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AIDS & Heroína: Os Últimos Dias de Robbin Crosby - Parte IV

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Por Nacho Belgrande, Fonte: Playa Del Nacho
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[...]

‘King For A Day’

Dezembro de 2001 foi um mês de esperança e progresso para Robbin. Ele estava finalmente se sentindo melhor e sua fisioterapia ia muito bem. Lá pela véspera de ano novo ele estava se sentando sozinho e tudo mais, mais alerta e lépido, devido em grande parte aos médicos terem reduzido a medicação dele. No réveillon, ele me disse, "Esse ano vai ser ‘o Ano do King’… o ano que o King voltará… eu vou mostrar às pessoas que eu ainda consigo!" Eu acreditava piamente nele… ele tinha tanta confiança em si e energia, de repente. Ele tinha composto duas músicas novas…


Se dezembro de 2001 fora positivo pra ele… janeiro de 2002 foi um mês de contradição, confusão e arrependimento pra mim.

De 4 a 7 de janeiro, eu estava com um amigo de Chicago visitando a cidade… claro que ele era fã do RATT e de Robbin! Que estava ansioso para ver o King depois de ter falado ao fone com ele e ter trocado votos de feliz natal. Robbin já gostava dele, apenas por ter falado ao fone com ele, e queria conhecê-lo. Ele me perguntou no dia de ano novo, ‘Quando é que o Sully vem?’ Eu o peguei no aeroporto na noite de uma sexta-feira, 4 de Janeiro, e LITERALMENTE, quando estávamos saindo do aeroporto de Los Angeles, meu celular toca e é o King… ‘Vocês vão vir hoje à noite?’ e eu disse, ‘Bem, está tarde, vamos amanhã, daí você pode descansar um pouco’. Ele respondeu, ‘Não! Eu quero que vocês venham hoje à noite e assistam a um filme comigo’.

A primeira coisa que ele disse pro Sully foi, ‘Hey, cara, fico feliz por você ter vindo… você não tem nenhuma das minhas guitarras, tem?’ Sully, acanhado, diz, ‘Uhh… não’. King diz… ‘Bom. Eu gosto de VOCÊ então!’, enquanto fazia uma careta debochando de mim!! Conversamos e rimos por uma hora, até que Robbin adormeceu no meio da conversa por volta da meia-noite… e saímos silenciosamente.

O dia seguinte era pra ser divertido… um dia memorável. Robbin e eu tínhamos conseguido permissão de seu médico para sair!!! Conseguimos um passe de 5 horas. Tínhamos planejado tudo: iríamos almoçar no ‘El Compadre’ e daí assistiríamos ao ‘Senhor Dos Anéis’. Ele estava muito ansioso pra assistir aquele filme no cinema… ele tinha todos os livros e era um GRANDE fã da série. Ele também mal podia esperar para poder sair do hospital pela primeira vez em quase 2 anos.

Eu pedi a outro amigo, Brad Kelley, que viesse comigo e Sully para ter certeza que teríamos ajuda o suficiente para carregar Robbin e a cadeira de rodas pra dentro e pra fora do meu carro em segurança. Eu estava com um humor ótimo porque eu reconhecia que aquele dia seria um grande passo na recuperação dele. Ele teria uma amostra do mundo exterior de novo. Eu não estava pronto para a guinada de 180 graus que o dia ia dar…

Chegamos às 11 da manhã e algo com certeza estava errado… Robbin não dizia nada com nada e estava transpirando MUITO. Ele não estava concatenando direito e ficava perguntando pelo pai dele. Eu tive que sair do quarto para falar com uma enfermeira e Sully sai correndo do quarto gritando, ‘Chamem alguém DEPRESSA… ele desmaiou e está ficando azul!!’ Em 15 minutos, os enfermeiros haviam feito os procedimentos de pronto-socorro nele, bombeado seu estômago e ligado pra emergência. Os paramédicos chegaram imediatamente… eles o levaram para o Hospital Cedars Sinai enquanto nós 3 ficamos lá em completo choque. Nós ficamos por ali pra ver se conseguiríamos descobrir alguma coisa sobre o estado dele, mas eles não nos diziam nada. Nós 3 decidimos ir ao ‘El Compadre’ de qualquer modo e tomar umas cervejas por Robbin… mas eu não conseguia diminuir a sensação de que algo não estava indo bem. O que tinha acontecido?? Ele estava bem na noite anterior…

Robbin ficou no Cedars por uma semana… ele não estava comendo absolutamente nada no hospital e estava pálido, introspecto e grogue. Ele perdeu 9 quilos. Ele me disse que alguém no Hancock havia ‘acidentalmente dobrado’ sua medicação e fora isso que lhe causara problemas. Eu fiquei cético, suspeitava que alguma coisa bem mais sinistra tivesse causado o colapso dele… mas fiquei na minha. Fui vê-lo na terça-feira e levei 3 guitarras Epiphone novas que tinham chegado naquela segunda comigo. Achei que elas o alegrariam e talvez ele pudesse tocá-las um pouco para passar o tempo. Ele parecia desinteressado, apático e muito triste. ‘Só o que quero fazer é dormir. Mas eu fico tendo esses pesadelos horríveis então não posso nem fazer isso. ’ A enfermeira dele lá era MARAVILHOSA…eu queria conseguir lembrar de seu nome. Ela estava tão preocupada com ele e ainda por cima era fisicamente linda!! Eu acho que ela tinha uns 25 anos, mais ou menos, e não tinha ideia de o que fosse Ratt!! Como sempre, ele arrumou um apelido pra ela… ’Florence’, numa alusão à abnegada enfermeira de guerra FLORENCE NIGHTINGALE.

Depois de voltar ao hospital Hancock Park, ele parecia recarregado e reiniciou sua fisioterapia com muita vontade… de vez em quando. Durante o resto de janeiro, visitá-lo era como ‘uma caixa de bombons’… eu nunca sabia qual Robbin ia escolher. Se era o Robbin determinado, cheio de energia, esperançoso, ou o Robbin grogue, com sono e rabugento. Ele tinha começado a beber de novo, mas nem isso justificava o estado ‘viajandão’ no qual ele parecia estar. Daí eu descobri que alguns de seus antigos ‘amigos’ tinham começado a visitá-lo de novo. Pessoas de seu passado que deveriam ter ficado no passado… pro bem dele.

Mais pro fim daquele mês, tínhamos planejado encomendar comida chinesa e assistir ao Superbowl juntos em Hancock Park. Naquela manhã, quando eu estava prestes a sair de casa, ele liga, ‘Cara, me desculpe… estou no Cedars de novo’. Basicamente, havia rolado uma reprise do que ocorrera no dia 4 de janeiro. Tinha alguma coisa rolando…


Fevereiro/Março e A Luz No Fim do Túnel

Durante esses dois meses, ele fez bastante progresso, fisicamente, e estava ficando cada vez mais forte. Certo dia, em fevereiro, nós finalmente conseguimos um passe pra sair. Eu fiquei maravilhado quando cheguei… ele sentou e se acomodou em sua padiola sozinho… sem esforço. Ele estava vestido com roupas casuais, barbeado, seu cabelo preso em um rabo de cavalo e pronto pra sair!! Passamos um dia ÓTIMO, fomos almoçar no ‘El Compadre’, e quando chegamos lá, ele tinha mais algumas surpresas para mim… ele disse, ‘Eu vou até ali andando com meus próprios pés… pega as muletas’. Eu achava que não haveria COMO ele estar pronto praquilo. ‘Você tem certeza???’ Eram uns 20 longos metros do estacionamento traseiro até a mesa minúscula… mas ele conseguiu!! De imediato, os 2 caras – ‘Flaco’ e ‘Chiquito’ – que serviam Robbin desde os dias do Ratt, vieram até nós, ‘Robbin… você está tão bem, você parece limpo, que bom te ver. ’ Ele respondeu, em espanhol, ‘Gracias, mi amigos, dos cervezas.. por favor!’

Depois de pedirmos a comida, Robbin me contou uma história sobre aqueles dois caras… ’Sabe, quando eu estava bem na pior e nem tinha dinheiro pra comer no McDonalds… eu e Rosie [sua labrador preta] aparecíamos na porta dos fundos e mendigávamos por um taco ou algo do tipo… eles nunca recusaram. Eu amo aqueles caras’. Agora eu entendo porque ele tinha tanto amor por aquele lugar. Comemos uma refeição fantástica e tomamos mais algumas ‘cervezas’ e até umas doses de tequila… chegou uma hora que eu disse, ‘chega, chega… eu tenho que dirigir’. Ele pediu assim mesmo e acabou tomando as duas! Ele insistiu em pagar a conta… 20 dólares de comida e 40 de álcool!! Ele deixou uma nota novinha de 100 dólares e saímos rapidamente. Tínhamos acabado de descontar um cheque ele que recebera de royalties emitido pela ‘Wicken Music Publishing’, e estava com uns trocados no bolso… ele estava podendo. Ele não tinha muito dinheiro, mas a generosidade dele suplantava tudo. Parecia que era quase um fortificante pra ele poder devolver algo às pessoas.

Em março ele começou a falar sobre arrumar um apartamento e começou a procurar nos jornais. Ele disse, ‘o que eu quero mesmo é uma dessas casas pequenas… com só 2 quartos… mas eu não consigo pagar uma sem um colega de quarto, você conhece alguém?’ Ele acabou pegando um apartamento de um dormitório nas redondezas… no distrito de Wilshire, o complexo [do] ‘Park La Brea’… ele dizia que ‘tinha um preço razoavelmente bom e era razoavelmente legal, perfeito para um King!’ Ele fez várias outras tentativas de arrumar um colega de quarto, incluindo aí um amigo de Seattle, mas não deu certo. Ele dizia, ‘Eu tenho que arrumar um colega de quarto… eu não posso viver sozinho’.

Começamos a ter passes para sair do hospital com regularidade, procurando por mobília e acessórios pro lugar. Compramos um conjunto de sofás de couro preto muito bonitos deixamos na loja.. esperando o dia no qual ele se mudaria. ‘São iguais aos que eu tinha em casa’. Ele fez com que eu fosse atrás de uns tapetinhos orientais pra ele botar no piso de madeira da sala de estar. Ele estava programado para se mudar no dia 1 de abril… meu aniversário!! [...]

Continua…


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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande foi desde 2004 um dos colaboradores mais lidos do Whiplash.Net. Faleceu no dia 2 de novembro de 2016, vítima de um infarte fulminante. Era extremamente reservado e poucos o conheciam pessoalmente. Estes poucos invariavelmente comentam o quanto era uma pessoa encantadora, ao contrário da persona irascível que encarnou na Internet para irritar tantos mas divertir tantos mais. Por este motivo muitos nunca acreditarão em sua morte. Ele ficaria feliz em saber que até sua morte foi motivo de discórdia e teorias conspiratórias. Mandou bem até o final, Nacho! Valeu! :-)

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