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Sammy Hagar: intransigente, e seguindo seus impulsos

Por Renato de Moraes
Postado em 22 de setembro de 2008

Intransigente e determinado, Sammy Hagar construiu uma carreira marcada por sucessos, conflitos e recomeços. Dono de uma das vozes mais reconhecidas do hard rock americano, começou a ganhar projeção com o Montrose, banda que seria muito mais celebrada depois de seu fim do que durante sua breve existência. Anos mais tarde, consolidou uma carreira solo que o transformaria no Red Rocker e alcançou fama mundial ao substituir David Lee Roth no Van Halen.

Entretanto, sua trajetória nunca se resumiu ao sucesso. Da infância pobre aos desentendimentos com músicos e gravadoras, Hagar demonstrou uma personalidade que frequentemente colocava suas convicções acima das conveniências comerciais, característica que lhe abriu muitas portas, mas também contribuiu para algumas de suas separações mais turbulentas.

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Uma infância marcada pela pobreza e pelo alcoolismo

Samuel Roy Hagar nasceu em 13 de outubro de 1947, em Salinas, na Califórnia, sendo o caçula de quatro filhos. Sua infância esteve longe da imagem descontraída e otimista que cultivaria décadas depois.

A família vivia em condições de extrema pobreza e se mudou para Fontana, onde seu pai, Bobby Hagar, encontrou trabalho na siderúrgica Kaiser Steel. Boxeador que havia tentado seguir carreira profissional, Bobby enfrentava sérios problemas com o alcoolismo e frequentemente demonstrava comportamento violento.

Boa parte do dinheiro da família era consumida pelas bebidas, deixando os aluguéis sem pagamento. Como consequência, Sammy e seus irmãos passaram a infância mudando constantemente de residência. O cantor recordaria ter vivido em nove casas diferentes antes dos dez anos, quando sua mãe, Gladys, finalmente decidiu abandonar o marido.

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Em algumas ocasiões, para escapar da violência doméstica, Gladys levava os filhos para dormir no carro, longe de casa. A pobreza também obrigou Sammy a trabalhar desde cedo, realizando pequenos serviços para ajudar nas despesas familiares.

Foi na música que encontrou uma possibilidade de construir uma vida diferente. Ainda adolescente, aprendeu a tocar guitarra e começou a participar de bandas locais. O rock representava não apenas uma paixão, mas uma oportunidade de escapar das dificuldades que haviam marcado seus primeiros anos.

Montrose, o fracasso comercial que se tornou um clássico

No início dos anos 1970, Hagar realizava apresentações em casas noturnas da região de San Bernardino antes de seguir para São Francisco. Foi nessa época que conheceu Ronnie Montrose, guitarrista experiente que havia trabalhado com artistas como Van Morrison e Edgar Winter e pretendia formar sua própria banda.

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O projeto era ambicioso. Ronnie desejava criar um grupo de hard rock capaz de competir com os grandes nomes da época, especialmente o Led Zeppelin. Com Hagar nos vocais, Bill Church no baixo e Denny Carmassi na bateria, surgiu o Montrose, quarteto que chamou a atenção do produtor Ted Templeman e assinou contrato com a Warner Bros. Records.

Em 1973, a banda lançou seu primeiro álbum, simplesmente intitulado Montrose. O disco apresentava um hard rock vigoroso, sustentado pelos riffs de Ronnie e pela voz potente de Hagar. Canções como "Rock Candy", "Bad Motor Scooter", "Rock the Nation" e "Space Station #5" revelavam um grupo com personalidade e enorme potencial.

A qualidade do material despertou entusiasmo entre músicos e parte da crítica especializada. O Montrose passou a ser comparado ao Led Zeppelin, recebendo a reputação de uma espécie de resposta americana à banda britânica.

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Entretanto, as expectativas comerciais eram muito maiores do que os resultados. Apesar de suas qualidades, o álbum alcançou apenas a 133ª posição da Billboard americana, desempenho modesto para um grupo que parecia destinado a conquistar o mercado de hard rock. As dificuldades de divulgação e posicionamento comercial também contribuíram para que o Montrose não alcançasse o público esperado.

Em 1974, a banda lançou Paper Money, que chegou à 65ª posição das paradas, mas apresentou uma mudança perceptível de direção musical. O baixista Bill Church havia sido substituído por Alan Fitzgerald, enquanto Ronnie começava a explorar sonoridades diferentes daquelas que caracterizavam a estreia.

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Hagar, por sua vez, acreditava justamente no hard rock direto do primeiro disco como o caminho para o sucesso. A divergência artística, somada aos conflitos de personalidade e às disputas pelo controle da banda, tornou a convivência insustentável.

No início de 1975, Ronnie decidiu dispensar Hagar, encerrando uma parceria de apenas dois álbuns. O vocalista ficou profundamente abalado. Além de perder a banda na qual depositara tantas expectativas, encontrava-se praticamente sem dinheiro, com esposa e filho para sustentar.

A história, entretanto, reservava uma ironia para o Montrose. Aquilo que havia sido considerado um projeto comercialmente decepcionante durante a década de 1970 acabaria se transformando em referência para uma geração de músicos de hard rock e heavy metal.

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O primeiro álbum passou a ser reverenciado como um dos trabalhos fundamentais do hard rock americano. Músicos do Metallica reconheceram sua influência, enquanto o Iron Maiden foi ainda mais longe e regravou duas composições do grupo. "I Got the Fire", originalmente de Paper Money, ganhou versões da banda britânica, assim como "Space Station #5", registrada em 1992.

O próprio Van Halen executava músicas do Montrose em suas primeiras apresentações, antes de alcançar o estrelato. Curiosamente, anos depois, Hagar se tornaria vocalista justamente do grupo que ajudara a popularizar uma sonoridade semelhante àquela defendida por ele nos tempos de Ronnie.

O Montrose nunca alcançou o sucesso comercial de seus sucessores, mas deixou um legado muito maior do que suas vendas iniciais sugeriam. Décadas depois, seu primeiro álbum seria considerado um clássico, demonstrando que o reconhecimento artístico nem sempre acompanha os resultados comerciais de uma época.

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Capitol Records e a busca por uma identidade musical

Depois de deixar o Montrose, Hagar decidiu seguir carreira solo. Em 1976, lançou Nine on a Ten Scale, pela Capitol Records, trabalho que incluía a faixa "Keep On Rockin'" e versões de músicas de Van Morrison e Donovan.

No ano seguinte, lançou Sammy Hagar, também conhecido como The Red Album, com canções como "Red" e "Rock 'n' Roll Weekend", seguido por Musical Chairs. Posteriormente, antigos companheiros do Montrose, como Bill Church e Denny Carmassi, voltariam a colaborar com o cantor.

Entretanto, apesar do talento e de sua crescente reputação nos palcos, Hagar enfrentava dificuldades para consolidar uma identidade musical nas gravações.

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Parte de seus discos apresentava uma sonoridade mais acessível, próxima ao rock melódico e ao soft rock que conquistavam espaço nas rádios americanas. O problema era que essa abordagem nem sempre correspondia ao artista que o público encontrava durante suas apresentações.

No palco, Hagar era um verdadeiro vocalista de hard rock, com voz potente, guitarras pesadas e uma energia muito distante daquela transmitida por algumas de suas gravações. A diferença criava uma imagem comercial pouco definida, dificultando sua consolidação diante do grande público.

Embora a Capitol tenha investido em seus lançamentos e turnês, Hagar considerava que a gravadora não compreendia plenamente seu potencial. A companhia o enxergava principalmente como um artista que precisava conquistar público na estrada, enquanto ele acreditava possuir condições de vender milhões de discos.

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Essa contradição tornou a relação progressivamente desgastante. Hagar trabalhava intensamente, abrindo shows de bandas como Kiss e Boston, mas seus álbuns continuavam alcançando resultados modestos.

Em 1977, durante uma apresentação como abertura do Kiss no Madison Square Garden, chegou a ser recebido com vaias. Em vez de desanimá-lo, o episódio reforçou sua determinação de conquistar o público pela intensidade de suas performances.

Em 1978, lançou seu primeiro registro ao vivo, All Night Long, posteriormente relançado em diferentes mercados como Loud and Clear. O disco mostrava com maior fidelidade a energia de suas apresentações, incluindo músicas de sua passagem pelo Montrose e de seus primeiros trabalhos solo.

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Em 1979, assumiu a produção de Street Machine, buscando maior controle sobre a própria sonoridade. No ano seguinte, lançou Danger Zone, último álbum de estúdio de sua passagem pela Capitol.

Depois de cinco anos, Hagar possuía uma discografia respeitável e uma reputação crescente como artista de palco, mas ainda não havia encontrado uma estrutura capaz de transformar essas qualidades em um sucesso de grandes proporções.

Geffen Records e a consagração solo

A transformação começou em 1981, quando Hagar assinou contrato com a Geffen Records, gravadora que enxergava nele um potencial muito superior aos resultados alcançados até então.

O executivo John Kalodner acreditava que o cantor poderia se tornar uma grande estrela do rock. Diferentemente da experiência anterior, a Geffen ofereceu recursos consideráveis para que Hagar desenvolvesse novas composições e trabalhasse com uma produção mais adequada à sua identidade musical.

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A mudança não significava abandonar melodias acessíveis ou baladas, mas encontrar o equilíbrio entre esses elementos e o hard rock que sempre caracterizara suas apresentações.

O resultado foi Standing Hampton, produzido por Keith Olsen. Com faixas como "I'll Fall in Love Again", "There's Only One Way to Rock" e "Heavy Metal", o álbum apresentava guitarras marcantes e refrões capazes de conquistar as rádios sem descaracterizar o cantor.

A aposta deu resultado. Standing Hampton ultrapassou a marca de um milhão de cópias vendidas e transformou Hagar em uma atração capaz de lotar grandes arenas. No ano seguinte, Three Lock Box, impulsionado por "Your Love Is Driving Me Crazy", consolidou seu crescimento comercial.

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Em 1983, enquanto desfrutava do sucesso, Hagar decidiu participar de um projeto paralelo. Formou o HSAS com Neal Schon, do Journey, o baixista Kenny Aaronson e o baterista Michael Shrieve, ex-Santana. A ideia era compor e gravar rapidamente um disco, mas a falta de entrosamento comprometeu o resultado. Hagar desejava um hard rock direto, enquanto Schon buscava uma sonoridade mais progressiva e virtuosa. O grupo lançou apenas Through the Fire, em 1984, encerrando uma experiência que deixou o vocalista frustrado e demonstrou que reunir grandes instrumentistas nem sempre significa formar uma grande banda.

Hagar retomou sua carreira solo e, ainda em 1984, lançou VOA, seu maior sucesso comercial até aquele momento. Impulsionado por "I Can't Drive 55", o álbum conquistou a certificação de platina e consolidou definitivamente sua posição entre os grandes nomes do rock americano.

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Depois de tantos anos de dificuldades, Sammy Hagar finalmente havia alcançado o sucesso que perseguia desde sua saída do Montrose. Curiosamente, seria exatamente nesse momento que receberia um convite capaz de transformar novamente sua carreira.

Van Halen, do sucesso aos conflitos

Em 1985, Eddie Van Halen procurava um substituto para David Lee Roth, cuja saída havia colocado em dúvida o futuro de uma das bandas mais populares do rock americano. A escolha de Sammy Hagar surpreendeu fãs e críticos, especialmente porque os dois vocalistas possuíam características bastante diferentes.

Enquanto Roth era conhecido por sua personalidade extravagante e teatral, Hagar trazia maior experiência como compositor e um estilo vocal que permitia ao grupo explorar composições mais melódicas, sem abandonar as guitarras pesadas de Eddie.

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A parceria começou de maneira extraordinária. Lançado em 1986, 5150 tornou-se o primeiro álbum do Van Halen a alcançar o topo da Billboard americana, com sucessos como "Why Can't This Be Love", "Dreams" e "Love Walks In".

A nova formação demonstrou rapidamente que possuía identidade própria. A camaradagem entre os músicos e a disposição de Hagar para experimentar diferentes possibilidades vocais ampliaram os horizontes musicais do grupo.

Mesmo assim, o cantor precisou cumprir obrigações contratuais com a Geffen, lançando em 1987 o álbum solo I Never Said Goodbye, que contou com a participação de Eddie Van Halen.

Em 1988, o Van Halen lançou OU812, consolidando o sucesso anterior. Três anos depois, For Unlawful Carnal Knowledge apresentou uma sonoridade mais pesada e produziu sucessos como "Poundcake", "Top of the World" e "Right Now".

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A parceria parecia funcionar perfeitamente. Entretanto, a forte personalidade dos integrantes e as diferenças sobre o controle criativo da banda começaram a provocar conflitos.

Em 1993, o grupo lançou seu primeiro álbum oficial ao vivo, Live Right Here, Right Now, seguido por Balance, em 1995. Apesar do sucesso comercial, o relacionamento entre Hagar e os irmãos Van Halen já demonstrava sinais de desgaste.

A crise atingiu seu ponto máximo em 1996, durante os trabalhos relacionados à trilha sonora do filme Twister. Divergências musicais, pessoais e comerciais tornaram a convivência insustentável, resultando na saída do vocalista.

As versões sobre o rompimento foram diferentes. Segundo os irmãos Van Halen, Hagar desejava retomar sua carreira solo. O cantor, entretanto, insistia que havia sido demitido.

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O episódio lembrava sua saída do Montrose, mais de vinte anos antes. Novamente, deixava uma banda após alcançar grande sucesso, em meio a disputas sobre os rumos musicais e o controle do grupo.

O Van Halen voltou a trabalhar brevemente com David Lee Roth e posteriormente contratou Gary Cherone, que permaneceria até 1999.

Em 2004, Hagar retornou para a turnê Best of Both Worlds, que reuniu novamente a formação responsável pelos quatro álbuns de estúdio gravados com o cantor. Apesar da grande procura por ingressos, a reunião foi marcada por novas tensões, especialmente envolvendo Eddie Van Halen.

A turnê terminou sem que os músicos conseguissem estabelecer uma parceria duradoura. O reencontro, que poderia representar uma reconciliação definitiva, acabou aprofundando antigos ressentimentos.

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O retorno solo e a liberdade criativa

Depois de deixar o Van Halen em 1996, Hagar não demorou a reorganizar sua carreira. Em 1997, lançou Marching to Mars, reunindo convidados como Slash, Matt Sorum, Mickey Hart e Bootsy Collins.

O álbum também marcou uma aproximação com antigos companheiros do Montrose. Ronnie Montrose, Bill Church e Denny Carmassi participaram da gravação de "Leaving the Warmth of the Womb", enquanto o single "Little White Lie" refletia parte das frustrações relacionadas à saída do Van Halen.

O músico que deixara o Montrose em 1975 praticamente sem dinheiro agora possuía fama, independência financeira e uma extensa discografia. Seu desafio já não era conquistar espaço no mercado, mas demonstrar que sua identidade artística não dependia da banda que havia deixado.

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Com os Waboritas, grupo que incluía Vic Johnson, Mona Gnader e David Lauser, passou a explorar uma atmosfera musical mais descontraída, associada ao estilo de vida de Cabo San Lucas, no México.

Em 1999, lançou Red Voodoo, impulsionado por "Mas Tequila". Nos anos seguintes, vieram Ten 13, Not 4 Sale e o álbum ao vivo Live Hallelujah.

Hagar também começou a incorporar influências mais variadas, aproximando-se da música country e do pop. Essa liberdade ficou especialmente evidente em Livin' It Up!, de 2006, e em Cosmic Universal Fashion, lançado em 2008.

Seus trabalhos já não alcançavam as vendas dos tempos de VOA ou do Van Halen, mas sua independência financeira permitia explorar novos caminhos sem as mesmas pressões comerciais.

Chickenfoot, The Circle e os novos companheiros

Em 2008, Hagar iniciou um projeto que, de certa forma, representava uma segunda oportunidade de realizar aquilo que havia tentado com o HSAS.

Ao lado de Michael Anthony, Joe Satriani e Chad Smith, baterista do Red Hot Chili Peppers, formou o Chickenfoot. Mais uma vez, reunia músicos experientes e de características diferentes, mas dessa vez a química funcionou.

A amizade com Michael Anthony, construída durante os anos de Van Halen e fortalecida depois da saída de ambos, tornou-se fundamental para a estabilidade do grupo.

O álbum de estreia do Chickenfoot, lançado em 2009, apresentou um hard rock direto, com guitarras marcantes e canções como "Oh Yeah" e "Sexy Little Thing". O trabalho alcançou a quarta posição da Billboard americana e recebeu disco de ouro. Em 2011, a banda lançou Chickenfoot III, mantendo a proposta musical da estreia.

O contraste com o HSAS era evidente. Enquanto o projeto dos anos 1980 havia sido prejudicado pela pressa e pela falta de entrosamento, o Chickenfoot nasceu de uma convivência musical mais natural, com instrumentistas interessados em construir algo coletivamente.

Em 2011, Hagar também lançou a autobiografia Red, My Uncensored Life in Rock, revelando detalhes de sua infância, da trajetória musical e dos conflitos com antigos companheiros.

Poucos anos depois, em 2014, formou o The Circle, ao lado de Michael Anthony, Vic Johnson e Jason Bonham, filho de John Bonham, do Led Zeppelin.

A proposta era percorrer diferentes fases de sua carreira, interpretando músicas do Montrose, de seus trabalhos solo e do Van Halen. A banda lançou o álbum ao vivo At Your Service, em 2015, e posteriormente os trabalhos de estúdio Space Between, em 2019, e Crazy Times, em 2022.

Paralelamente, o Cabo Wabo Cantina, em Cabo San Lucas, consolidava-se como um dos símbolos de sua independência. O estabelecimento, inaugurado durante os anos de Van Halen, tornou-se ponto de encontro de músicos e admiradores.

As festas de aniversário no Cabo Wabo tornaram-se tradição, reunindo convidados especiais e repertórios improvisados. Mais do que um empreendimento comercial, o local passou a representar a liberdade de Hagar para tocar com amigos em um ambiente distante das pressões das grandes turnês.

Despedidas, reencontros e a preservação de um legado

Apesar de sua longa trajetória, Hagar ainda não havia se apresentado no Brasil. A aguardada estreia parecia finalmente próxima em março de 2020, quando foram anunciados shows do The Circle em Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo.

Entretanto, poucos dias antes da primeira apresentação, a pandemia de Covid provocou o cancelamento da passagem pelo país. O episódio frustrou fãs que aguardavam havia décadas uma oportunidade de assistir ao cantor. Até outubro de 2026, a estreia brasileira continuava sem acontecer.

Naquele mesmo ano, Hagar enfrentaria uma perda muito mais profunda. Em 6 de outubro de 2020, Eddie Van Halen morreu aos 65 anos, depois de uma longa batalha contra o câncer.

A notícia trouxe novamente à tona a relação conturbada entre os dois músicos. Apesar das acusações públicas e dos anos de afastamento, Hagar revelou que havia conseguido restabelecer contato com Eddie alguns meses antes de sua morte.

As conversas ocorreram de maneira reservada, justamente para evitar especulações sobre uma possível reunião do Van Halen. Para Sammy, o reencontro teve um significado especial. Depois de tantos conflitos, os dois conseguiram deixar parte das desavenças para trás e recuperar a amizade que havia marcado seus primeiros anos juntos.

A reconciliação não apagava os problemas do passado, mas permitia que Hagar recordasse aquela fase sem carregar o mesmo ressentimento. A morte de Eddie também encerrava definitivamente qualquer possibilidade de reunir novamente a formação do Van Halen com Sammy nos vocais.

Em 2024, Hagar chamou atenção pela excelente condição vocal durante uma homenagem a Jon Bon Jovi, demonstrando uma vitalidade surpreendente para um cantor que já se aproximava dos 80 anos.

Naquele mesmo ano, iniciou a turnê The Best of All Worlds, ao lado de Michael Anthony, Joe Satriani e Jason Bonham, posteriormente substituído por Kenny Aronoff.

A proposta era revisitar principalmente o repertório de sua fase no Van Halen, recuperando músicas que haviam desaparecido das grandes turnês desde a reunião de 2004.

Joe Satriani assumiu a difícil responsabilidade de interpretar as partes originalmente criadas por Eddie, procurando respeitar a identidade das composições sem simplesmente imitar o guitarrista.

O projeto foi recebido com entusiasmo e continuou com apresentações em 2025 e 2026. Hagar e Anthony encontraram uma maneira de manter vivo um repertório que marcou uma geração de admiradores.

Em abril de 2025, Hagar lançou "Encore, Thank You, Goodnight", composição desenvolvida ao lado de Satriani e inspirada, segundo o cantor, em um sonho no qual reencontrava Eddie Van Halen. A música representou uma homenagem ao antigo companheiro e ao legado que haviam construído juntos.

Ainda em 2025, participou do show de despedida de Ozzy Osbourne e do Black Sabbath, em Birmingham, interpretando músicas como "Flying High Again" e "Rock Candy", clássico de sua primeira banda.

Aos 79 anos, Hagar continuava realizando apresentações, mantendo suas tradicionais comemorações no Cabo Wabo e demonstrando interesse em novos projetos musicais, sem limitar sua carreira à preservação dos sucessos do passado.

Uma história ainda em construção

De um garoto pobre de Fontana ao vocalista de uma das maiores bandas de rock do mundo, Sammy Hagar construiu uma trajetória que atravessa diferentes gerações do rock.

Passou por bandas que não alcançaram o sucesso esperado, enfrentou gravadoras que questionavam seu potencial e participou de algumas das formações mais populares da história do hard rock americano.

Com mais de cinco décadas dedicadas à música, seu repertório permanece presente nos palcos, enquanto novas possibilidades artísticas continuam surgindo.

Aos 79 anos, Hagar já não precisa provar seu valor comercial ou demonstrar que pode sobreviver fora de uma grande banda. Sua carreira, entretanto, permanece aberta a novos projetos, reencontros e experiências musicais.

E, conhecendo sua trajetória, talvez o mais interessante seja justamente não saber qual será seu próximo passo.

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