Resenha - Live At Pompeii - Versão do Diretor
Por Cleyton Lutz
Postado em 22 de janeiro de 2006
Em 1971, o Pink Floyd passava por um momento de transição. Após a saída de Syd Barrett, o quarteto foi aos poucos abandonando a veia psicodélica e caminhando em direção ao progressivo, gênero que se tornaria popular em 1973 graças ao clássico The Dark Side of The Moon. Entre esse meio tempo – o surgimento da banda, marcada pela psicodelia e a popularização do progressivo – se encontra o show do quarteto gravado em Pompéia e que pode ser visto no DVD "Live at Pompeii - Versão do Diretor".
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Gravado nas ruínas da cidade de Pompéia – cidade localizada no sul da Itália e destruída pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 D. C. – o show sintetiza bem o som praticado pela banda no início dos anos 70. Além da qualidade musical é importante destacar o cenário escolhido. A cidade deserta e cheia de paisagens naturais cria combinação que torna o DVD mais que um show, tratando-se de um verdadeiro documento do rock progressivo. O concerto gravado traz ainda outro mérito, a idéia do diretor Adrian Maben de produzir um filme Anti-Woodstock – explicada por ele em uma entrevista extra que aparece como bônus – com a banda executando as músicas sem qualquer tipo de platéia, contando apenas com o apoio da equipe técnica. Em uma época marcada por shows com grandes platéias, o Pink Floyd inovou mais uma vez.
A apresentação começa com a primeira parte da belíssima "Echoes" (do álbum Meddle de 1971), marcada pelo dueto de vocais de Richard Wright e David Gilmour, e pela atmosfera espacial que toma conta da música. Em seguida vem "Careful With That Axe Eugene" (lançada inicialmente como single e que também aparece na parte ao vivo do álbum Ummagumma, 1969). Apesar da qualidade melódica, a música passa praticamente despercebida. A terceira canção é "A Saucerful Of Secrets" (do álbum homônimo, lançado em 1968). A música – uma das mais surpreendentes e enigmáticas da banda – é reproduzida criando uma atmosfera que exprime bem a intenção do progressivo: muita experimentação – criando uma viagem musical sem se importar com o tempo ou lugar onde se pode parar, mudanças de ritmo – que vão tornando o destino da música incerto, mas também muita riqueza melódica, principalmente em sua última fase. A respeito dessa música ainda, é interessante notar o vigor do baterista Nick Mason. A música seguinte é "One Of These Days" (também de Meddle). Mais uma vez o batera é destaque em um som que se caracteriza por ser "pesado" e "viajante" ao mesmo tempo. Outro detalhe curioso é a edição feita por Maben dividindo a tela em pequenos quadros. Depois surge a surreal Mademoiselle Nobs (nunca lançada em um disco oficial da banda). Com um cão uivando no microfone, Gilmour na gaita e Waters no violão, a música mostra que o potencial criativo do quarteto não tinha limite. Com "Set The Controls For the Heart Of The Sun" (de A Saucerful Of Secrets, 1968) a banda dá amostras de seu experimentalismo ao produzir uma música com fortes influências orientais. Aqui mais uma vez aparece a mão do diretor ao alternar a exibição da música com imagens de pinturas espalhadas pela cidade. O vídeo se encerra com a segunda parte de "Echoes". O show é enriquecido por mais uma "sacada" de Maben, ao ilustrar a música com uma animação computadorizada de como a erupção do vulcão acabou com Pompéia, traçando uma relação entre o fim do show e a destruição da cidade.
Além da idéia original de realizar um concerto sem público, utilizar um cenário singular e recheado de belas paisagens naturais, a nova versão conta com outro triunfo: a utilização de imagens inéditas e animações em 3D que não entraram no vídeo original. O DVD traz imagens do trabalho produtivo de algumas músicas de The Dark Side Of The Moon. É possível ver, por exemplo, Roger Waters manipulando o sintetizador dando forma a "On The Run", Rick Wright executando um trecho de "Us And Them" em seu piano ou ainda David Gilmour gravando takes de "Brain Damage". A versão também se destaca por trazer entrevistas e imagens dos bastidores da gravação. É interessante observar a passagem em que o baterista Nick Mason destaca que o que os unia era a busca por dinheiro e fama, sem dúvida um dos combustíveis da banda e que também provocaria o rompimento entre Waters e os outros integrantes. Além disso, o DVD ainda apresenta novas animações que contribuem para aumentar a atmosfera espacial do vídeo.
Sem dúvida, algo de outro planeta.
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