Jerry Lee Lewis: barrados no baile
Por Felipoud Tramparia
Fonte: Jerry Lee Lewis - Rick Bragg
Postado em 26 de junho de 2018
O que se passou na cabeça desse talentoso pianista-roqueiro, para casar-se com uma pré-adolescente?
Com a fama de beberrão e brigão, JERRY não mediu as consequências ao chegar na Inglaterra ao lado de sua esposa de 13 anos, Myra.
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O resultado dessa confusão você confere no trecho retirado do livro JERRY LEE LEWIS do autor Rick Bragg.
"Eu era um jovem tolo quando me casei aos quatorze e dezesseis anos", disse a eles. "Meu pai deveria é ter me dado uma surra".
Para ele, parecia uma conversa corriqueira, do tipo que homem têm com outros homens. Eles decerto entenderiam.
Não entenderam. Quase riram à toa quando JERRY LEE lhes contou que se casara bígamo.
As manchetes ficaram mais feias, e ele se tornou não só um cantor que tinha alguns segredos, mas um incidente internacional.
O segundo show foi em Londres propriamente dita, e ele tocou num teatro de quatro mil lugares, mas não vendeu nem metade dos ingressos. Do lado de fora, os jornaleiros exibiam a edição da noite.
MANDEM ESSA GANGUE EMBORA
No relato de JERRY LEE, os fãs se enfileiravam na calçada diante do Westbury Hotel, em Mayfair, só esperando conseguir vê-lo.
Não acredita que tenham virado as costas a ele.
"Os jornais fizeram tudo o que podiam para nos destruir", disse. "Escreveram cada coisa...".
Neles, JERRY LEE era apresentado como um tipo de ameaça séria, um exemplo de americano sulista iletrado da pior e mais virulenta espécie.
Oscar Davis, aparentemente acreditando que a reputação a qual deveria cuidar era a sua e não a de seu astro, abandonou JERRY LEE por completo, anunciando que estava tão surpreso quanto qualquer outra pessoa com as notícias dos rolos matrimoniais dele e que não sabia nada de casamento nenhum, nem da idade de Myra, fazendo-se de talvez o empresário e agente publicitário menos informado da história do rock and roll.
Até o governo britânico se envolveu na questão, enviando oficiais para inspecionar os passaportes e o status de imigração de JERRY LEE e Myra. As manchetes berravam.
PAPA-ANJO!
"VÁ EMBORA" GRITA PÚBLICO AO CANTOR
"ODIAMOS JERRY" BERRAM EX-FÃS
Jornalistas chamavam por sua prisão e deportação e por uma investigação do departamento de bem-estar infantil.
Até o Parlamento deu seu pitaco, Sir Frank Medlicott, do distrito eleitoral de Norfolk na Câmara dos Comuns, questionou o porquê de um homem tão nefasto ter recebido permissão para trabalhar, o que levou a este diálogo entre o lorde e o Ministro do Trabalho, Iain MacLeod;
MEDLICOTT: "Está o meu horando amigo ciente da grande ofensa que a chegada deste homem, com sua esposa de treze anos, causou em muita gente? Lembrar-se à ele que nós também temos artistas de 'rock and roll' o bastante sem ter de importá-los?".
MacLeod: "Este foi, é claro, um caso completamente desagradável".
Moças que outrora professaram amá-lo agora anunciavam que iriam para casa quebrar os discos.
Num show em Tooting, no sul de Londres, fãs entoaram vaias de "Odiamos JERRY!" e gritaram "Papa-anjo" da plateia.
Fora do palco, JERRY LEE continuava falando com os repórteres, que só apertavam ainda mais a coleira; a essa altura, vários teatros já tinham cancelado os shows e a turnê estava em perigo, JERRY LEE se recusava a desistir.
Estava convencido de que a má publicidade iria se exaurir e ele poderia voltar aos palcos para públicos imaculados.
Mas máculas eram esmagadoras. Críticos o descreviam como um bronco que fazia mais barulho do que música. Até os críticos mais eruditos dos Estados Unidos, até mesmo os que desprezavam seu estilo, foram muitas vezes forçados a admitir que, independentemente do tipo de perigo que ele poderia apresentar à sociedade, havia música ali, e era boa.
Mas a apreciação da música americana ainda não estava incutida muito profundamente nos britânicos, e tais questões eram facilmente desprezadas.
Oscar Davis, talvez crente de que a imprensa poderia ser distraída por algum ás na manga, foi até a Embaixada dos Estados Unidos para perguntar se JERRY LEE e Myra poderiam se casar ali em solo americano, por assim dizer, mas os oficiais lhe disseram que isso seria impossível.
Ele não prometeu à imprensa que JERRY LEE e Myra se casariam de novo, legalmente, assim que estivessem de volta a Memphis, mas nada aplacava os jornais; as matérias eram cada vez mais estridentes, e o clamor pela expulsão de JERRY LEE, até mesmo por sua prisão, ficou mais alto.
Quatro dias depois de começada a turnê, os donos dos teatros cederam à pressão dos jornais e à grande hostilidade de parte do próprio governo e cancelaram todos os shows restantes devido a "reações desfavoráveis do público e outras razões".
JERRY LEE e os demais fizeram as malas. Oscar Davis ficou na Inglaterra para tentar receber parte do dinheiro que lhes era devido. "Ficarei aqui até que esse acordo seja feito", disse aos repórteres. Acho que deixarei JERRY LEE em casa, nos Estados Unidos, por algum tempo".
JERRY se lembra de olhar pela janela do hotel e ver multidões de pessoas, mas não um bando enfurecido.
Não se lembra de nenhum cartaz com dizeres maldosos, nem de nenhuma provocação ou coisa do tipo, só de muita gente reunida, como das outras vezes, para celebrar ou conseguir dar uma olhada no homem que as revistas já tinham chamado de rei do rock and roll.
Quando ele, Myra e os demais saíram por uma porta lateral e entraram numa limousine que os esperava, as pessoas se atiraram em direção ao carro, não xingando nem tentando machucar ninguém, mas apenas se comportando como outros fãs meio loucos já tinham se comportado.
JERRY LEE nunca entenderá como aquilo que viu e aquilo em que os jornais insistiam eram coisas tão diferentes.
"Eu voltarei", disse ele através da janela do carro.
Porta-vozes dos contratantes de JERRY LEE disseram que, se soubesse do passado dele, nunca o teriam contratado.
Faixa Wild One | JERRY LEE LEWIS
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