Kreator: a devastação da Terra em "Toxic Trace"

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Por Rodrigo Lourenço Costa, Fonte: Blog HM - História e Metal
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Toxic Trace
Kreator – Album: Terribel Certainty (1987)

Pesticide in torrents, how fast it flows
Total pollution the earth can't stand much longer
Chemical industry brings new diseases
The fear of self-destruction is growing stronger
Nuclear waste in an uncontrolled deluge
Reduces the earth to an airless planet
Reformation lies far away
Now is your only chance to save it

Contamination in every place
Condemn the human race
Everything will decay
Broken down by toxic trace

New plagues have come and soon there'll be more
Apocalypse not for the first time
Suppression is alive and that's for sure
Everyone will be annihilated
Enforcement of the last eclipse
Can't ignore predictions from the past
Ignore the warnings of ancient Prophets
Every minute of your life could be your last

Contamination in every place
Condemn the human race
Everything will decay
Broken down by toxic trace

Metamorphoses of the earth to a lifeless desert
Voracity for richness, ruin of Mankind
Craving more and more, to the world's Requiem
This is the earth's last century

Now depravation from things that count,
to make an easier life for me
Total confusions for the non-believers
who ignore the writings on the wall
Times of suffering for everyone,
no-one can hide from reality
Social injustice will be no more,
without exception, devastate all

Times have changed from the past to now
The earth is mankind's subject
Perfect creation stands over all
Experimenting with lethal objects
Domination, submission, demand for more
De-humanizes the brains of the rulers
What gives them the right to menace us all
This time will come but then it will be too late

Rastro Tóxico (tradução)

Pesticida em correntes, como flui rápido
Poluição total, a Terra não suporta por muito mais tempo
A indústria química traz novas doenças
O medo de autodestruição está se tornando mais forte
Lixo nuclear numa avalanche incontrolável
Reduz a Terra a um planeta sem ar
A reforma se mantém distante
Agora é a nossa única chance para salvá-la

Contaminação em todo lugar
Condena a raça humana
Tudo irá decair
Desmoronado pelo rastro tóxico

Novas pragas vieram e logo haverá mais
Apocalipse não é pela primeira vez
Supressão está viva e isto é certo
Todos serão aniquilados
Imposição do último eclipse
Não se pode ignorar as predições do passado
Ignorar os avisos de profetas anciãos
Cada minuto de sua vida pode ser o seu último

Contaminação em todo lugar
Condena a raça humana
Tudo irá decair
Desmoronado pelo rastro tóxico

Metamorfose da Terra em um deserto sem vida
Voracidade por riqueza, ruína da humanidade
Desejando mais e mais, até o Réquiem do mundo
Este é o último século da Terra

Agora, a privação das coisas que proporcionam
uma vida fácil para mim
Confusão total para os que não acreditam
E que ignoram as escritas na parede
Tempos de sofrimento para todos
Ninguém pode se esconder da realidade
Injustiça social não mais existirá
Sem exceção, devasta a todos

Os tempos mudaram do passado para agora
A Terra é assunto da humanidade
A criação perfeita se mantém acima de todos
Experimentos com objetos letais
Dominação, submissão, demanda por mais
Desumaniza o cérebro dos governantes
O que os dá o direito de ameaçar a todos nós?
Esse tempo virá mas aí será tarde demais

Análise:

Dos anos 80 para os anos 90 do século XX aumentou enormemente a distância entre ricos e pobres, e a exploração desenfreada dos recursos naturais começou a chamar a atenção de todos para um futuro apocalíptico.

As preocupações com o meio ambiente são marcantes na discografia do Kreator, pois vivendo na cidade industrial Essen (decadente e suja, num dos maiores pólos industriais da Alemanha), suas letras abordam o que se enxerga através da janela das casas. Além do fato de seu país ter arcado com um grande custo para restaurar o meio ambiente devastado da RDA após a reunificação (MONIZ BANDEIRA, 2009. p 190).

“Toxic Trace”, do álbum “Terrible Certainty”, é um grito para que as pessoas prestem atenção na degradação do meio ambiente, principalmente pelas grandes fábricas.

Nas primeiras linhas o mote geral da canção já fica bem claro: "Pesticide in torrents, how fast it flows / Total pollution the earth can't stand much longer". O problema dos dejetos industriais e residenciais tornam-se um grande martírio para as populações dos grandes centros urbanos, e a destruição dos recursos naturais, como os rios de água potável, entram na pauta de discussões acadêmicas, políticas e cotidianas.

A canção segue “The fear of self-destruction is growing stronger / Nuclear waste in an uncontrolled deluge / Reduces the earth to an airless planet”, onde há citação à devastação nuclear e à autodestruição da humanidade como conseqüências drásticas do modo de produção industrial a que estamos submetidos. Haja vista que ainda no fim dos anos 80 do século XX a energia nuclear era utilizada amplamente em vários países do mundo, mas tinha o problema dos resíduos tóxicos que não recebiam o destino correto. (o Kreator voltará a esse tema com mais ênfase no álbum posterior)

Mantidas as taxas de crescimento econômico/industrial que impulsionaram o mundo após a Segunda Guerra Mundial, o planeta não suportaria as conseqüências catastróficas ao meio ambientes que tal “crescimento” iria impor. (HOBSBAWN, 1995, p.547). E sob essa ótica o Kreator conduz o refrão da música: “Contamination in every place / Condemn the human race / Everything will decay / Broken down by toxic trace”.

A questão do “rastro tóxico” é muito emblemática, pois é uma figura de linguagem que nos remete às grandes chaminés expelindo aquela fumaça negra. Ou talvez, dejetos jorrando através de um cano diretamente dentro de um rio. São imagens rapidamente associadas à fase do Capitalismo Industrial, e tornaram-se a imagem da degradação da natureza. O Vale do Ruhr, onde está a cidade de Essen, é um desses distritos “clássicos” do Capitalismo Industrial, com suas indústrias de carvão e aço, e a fuligem compõe a paisagem local.

A partir da segunda estrofe a letra assume mais um componente: a ideia de que o que houve no passado voltará a acontecer. “New plagues have come and soon there'll be more / Apocalypse not for the first time”, mostram uma visão de história cíclica (típica de civilizações politeístas, como Romanos, Maias, Astecas, Hindus, Xavantes, etc).

Existe uma correlação entre a degradação da natureza e a incapacidade do homem aprender com os erros de civilizações passadas, descritas no trecho “Enforcement of the last eclipse / Can't ignore predictions from the past / Ignore the warnings of ancient Prophets / Every minute of your life could be your last”. Sem citar literalmente nenhum povo em especial, aborda uma teoria que pode explicar, por exemplo, o declínio de civilizações como os Rapanui (na Ilha de Páscoa, no Chile) ou dos próprios Maias, que esgotaram seus recursos naturais e tornaram-se vítimas do seu próprio modo de vida. Uma outra leitura possível se baseia exatamente na ideia de “ciclos”, onde essas antigas civilizações faziam previsões de apocalipses antes de recomeçar um novo ciclo.

Quando na canção diz que não se pode ignorar as previsões feitas no passado, não há como não fazer uma analogia às “profecias” maias sobre o fim do mundo, com catástrofes climáticas que devastarão a humanidade. Mas entra um elemento mais humano do que sobrenatural, onde o Kreator trata que o próprio homem tem causado esses desastres quando degrada o seu meio natural.

O bridge[1] cristaliza o conceito nos versos do “Metamorphoses of the earth to a lifeless desert / Voracity for richness, ruin of Mankind”, falando que a sanha dos homens por obter mais lucro não leva em consideração a sua própria preservação.

O andamento da música muda, e o eu poético já fala de um mundo devastado, onde a tecnologia não existe mais, nem as coisas que a produção industrial cria para dar conforto para a sociedade: “Now depravation from things that count,to make an easier life for me.”

A estrofe segue falando sobre as pessoas que não acreditavam que seria possível a destruição do estilo de vida industrial: “Total confusions for the non-believers / who ignore the writings on the wall”. Essa passagem, particularmente, tem um sentido mais espiritual, mas se observarmos mais atentamente, podemos entender os descrentes são os entusiastas do progresso a qualquer custo, e as escritas nas paredes podem ser as pichações que se multiplicam pelo mundo pelos movimentos ambientalistas.

O colapso da humanidade vai terminar com as lutas entre as classes, pois todos vão perecer. Essa visão de destruição total de todos os seres humanos é uma das marcas do Kreator, e está presente na canção nos versos “Social injustice will be no more, without exception, devastate all”

A última estrofe fecha a canção de maneira intensa, crítica e tremendamente raivosa. Fala sobre “experimentos com objetos letais” e provavelmente estão falando sobre energia nuclear e combustíveis fosseis, onde a “demanda por mais” força os humanos a se destruírem. E como não poderia faltar, há uma crítica contundente aos governos, que não pensam em nada além dos lucros e dos interesses das grandes corporações, sem pensar na preservação da humanidade e dos recursos naturais.

A música está dividida em três partes bem distintas, sob o ponto de vista melódico. A introdução é cadenciada, ditado sob o ritmo do riff marcante das guitarras. Há a quebra com uma pausa curta, e inicia a segunda parte com um ritmo muito mais acelerado, com o início da parte cantada, voltando para a cadência da introdução no momento do bridge (2:02” até 3”) quando há uma nova quebra na melodia para cantar a 3 estrofe (3” até 3:59”) voltando a música retornando à segunda parte melódica e finalizando novamente com a melodia da terceira parte.

As guitarras são a alma da canção, conduzindo as ações dentro da melodia, cadenciando e acelerando. A bateria acompanha essa linha, criando uma música uma música com camadas sonoras homogêneas, onde todos os instrumentos contribuem para a construção do clima. O vocal esganiçado acompanha esse ritmo, dando uma textura raivosa à canção, que impõe a força ao discurso contido na parte lírica.

Com riffs poderosos e rápidos aliados a uma construção melódica complexa, “Toxic Trace” é uma canção crítica aos interesses econômicos em detrimento do bem-estar da humanidade como um todo. Mas felizmente muito se avançou nas questões do tratamento da poluição industrial desde 1987, embora muito ainda há por fazermos.

Referencias:

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Reunificação da Alemanha: do ideal socialista ao socialismo real. 3ª edição, São Paulo: Editora Unesp; 2009.

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo
Horizonte: Editora Autêntica, 2005.

[1] Conceito musical: trecho que faz a ligação entre dois andamentos diferentes dentro da canção. (bridge= ponte)

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