Genesis: Uma interpretação livre de "Calling All Stations"

Resenha - Calling All Stations - Genesis

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Por Breno Rubim
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É comum observarmos notícias se referindo a álbuns injustiçados no mundo do rock. Aqui mesmo no "whiplash.net" já observei uma lista dos "piores álbuns das melhores bandas", e, como fã inveterado de rock progressivo, não pude deixar de observar que nessa lista figurava o álbum "Calling All Stations", lançado pelo Genesis em 1997.

Todavia, apesar de conhecer diversas bandas de rock progressivo, como Yes, Crucis ou o Rush da segunda metade dos anos 70, confesso que nunca ouvi detidamente a discografia do Genesis. Quando finalmente resolvi fazê-lo, lembrei-me imediatamente da indigitada reportagem do "whiplash.net", e resolvi que iria começar a ouvir a discografia pelo fim dela: o último álbum de estúdio lançado pelo Genesis: exatamente "Calling All Stations".

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Portanto, leitores, já deixo bem claro que a resenha que farei deste álbum é totalmente "de cabeça aberta", livre de comparações com outros álbuns do Genesis, até porque não os conheço (ainda). Penso que, dessa forma, poderá ser feita justiça a um álbum realmente esquecido pelos fãs dessa banda. Digo "justiça", porque o álbum é muito bom.

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Um trabalho cuja competência não é devidamente reconhecido deve ser analisado por uma mente desprovida de rótulos e preconceitos. Modéstia à parte, acredito que ouvi esse álbum com essas exigências em mente, e, do que concluí, discorrerei a seguir.

Não fui escutar o álbum esperando grandes suítes instrumentais, tempos quebrados e arranjos complexos. Afinal, todas as grandes bandas de rock progressivo tenderam a "simplificar" seu som com o passar dos anos. Exigência da indústria musical? Exigência dos fãs? Bom, isso foge à proposta desse texto. Mas minhas expectativas estavam corretas: "Calling All Stations" é um álbum de músicas diretas, mas sem perder uma certa dose de complexidade, não desvirtuando o "rótulo" de banda de rock progressivo que o Genesis sempre teve.

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O play abre com a faixa-título, brindando-nos com uma bateria pausada e um riff peculiar, cuja equalização me lembrou imediatamente os tempos de Yes com Trevor Rabin. Não há propriamente uma construção linear de versos: Ray Wilson (vocalista estreante, que substituía Phil Collins) canta versos e mais versos sem que tenhamos propriamente um refrão (algo que Renato Russo fazia constantemente no Legião Urbana, por exemplo). Desta maneira a música se desenrola: sem nenhuma virada, sem nenhuma mudança rítmica ou de ambientação – ainda assim, não se trata de uma música monótona. Apenas no final, a faixa ganha um certo toque de dramaticidade, quando Wilson sobe tons no vocal. E o solo de guitarra presente no meio da música lembra bastante aos que Brian May fazia no Queen. Enfim, boa música, mas inferior a várias outras que encontraremos a seguir.

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A segunda faixa é a gostosa "Congo", que, por ser mais acessível, foi designada como single. A percussão e o teclado iniciam uma melodia tribal africana, mas, quando achamos que a música se baseará nesse aspecto étnico, logo surge um riff pesado nos mostrando um competente hard rock. Desde então, os componentes "tribais" seguem tímidos na canção, principalmente no fundo do refrão, mas a faixa é essencialmente hard rock, com um interessante refrão, que termina com um vocal explosivo de Wilson.

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Após duas faixas contendo certo peso, vem a calmaria com a baladinha "Shipwrecked", com batida tímida, mas teclado vigoroso. No início, o teclado constrói um lindo tema romântico (que permeará toda a canção), e, durante os versos cantados, faz uma ambientação poderosa. Nesta faixa, começamos a ouvir o que é indiscutivelmente o principal elemento deste trabalho: o teclado de Peter Banks. Poucas vezes em minha vida ouvi um álbum de rock em que o teclado ocupasse tamanho espaço e importância. Em alguns momentos, nem sequer ouvimos guitarra e baixo: bateria e teclado fazem todo o arranjo: aquela normalmente contida, mas este poderosíssimo na criação de atmosferas. "Shipwrecked" é uma ótima balada, e o refrão, apesar de simples (Wilson apenas fica repetindo o nome da canção) nos brinda com o teclado "por trás" executando novamente o belo tema da introdução.

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Após uma balada, outra balada: "Not About Us". Ainda não sei dizer se esta é melhor do que a anterior, porquanto são bem diferentes. Enquanto "Shipwrecked" centrava-se no teclado atmosférico, "Not About Us" se focaliza no violão. O que ouvimos é uma sequência de acordes simples, porém eficientes, novamente desaguando num bom refrão. Podemos dizer que se trata de uma música pop mesmo – que, diga-se de passagem, continuou sendo cantada ocasionalmente por Wilson após sua saída da banda.

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A quinta faixa é a que, na minha opinião, é a primeira grande faixa do trabalho: "Alien Afternoon" traz diversos elementos de rock progressivo: grande duração, arranjo intrincado (embora com seção rítmica simples), e mudança drástica de ambientação. Podemos dizer que se trata de uma música "duas em uma", já que ela é claramente dividida em duas partes. Dos cerca de 8 minutos de duração, os 5 primeiros nos trazem um reggae (isso mesmo!) peculiar – uma surpresa – e os 3 últimos dão lugar a uma progressão vigorosa de hard rock, com a guitarra de Mike Rutherford equalizando-se de um modo que novamente me lembrou Trevor Rabin. Como apreciador de rock progressivo e hard rock, não pude deixar de destacar essa faixa, uma vez que casa, um tanto despretenciosamente, esses dois estilos.

Uma outra balada aparece: "If That’s What You Need" assemelha-se a "Shipwrecked" no que diz respeito ao teclado bastante presente. Ele segue uma postura similar: tema romântico na introdução e por trás do refrão, ambientação nos versos. Mas um chute certeiro de Banks, que alterna acordes simples com notas compostas e complexas. Esta é, talvez, a melhor balada do álbum. Ray Wilson canta: "se é o que precisa, eu serei o rio, eu serei a montanha, sempre ao seu lado"... romântico pacas, não?

A partir desse momento, não há mais baladas, e as faixas se tornam um pouco mais complexas (mas ainda muito longe da complexidade do rock progressivo dos anos 70). A sétima faixa é a ótima "The Dividing Line", que se inicia com uma percussão meio tribal (que nos remete à instrumental "Arabesque", do mais recente trabalho do Nightwish) e um teclado com clima de mistério. Em seguida, o teclado nos apresenta um tema interessante, e Wilson canta com uma voz meio "malvada", mesmo já tendo naturalmente uma voz rouca. Novamente, a exemplo da primeira faixa, não há propriamente um refrão: a música progride com o vocal poderoso de Wilson, depois o tema de teclado de Banks, depois vocais novamente, e assim por diante. Mas nesta faixa há uma característica adicional: pela primeira vez desde a segunda faixa, ouvimos uma forte guitarra de Rutherford, com um riff pausado que acentuou a sensação de peso da música. Aliás, o instrumental que vem logo antes do início dos vocais me lembrou, não sei por que, o estilo de som do álbum "Falling Into Infinity", do Dream Theater, que por sinal foi lançado neste mesmo ano.

Outra música gostosíssima é a que vem a seguir: "Uncertain Weather". De começo calmo, com vocais singelos, repentinamente dá lugar a um refrão poderoso de notas longas. Novamente, nos interlúdios entre os vocais, ouve-se um belíssimo tema de teclado, simples, mas eficiente. Posso estar parecendo repetitivo ao falar dos teclados, mas em quase todas as faixas esse instrumento é o principal elemento, seja no tema, seja nas ambientações que preenchem os arranjos. Outro ponto que merece destaque nessa música é a letra: fotografias desbotadas de soldados mortos em guerra ("rostos sem nome"), onde o eu-lírico fica se perguntando como era a vida dessa homem, se tinha família, etc., mas reconhece tristemente que ele foi impiedosamente "engolido" pela guerra, que despreza seu passado e seu desejo de felicidade.

A próxima faixa é "Small Talk", provavelmente a mais fraca do play. Não há muito a comentar sobre ela, a não ser a pegada meio pop.

"There Must Be Some Other Way" é a que conta com os vocais mais poderosos de Ray Wilson, no refrão, contrastando com a leveza nas estrofes. O que ouvimos é um hard rock poderoso, com bateria pesada e refrão explosivo. Outro grande atrativo desta faixa se encontra entre as marcas de 4 e 6 minutos de duração: um interlúdio instrumental criativo e empolgante, onde mais uma vez os teclados solam e se sobressaem. Esta também figura no rol das melhores do álbum.

Para fechar a bolacha, temos a não menos excelente "One Man’s Fool". A exemplo de "Alien Afternoon", tamos uma música dividida em duas. O primero momento não empolga tanto, mas o segundo fecha o álbum verdadeiramente com chave de ouro: um crescendo de peso e velocidade que culminam num fim apoteótico e veloz, especialmente na parte em que Wilson canta: "One man's joy makes another man weep / Nothing you can do is ever gonna change it / One man's saint is another man's fool / One man's hot is another man's cool".

Enfim, "Calling All Stations" acaba se mostrando um trabalho versátil, com baladas, músicas mais comerciais e músicas mais complexas (ainda assim bastante acessíveis). Mescla elementos de rock progressivo, com hard rock e com pop rock. O que a grande maioria dos fãs de Genesis afirma é que esse trabalho é uma "bola-fora" do grupo, sendo muito inferior a muitos outros discos. Como eu disse no início desse texto, eu ainda não posso comparar este álbum com os demais. Porém, numa interpretação livre de paradigmas, posso dizer que se trata de um álbum muito bom, com o qual deve ser feita justiça.

Se há um "defeito" que eu posso apontar, é a certa lentidão no andamento das músicas. As melodias e arranjos são excelentes, porém algumas faixas poderiam ser mais velozes. Não sei se isso pode ser colocado como ponto negativo, mas fica aí o comentário.

Olhando, num certo dia, uma apresentação ao vivo durante a turnê desse disco, no youtube, vi um comentário que talvez mereça transcrição: "nunca foi dada uma oportunidade para o 'novo' Genesis. É uma vergonha quando você pensa sobre isso, porque Ray Wilson tinha muito para dar. Phil não era um membro original, mas os fãs lhe deram uma chance. Uma pena".

Tracklist:
01. Calling All Stations – 5:43
02. Congo – 4:51
03. Shipwrecked – 4:23
04. Alien Afternoon – 7:51
05. Not About Us – 4:38
06. If That's What You Need – 5:12
07. The Dividing Line" – 7:45
08. Uncertain Weather" – 5:29
09. Small Talk – 5:02
10. There Must Be Some Other Way – 7:54
11. One Man's Fool – 8:46

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