Resenha - Tijolo na Vidraça - Marcelo Nova

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Por Luiz Carvalho
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Em 1990, quando estava na quarta-série, conheci um amigo que me apresentou o rock'n'roll. Tinha onze anos, iniciava o quinto ano do primeiro grau e até então, meu negócio era futebol e pornochanchada.

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Era.

A partir de então, mergulhei de cabeça na, então novidade, conheci uma série de bandas, mas, só passei a gostar de alguém que escrevia e cantava em português, muitos anos depois, quando me mudei de Carapicuíba para São Bernardo do Campo, aos quatorze anos. Quando completei quinze anos, fui trabalhar em um bar.

São Bernardo é um município com um grande número de nordestinos, filhos daqueles que se mudaram para a região na época que esta era um pólo industrial, mais precisamente automobilístico.

Como se sabe, a máxima "o freguês tem sempre razão", ao menos em butecos, prevalece. Assim, o que rolava no toca-fitas adaptado na parede, que garantia o som no horário de almoço dos peões, era Luiz Gonzaga e Raul Seixas. Ficava fascinado pela letras ricas desses dois artistas. Principalmente de Raul. Era diferente de tudo que já havia ouvido.

Foi através de Raul que conheci Marcelo Nova e o Camisa de Vênus. Durante uma manifestação numa empresa da redondeza, no caminhão de som, começaram a tocar uma música que esculhambava toda a ceninha pífia, por onde transitam os grandes do famigerado rock brasileiro. Reconheci a voz de Raul, já afetado por problemas de saúde. Mas, quem cantava com ele?

Dias depois, fui descobrir, ouvindo em uma rádio pirata, que a música se chamava "Muita Estrela, Pouca Constelação", era parte do último disco da formação originial de uma banda chamada Camisa de Vênus e que o cara que cantava com Raul, havia, inclusive gravado um disco com ele, um pouco antes da morte do primeiro.

Nesta época, o Camisa havia se reunido, sem o guitarrista (Gustavo) e baterista originais (Aldo) e estava fazendo uma pequena turnê. Fui conferir a tal banda. Fiquei embasbacado. Um bando de gente entupia o Ses Ipiranga, gritando "Bota prá fudê!", enquanto a banda derramava sangue e energia.

O Camisa tirou férias, mas, Marcelo nunca deixou de fazer shows e lançar discos.

Dessa data em diante, completei minha discografia do Camisa de Vênus, comprei todos os discos do Marcelo Nova, incluindo o novo, uma caixa com três cd's chamada "Tijolo Na Vidraça".

Nela, Marceleza revisita toda sua carreira, incluindo Camisa, a parceria com Raul Seixas no álbum "A Panela Do Diabo" e seus álbuns solo.

São 49 canções, algumas com novos arranjos, versões ("Check UP" e "Não Fosse O Cabral", de Raul Seixas, "When The Levee Breaks", do Led Zepellin, "One More Cup Of Cofee", de Bob Dylan, entre outras), além de três inéditas: "Não Sei O Que Fazer", "Bomba Relógio Ambulante" e "Um Lugar Para Deus", com texto redondo e melodia pesada, porém, cadenciada.

Apesar de ser uma coletânea, a caixa se mostra homogênea. Isso se deve ao fato de Marceleza não ser um roqueiro brasileiro por essência, ou seja, tem caráter, autenticidade escreve letras que valem à pena serem ouvidas e lidas.
Marcelo Nova tem credibilidade. Consegue ir ao programa do ao Fábio Júnior e se manter como um gentleman da vira-latice.

Tem bom-humor, mas, não é o Karnak, é mais audaz. Ama, mas, não é Los Hermanos... é mais denso que isso. As versões presentes neste álbum, mostram de onde veio. Não sofre do mal que aflige gente como Frejat e Lobão. Não tem traumas por fazer rock... não se vê na obrigação de amar bosta nova e dizer que ouve Djavan.

"Tijolo Na Vidraça", mostra um Marcelo amadurecendo com dignidade, refletindo aquilo que já vinha fazendo nos shows, moldar suas canções, de forma à valorizar o texto.

E neste sentido, vale ressaltar o trabalho de Johnny Boy, multinstrumentista de talento ímpar, que há algum tempo, divide-se entre manter a mutação nos shows e álbuns de Nova e tocar teclado com o IRA!. Johnny toca órgão, guitarra, piano, violão, gaita, acordeom, baixo... e quem já o viu em ação sabe que só a presença do cara, já vale meio ingresso. Além dele, estão na banda Luis Stopa (contrabaixo) e Denis Mendes (bateria), de dezesseis anos (!).

Outro ponto à valorizar, é o cuidado com a parte gráfica. Acompanha o álbum, uma embalagem em formato de tijolo e um livreto, contendo um texto assinado pelo jornalista Pedro Só (Folha de SP) e fotos de sua carreira.

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