O Rock Morreu: mas a boa notícia é que ele está embalsamado

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Por Nacho Belgrande, Fonte: Playa Del Nacho
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As vendas de discos estão caindo, os festivais são encabeçados por um segmento cada vez menor de bandas que envelhecem, e a indústria está cambaleando. Estaríamos testemunhando o fim do rock?

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A última edição da revista inglesa CLASSIC ROCK traz uma matéria especial de 25 páginas sobre a ‘crise que assola o rock’, desde ‘a morte do formato álbum’ até as novas ideias que mudam a cena rock de hoje. O rock está de fato morrendo?

Texto original de SCOTT ROWLEY

‘This is the end, beautiful friend
This is the end, my only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end…’

"The End", The Doors

Vamos começar no lugar mais óbvio: O Fim.

O fim, parece, está próximo. “É estranho, na cultura rock de hoje”, disse BOBBY GILLESPIE do PRIMAL SCREAM ao programa Review show da BBC4 em dezembro passado. “Ela está morta, eu acho. Acabou”. IAN ASTBURY, do THE CULT, enquanto isso, decidiu que o formato álbum também chegou a seu ocaso. Lembrando-se dos dois EPs [‘Capsule 1’ e ‘Capsule 2’] que ele e sua banda lançaram em 2010, ele disse à Rolling Stone mês passado que ele preferiria fazer isso novamente a lançar outro álbum. A gravadora do Cult no Reino Unido, a Cooking Vinyl, contudo, não gosta tanto da ideia. “Eles não estão interessados na ideia de capsulas”, disse Astbury. “Eles querem colocar CDs nas prateleiras. Eu respondo: ‘Mas que prateleiras?’”

“O rock n’ roll morreu,” disse o ex-baixista do BUCKCHERRY e do JU JU HOUNDS de IZZY STRADLIN, JIMMY ASHHURT em sua conta do Facebook recentemente, “e ninguém está tão puto assim porque nós o colocamos em uma caixa e podemos olhar pra ele sempre que quisermos.” GINGER WILDHEART postou sentimentos similares dias após as atrações principais do [festival europeu] Sonisphere terem sido anunciadas. “Parece que o rock está finalmente respirando por aparelhos”, ele escreveu. “A porta giratória de menos de 10 bandas que aguentam estar no topo de um festival indica, pelo menos pra mim, que já passamos da fase do ‘rock grandioso’.”

As rachaduras não estão apenas começando a aparecer, elas são largas e profundas como as rugas no rosto de KEITH RICHARDS. As lendas estão ficando velhas e, vamos ser realistas, morrendo. Daqui a uma década, podemos mesmo, racionalmente, esperar ver turnês de BOB DYLAN [72 anos de idade], dos ROLLING STONES [membro mais velho: 72 anos], MOTÖRHEAD [Lemmy tem 68], LYNYRD SKYNYRD [Gary Rossington tem 62] ou do ZZ TOP [Billy Gibbons tem 64]? Quem irá lotar estádios, encabeçar nossos festivais e encher casas de shows então?

As velhas estruturas da indústria musical [gravadoras, distribuidores, lojas de discos] estão capengando. Musicalmente, parece haver uma falta de novas ideias, e muita gente reciclando ideias antigas. Bandas novas estão ralando para achar um público. A diversidade de canais de mídia significa que, mesmo que elas sejam tocadas por uma estação de rádio, é difícil chegar a um tipo de público em massa relevante, construir um segmento substancial de fãs. Ser banda de abertura não rende dinheiro, e as gravadoras não dão mais custeio de turnê [subsídio para que a banda caia na estrada]. E, de qualquer modo, os promotores de shows não querem se arriscar com uma quantidade desconhecida quando eles sabem que podem sair ganhando com uma celebração nostálgica.

“É altamente improvável que toquemos nos EUA com uma banda desconhecida abrindo para nós, porque os promotores não vão deixar que isso aconteça”, diz JOE ELLIOTT do DEF LEPPARD, uma banda que outrora deu ao então desconhecido THE DARKNESS uma chance de abrir para eles numa turnê pelos EUA. “Os promotores querem que estejamos com o HEART ou o POISON abrindo porque eles sabem que isso vai vender ingressos e é só com isso que eles se importam. No frigir dos ovos, eu não tenho argumentos para dar a eles quanto a isso. Faz sentido, mas não ajuda bandas novas.”

Em 2011, o DJ PAUL GAMBACCINI declarou que “era o fim da era do rock. Acabou, do mesmo modo que a era do jazz acabou.” Será que ele estava certo?

‘Is this the end of the beginning?
Or the beginning of the end?
Losing control or are you winning?
Is your life real or just pretend?’

"End Of The Beginning", 
Black Sabbath

A verdade é que não são apenas os fãs de rock que enfrentam perspectivas apocalípticas. Acredite no que lê, tudo está indo pra merda. Na literatura, o sino fúnebre já tocou pra poesia e para os romances – um modelo datado e ultrapassado, de acordo com alguns, com tramas e histórias previsíveis. Mais recentemente, a popularidade dos smartphones tem causado gritos pelo futuro da fotografia [“É muito estranho”, disse o premiado fotógrafo ANTONIO OLMOS ao jornal bretão THE GUARDIAN um mês atrás. “A fotografia nunca foi tão popular... mas a fotografia está morrendo”].

A indústria do cinema? DVDs e Blu-rays estão tão condenados como o CD, superados pela Netflix e pelo YouTube, e preocupa-se que até a própria arte do cinema esteja sendo comprometida com fórmulas e exibições-teste. “Eu acho que Hollywood alcançou tudo que sempre sonhou”, disse o diretor TERRY GILLAM mês passado. “A plateia agora perece ser muito burra. Eles estão assistindo ao mesmo filme, uma vez depois da outra. Quando eles vão ver um filme, é quase que como ouvir à música pop: você sabe o ritmo, você sabe quando a quebrada vai vir, você sabe quando vai ter uma explosão… as pessoas se atêm ao que as deixa confortáveis.”

Você poderia resumir toda essa raiva e pessimismo ao simples e velho medo da mudança. Eu seu livro sobre pensamento apocalíptico, ‘The End Of Time’, DAMIAN THOMPSON aponta: “Há uma escola de pensamento que advoga que o Mileniarismo [a crença na transformação através do apocalipse] sempre emana do choque das culturas, uma tecnologicamente superior à outra.” E a mudança dos artefatos físicos [no mundo da música, os discos e CDs] para os digitais [MP3, streaming] é certamente isso.

O rock também confronta seu passado. Se você foi um adolescente nos anos 70 ou 80, você tinha umas duas décadas de história do rock para enfiar na cabeça. Os adolescentes agora têm 50 anos de música para desvendar através do Spotify, além de novos sons para descobrir todo dia. Os fãs mais velhos têm as reedições de luxo e shows de reunião para mantê-los ocupados “É assim que o pop vai acabar”, escreveu o fã do gênero SIMON REYNOLDS. “Não com um petardo, mas com um box set do qual o quarto disco você nunca toca”. Um tipo de fobia do futuro se instaurou. O respeito dado às bandas do passado é tamanho [e crescente] que as bandas novas estão danadas: como é que você pode competir com isso?

Enquanto a cultura popular costumava ricochetear de uma moda para a próxima, hoje em dia estamos na era do Mais Do Mesmo, com os web sites que você visita armazenando informações sobre seus gostos e encorajando você a ter, bem, mais do mesmo. “As pessoas que compraram esse produto também compraram… se você gosta disso, você vai gostar disso… você tem ouvido a isso e aquilo ultimamente, por que não experimentar isso…?” O resultado: estatísticas de consumo direcionadas para que você consuma mais.

“Os Beatles, The Who e os Kinks – isso já se foi e jamais se repetirá”, disse NOEL GALLAGHER. “No meio dos anos noventa, eram as bandas e um pequeno grupo de fãs que tinham propriedade delas. Agora é o consumidor que manda, então a música vai pra onde o consumidor exigir que ela vá. Não teremos outro punk, ou outra acid house, ou outro Britpop. Isso é fato. Porque o consumidor consegue o que quer, e o consumidor não sabe de merda nenhuma. Se você perguntasse ao consumidor no meio do rock progressivo, o que ele quer para o ano que vem, ele não vai responder que quer Johnny Rotten, vai?”

‘And in the end, the love you take
Is equal to the love you make’

"The End", The Beatles

O que isso quer dizer para nós, os supracitados ‘consumidores’? Bem, você poderia argumentar que nunca passamos melhor. Que agora é o melhor momento da história para ser fã de rock – 60 anos de rock n’ roll, blues e rock pra se esbaldar. Quase todo disco que vale a pena se ter tendo sido relançado e prontamente disponível. Lojas online como a Amazon nos conectam com raridades antes difíceis de encontrar. E música nova excelente por todo canto. Downloads grátis, Spotify, Youtube, Soundcloud e sites como o Noisetrade e o Bandcamp significam que você tem que provar antes de comprar [isso se você por ventura comprar de fato].

Bandas novas, libertas da tirania da moda, não são mais pressionadas para se encaixarem no que as [tradicionais revistas musicais inglesas] NME ou Kerrang! acham que é bom podem fazer seja lá o que diabos elas quiserem. A influência das gravadoras se dissipou. A tentação de uma grande bolada de dinheiro se foi, menos bandas são requeridas por executivos ambiciosos a correr atrás das tendências e a parir um disco ‘eu também’ que soe como o THE KILLERS ou KINGS OF LEON ou seja lá quem for famoso.

Estamos numa transição da cultura de massa para uma cultura ‘configurável’ mais individualista. Os fãs de rock passaram de consumidores passivos de modas ditadas por uma mídia de massa, para pessoas aptas a configurar seu consumo do modo que as agrada, através de playlists e preferências talhadas à mão. É o próximo passo lógico – conseguimos o que queríamos! O álbum de vinil ditava que escutássemos certas músicas por um único artista em uma ordem específica. E quando você se cansava daquilo, a fita cassete permitia que você capturasse os melhores pedaços de álbuns diferentes e as embaralhasse de um modo que [pelo menos você queria que] impressionasse as gatas. O CD queria dizer que você podia facilmente pular ‘Maxwell’s Silver Hammmer’ ou ‘Hats Off to Roy Harper’.

O mundo digital é o próximo passo. Ontem mesmo eu editei duas faixas separadas de uma banda chamada AND SO I WATCH YOU FROM AFAR usando o Audacity e as coloquei em uma playlist de ‘Melhores de 2013’ que tem sete horas e vinte e quatro minutos de duração, até agora [uma confirmação, na que ainda fosse necessária, de que meus dias de impressionar mulheres já se foram há muuuito]. Pense em praticamente qualquer música que você já quis na vida e você pode ouvi-la quase instantaneamente, graças ao YouTube. Você está conectado diretamente com as coisas que você adora – seja prog-metal, stoner rock ou surf punk – e completamente apto a ignorar o que você não gosta [eu realmente não faço ideia de como seja o som do ONE DIRECTION]. Fico pensando, qual é a pegadinha?

Bem, talvez a pegadinha seja algo que aprendemos com as histórias em quadrinhos: com grande poder, vem grande responsabilidade. Se estamos no comando, que tipo e cena rock criaremos? Uma que seja sem medo, tenha a mente aberta, progressiva e empolgante? Ou uma que seja prostrada, com a cabeça no próprio rabo e desconfiada? Porque o rock não está morrendo, está apenas mudando. No que ele está se transformando, ninguém sabe. A internet ainda não acabou de confundir nossas cabeças e mudar as maneiras pelas quais descobrimos música.

Parece plausível que o futuro tenha menos grandes bandas, mas é igualmente provável que essas bandas grandes que transitam por mais de um gênero e público sejam as que veremos estrelando festivais. Em 2011, de todas as MP3 compradas individualmente, 74% vendeu menos de 10 cópias cada, enquanto 15% do total de vendas veio de apenas 0,00001% das músicas. Entre esse 74% e o 0.00001%, temos que achar um modelo de negócio que funcione pra todos.

Diz Ginger Wildheart: “O futuro do gênero rock n’ roll existe em um nível mais simples e prático. O excesso acabou, cifras inchadas e abuso de poder têm que ser exterminados sem preconceito, e um futuro mais atingível deve ser adotado que favoreça bandas e artistas menores. Está na hora de algo um pouco mais realista, digo.”

Realista não necessariamente quer dizer malsucedido. A qualidade tende a subir. Mesmo à medida que a influencia dos canais da mídia tradicional perdem força, a natureza humana quer dizer que queremos as mesmas coisas. Em seu livro, ‘Blockbusters’, a professora de administração da Universidade de Harvard ANITA ELBERSE cita que “o fato de as pessoas serem inerentemente sociais, elas geralmente encontram valor em ler os mesmos livros e assistir aos mesmos programas de televisão e filmes que as outras”. Pense em uma série como “Breaking Bad” – um programa que de repente arrebatou a todos. Nos EUA, o último episódio gerou 1.2 milhões de Tweets e 5.5 milhões de atualizações e comentários no Facebook enquanto ele era transmitido, e a audiência subiu 300% ao longo das últimas temporadas. Pode haver pouco espaço para exageros nessa nova ordem mundial, mas estamos mais conectados do que jamais estivemos, e queremos compartilhar. Somos loucos por música. Indicar música boa pras pessoas é o que fazemos. Só precisamos da música boa.

“Alguém me perguntou: ‘Qual você acha que é o problema com a indústria musical? ’” DAVE GROHL disse alguns anos atrás. “Eu disse: pegue o disco de Adele. É um disco fabuloso. Todo mundo está tão chocado por ele ser um fenômeno tão grande. Eu não. Você sabe por que aquele disco se deu tão bem? Porque é bom pra caralho e é autêntico… imagine se todos os discos fossem tão bons assim. Você acha que só um deles venderia bem? Não, porra! Todos venderiam bem. Se todos os discos fossem bons daquele jeito, a indústria musical estaria bombando…”

Deem-nos a fagulha, e nós vamos incendiar esse lugar.

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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande foi desde 2004 um dos colaboradores mais lidos do Whiplash.Net. Faleceu no dia 2 de novembro de 2016, vítima de um infarte fulminante. Era extremamente reservado e poucos o conheciam pessoalmente. Estes poucos invariavelmente comentam o quanto era uma pessoa encantadora, ao contrário da persona irascível que encarnou na Internet para irritar tantos mas divertir tantos mais. Por este motivo muitos nunca acreditarão em sua morte. Ele ficaria feliz em saber que até sua morte foi motivo de discórdia e teorias conspiratórias. Mandou bem até o final, Nacho! Valeu! :-)

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