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Blood Chip: o bom rock brasiliense que me animou durante um domingo chuvoso

Por Rodrigo Contrera
Em 22/05/17

Depois que me separei, embarquei quase de imediato no teatro. Fiz oficinas, conheci muitas garotas (muitas, lindas), me joguei nas artes cênicas e na vida da noite. Passei por volta de quatro anos fazendo peças, aprendendo a beber, conhecendo muita gente, me envolvendo com uma ou outra mulher, e virando a noite no teatro.

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Nessa vida, a gente meio que se acostuma a escolher os lugares pela música que é tocada. Pois no Teatro Cemitério de Automóveis, do Mário Bortolotto, em Sâo Paulo, que foi a companhia para a qual trabalhei, a música é de ótimo nível. Quase sempre milimetricamente escolhida pelo Marião (ao menos, quando ele está lá), a música que toca no teatro faz com que a gente se sinta na noite. Costuma ser rock, jazz, música brasileira (não falo MPB, porque a categoria não se aplica), mas sempre de muito boa qualidade. Uma música que nos leva a universos que o pessoal que frequenta o local compartilha mutuamente.

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Mas este artigo é uma resenha. Uma resenha que apresenta a vocês uma banda que eu não conhecia e que chegou inopinadamente para mim por email. Nem sei como eles conseguiram meu email (aliás, dois de meus emails). Seja como for, eles enviaram nos emails uns links para umas músicas, que eu, neste domingo de chuva e frio, aproveitei para ouvir. Pois bem. Aqui entre nós, gosto de ser surpreendido com convites desse tipo. Gosto de poder comentar algo que poucos conhecem. Gosto de ver algo inédito.

Aconteceu que, bem na hora em que comecei a ouvir as músicas da brasiliense Blood Chip, lembrei daqueles lugares que eu frequentei. Imaginei imediatamente a noite. Imaginei o universo de pessoas em bares, tentando lidar com a solidão sós ou acompanhadas, mas com uma pegada leve, jovem, descompromissada, como todos que já fomos jovens já fomos. Normalmente, eu preciso da ajuda com a letra das músicas em inglês, então pedi as letras, e eles me mandaram. Mas a impressão foi ficando. E eu, curtindo.

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Não sei bem como apresentar a Blood Chip. O release que o Barão, o vocalista e tecladista, me mandou, tenta explicar algo deles em linguajar de entendido. Mas isso não me revela muito. Eles me mandaram também cinco faixas do primeiro EP que eles devem estar para lançar. Cada uma dessas faixas tem uma pegada levemente diferenciada. Tudo é rock, clássico e com diversas influências, embalado com guitarras e baixo competentes, e uma bateria que sabe manter a discrição (odeio quando o baterista resolve ser o show). E com um vocal que me lembra algo da década de 80, mas que assume um caráter assumidamente meio cafajeste, como um jovem que comenta sua própria vida, e que torna tudo bastante pessoal.

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Mas procurei no Youtube. E lá descobri um vídeo oficial (eles estão fazendo outro) de uma música da banda. Já nas primeiras imagens percebi que minha impressão era correta. Vi uma mesa de bar, um copo (com algo alcoólico), aquela situação em que você encara a outra pessoa na mesa, e lá estava o Barão cantando. Percebi que era isso mesmo. Que a banda - brasiliense - investia na vida da noite, de jovem, e em todo o universo com que muitos de nós já se acostumaram em algum momento da vida. Tudo fez sentido.

Mas, e a banda? Pois é. É boa. Gosto em especial da voz do Barão, da discrição do baixo e da bateria, dos solos de guitarra (bem arranjados), mas o que me agrada mais é que sinto que é REAL. Porque em minha modesta opinião é isso o que separa os verdadeiros dos falsos. A sensação de que isso que ouvimos é para valer, é real. Tanto que em diversos momentos da audição eu cheguei até a ficar emocionado (em especial sobre In Memory). Aqui, um aspecto particular. Essa música foi feita em homenagem ao baixista original da banda, que faleceu e que causou um brecada nos trabalhos da Blood Chip. Tanto me emocionei que precisei parar para respirar.

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Logo farei outro artigo, sobre as músicas que eles me mandaram, com as letras, e com as referências que me causam (com meu conhecimento, bastante limitado). Mas aqui quero deixar bem clara uma coisa: a banda NÃO É revolucionária. A banda NÃO faz algo necessariamente novo. A banda NÃO inova. A banda é, no fundo, APENAS (como se fosse pouco) uma banda de rock bastante boa, íntegra, que remexe influências diversas. Uma banda que a gente curte de ouvir. Uma banda que a gente fica remexendo por dentro. Uma banda que acredita no que faz. Ou seja, uma banda que, por fazer algo íntegro, nos faz acreditar. Pois não considero que a longa vida ao rock'n roll esteja em criar algo necessariamente novo. Nem minha intenção ficar falando que esta ou aquela banda é fenomenal.

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Não busco isso. Prefiro apostar no médio. Mas um médio que seja para valer. Até porque sinto prazer imenso ao ajudar quem quer que seja a sair do mesmo. A conseguir quem sabe algum destaque. E a continuar. A simplesmente pegar o bastão. Porque no fundo a vida é isso. É saber correr, lutar, pegar o bastão, até depois passá-lo para mais alguém. Eles por enquanto são jovens. Continuarão.

Um pequeno detalhe pessoal. Faço catequese de adulto (eu não fui crismado). Na aula, que ocorre todo domingo pela manhã, as pessoas têm a formação mais diversa. Mas este domingo percebi que a maioria simplesmente é tímida, e não lê com muita facilidade. Percebi isso porque desta vez a turma foi dividida em grupos, e cada um deles comentou um trecho sorteado do Antigo Testamento. No meu grupo, havia um rapaz com grande talento ao falar. Mas eu gostei especialmente quando uma moça ao meu lado leu um trecho com bastante dificuldade. Era muito legal vê-la se superando. Muito legal ver seu sorriso depois do esforço. É isso. A gente nunca sabe o futuro. Vai que ela se torna uma boa leitora?

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Fiquei bastante contente ao perceber que o Blood Chip me escolheu para que eu comentasse seu trabalho. Logo irei fazer isso mais profundamente, deixando um link para que vocês ouçam as cinco faixas do primeiro EP da Blood Chip (que inclusive tem um grupo de fã clube no facebook). Deixo agora o primeiro vídeo oficial deles. Espero que curtam. Por enquanto, um esclarecimento. Blood Chip é, segundo eles, chip de sangue, ou seja, a mente humana. Legal.

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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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