco. A letra exala uma raiva latente, assim como o instrumental, com Derrick repetindo ferozmente o refrão:

"Never any remorse, never any remorse
Always turning your back
Drowned out, drowned out"

"Hatred Aside" ganha o título de faixa mais experimental (para não dizer estranha) do álbum. Com letra e participação de Jason Newsted, até então integrante do METALLICA, a música se alterna entre vários compassos e andamento, sendo difícil absorve-la completamente a primeira audição. Admito que até hoje tenho algumas pulgas na orelha ao escutá-la. A letra fala sobre desordem, uma corrida contra o próprio tempo. Ainda tenho dúvidas de como soaria essa música ao vivo nos dias de hoje.

E o álbum encerra com a instrumental T3rcermillennium, que nada mais é do que uma versão estendida da faixa "Tribus".

"Against" é um álbum que gera opiniões controversas desde o seu lançamento. Alguns o taxam de experimental de mais, outros reclamam da falta de solos, o que eu considero desculpa esfarrapada, pois no aclamado álbum anterior estes também já eram escassos. Outros fazem birra simplesmente por não ser Max Cavalera a frente dos vocais, situação completamente aceitável, afinal cada um possui suas devidas preferências e assim como ninguém é obrigado a aceitar o Max fora da banda, ninguém é obrigado a aceitar o Derrick dentro dela. Particularmente, achei a estreia do Predador na média. Demorei um tempo até escutar esse álbum com a devida atenção. E quando o fiz, percebi que se tratava de um trabalho detalhista e muito bem feito, e muito rico em aspectos musicais e culturais. Escute-o, focando-se na música que ele traz, e não na que o Sepultura fazia anteriormente. Pois esse é sim, um dos álbuns mais criativos e interessantes da banda, dentro do que se propôs na época.

Faixas:

01 - Against (01:53)
02 - Choke (03:36)
03 - Rumors (03:04)
04 - Old Earth (04:29)
05 - Floaters In Mud (04:58)
06 - Boycott (03:10)
07 - Tribus (01:38)
08 - Commons Bonds (02:59)
09 - F.O.E (02:07)
10 - Reza (02:16)
11 - Unconscious (03:37)
12 - Kamaitachi (03:03)
13 - Drowned Out (01:29)
14 - Hatred Aside (05:13)
15 - T3rcermillennium (03:54)

Duração total: 47:34.

Fotos por: "Sepultura, Toda a História", de André Barcinski e Sílvio Gomes, 1999.

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