Gravações não oficiais: "Bootlegs" e "Discos Piratas"
Por Claudinei José de Oliveira
Fonte: rollandorocha.blogspot
Postado em 30 de setembro de 2015
A expressão "disco pirata" tem, na cultura musical brasileira, significado muito diferente daquilo que é, também, chamado "disco pirata" na cultura musical de língua inglesa. Aqui, a expressão "disco pirata" é uma tradução para o que, lá, é chamado "bootleg".
O termo "bootleg", numa tradução aproximada, significa "cano de bota" e tem sua origem no romance "As Viagens De Gulliver", no início do século XVIII. Com o passar do tempo, se tornou sinônimo de estratagema para contrabandistas esconderem mercadorias ilegais.
Na indústria musical norte-americana, o termo "bootleg" passou a ser usado, no finalzinho da década de 1960, para se referir a gravações não autorizadas pelos artistas gravados e comercializadas, geralmente em discos de vinil, por selos independentes. Tais gravações eram realizadas na mesa de som de um concerto ou eram "takes" de estúdio não aproveitados num lançamento oficial ( o que implicava no fato de algum funcionário pago pelo próprio artista, ou pela sua gravadora, "vazar" a gravação.
Por seu ineditismo, os "bootlegs" foram, com o passar do tempo, se tornando itens de colecionador disputadíssimos, o que encarecia seu preço no mercado, causando a revolta do artista, pois este não via um tostão em direitos autorais.
"Disco pirata" é, também, no Brasil, uma simples cópia feita a partir de um álbum oficial, porém, com acabamento rudimentar, se comparada a uma cópia original "decente", o que acaba viabilizando, bem abaixo do custo legal, sua comercialização. Tal situação se tornou corriqueira, no país, após o advento das técnicas digitais de gravação e prensagem porém, não de maneira alarmante, já era uma realidade no mercado de fitas cassete. Com técnicas digitais, além do barateamento, houve a simplificação nas formas de se copiar uma gravação.
Aqui, ao invés da ilegalidade explorar a gana do consumidor pelo raro, explorou meramente o baixo poder aquisitivo ou, pior, o "complexo de Gerson" (o famoso "levar vantagem em tudo") impregnado na mentalidade nacional. Com a realidade da Internet é a própria expressão "disco pirata" que se tornará incomum, pois o conceito de disco como um conjunto de canções manifestando unidade artística cai, vertiginosamente, em desuso.
O que está em xeque, agora não somente no Brasil, é o significado do consumo de música enquanto ritual. Música não é mais feita para se ouvir. Você faz outras coisas, apesar da música, como abrir uma janela e deixar a luz do dia entrar na sala, enquanto cuida de uma obrigação corriqueira. Assim como a música, um lindo dia não tem preço. Esta frase pode ser interpretada do jeito que quisermos e não devemos esquecer que a ganância não é exclusividade da ilegalidade.
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