Manson: tentando recuperar o posto de demônio

Resenha - Eat Me, Drink Me - Marilyn Manson

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Por Thiago El Cid Cardim
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Nota: 5

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Desde que pintou o retrato da família tipicamente estadunidense com seu espetáculo do mundo bizarro em 1994, misturando num caldeirão satânico o peso do heavy metal, as experimentações industriais do amigo Trent Reznor do Nine Inch Nails e a teatralidade de Alice Cooper e David Bowie, Marilyn Manson definitivamente tornou-se um chamariz. Os críticos se dividiram quanto a amar ou odiar o seu trabalho, assim como aconteceu com os fãs – mas o mesmo não valia para a tradicional família tipicamente estadunidense, que o detestava com todas as forças. Manson vestiu a camisa de “inimigo público número 1” e, com o polêmico e inovador “Antichrist Superstar” (1996), abriu o armário e deixou todos os monstros saírem. Mas então veio “Mechanical Animals” (1998), uma tentativa de transformar a figura de Manson em um alienígena andrógino a la Ziggy Stardust, desta vez com um som mais limpo e mais inspirado no glam rock. E as coisas nunca mais foram as mesmas.
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Aqueles que conheceram (e aprovaram) o artista em “Antichrist Superstar” não engoliram a tentativa, e o próprio Manson percebeu o erro e tentou retomar o aspecto sujo em “Holy Wood (In The Shadow of the Valley of Death)” (2000) e “The Golden Age of Grotesque” (2003), atirando-se de volta às sombras vampirescas das quais nunca deveria ter saído. O resultado foi até satisfatório, mas longe de qualquer comparação com o manifesto macabro do “Antichrist”.

Quatro anos depois de seu último disco de inéditas, ele está de volta com “Eat Me, Drink Me”, ainda tentando recuperar o posto de grande demônio da América. Mas o único retrato que temos aqui é de um Manson comportado, quase domado e em determinados momentos até simpático, ainda perdido com relação ao seu papel no atual mundo do rock.

Se você passar incólume pela capa (com um Manson posado e todo bom moço, praticamente um cantor romântico se deixarmos de lado a palidez gótica de seu rosto), com certeza vai perceber que tem algo de errado já na primeira faixa, “If I Was Your Vampire”. Ela é sombria, soturna, mezzo industrial, com vocais eletrônicos cantados com displicência por Manson, funcionando como uma espécie de canção genérica do cantor, que não tem nada de muito atrativo ou saboroso. Nada de novo. Mais do mesmo.

A fórmula se repete por todo o disco, cansativo e arrastado. Sem o peso de outrora, muito mais hard rock do que heavy metal, o homem que outrora apavorou as criancinhas da Terra do Tio Sam agora está em busca de personalidade. Em alguns momentos, navega por canções que mais se parecem com o Velvet Revolver (“They Said That Hell's Not Hot”), enquanto em outros momentos tenta soar como Audioslave (“Evidence”) – mas sem as qualidades evidentes de um músico experimentado como Tom Morello para fazer este feijão dar um bom caldo. E o que dizer do primeiro single, “Heart-Shaped Glasses (When The Heart Guides The Hand)”, faixa de levada pop absolutamente previsível e que poderia facilmente ter uma Avril Lavigne nos vocais caso a letra relatasse a sofrida perda de seu primeiro namoradinho? Terrível.

Até a balada hard “Just A Car Crash Away” acaba resultando previsível e óbvia demais para aquele Manson que não tinha medo de arriscar, que metia as caras, que inovava, que experimentava. “You And Me And The Devil Makes 3” e “The Red Carpet Grave” são apenas minimamente interessantes e têm lá seus barulhinhos e esquisitices, mas nada que consiga salvar o resultado final e fazer o ouvinte dizer “agora sim!”.

”Eat Me, Drink Me” não deslancha, parece não sair do lugar, não evoluir. Todas as faixas, da primeira à última, se parecem demais, com Manson cantando preguiçosamente do mesmo jeito e com o mesmo maldito efeito na voz, aparentemente jogando naquela mesmíssima estratégia que já conhece. Falta aquela agressividade, aquela fúria que mostrava um Manson lutando contra o mundo. Onde estão os gritos, o ódio, todos aqueles demônios da sociedade sendo exorcizados? É um disco que não choca, que foge do bizarro que se tornou sua principal característica.

Nós ficamos aqui esperando, de coração, que a turnê conjunta com o Slayer faça bem para Manson, para que ele recupere a bem-vinda crueza de sua sonoridade anterior. E tem mais: num país com George W.Bush no comando, o anticristo vai ter que se esforçar muito para voltar ao primeiro lugar do panteão demoníaco...

Line-up:
Marilyn Manson – Vocal, Percussão
Tim Skold – Guitarra, Baixo, Teclado

Tracklist:
1. If I Was Your Vampire
2. Putting Holes In Happiness
3. The Red Carpet Grave
4. They Said That Hell's Not Hot
5. Just A Car Crash Away
6. Heart-Shaped Glasses (When The Heart Guides The Hand)
7. Evidence
8. Are You The Rabbit?
9. Mutilation Is The Sincere Form Of Flattery
10. You And Me And The Devil Makes 3
11. Eat Me, Drink Me

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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