Resenha - Chimera Music Festival (Arena Skol, São Paulo, 23/09/2005)

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Por Thiago Sarkis
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A Arena Skol Anhembi foi novamente o centro das atenções da música pesada no Brasil. O Chimera Music Festival trouxe ao país, pela primeira vez, o Slipknot, e montou um grande festival com três bandas nacionais, Korzus, Chipset Zero, e Sepultura.

Com a explosão de Corey Taylor e seus companheiros, especialmente após “Vol. 3 (The Subliminal Verses)” de 2004, e também a presença de nomes importantes, reconhecidos internacionalmente como Igor Cavalera, Andreas Kisser, Marcello Pompeu, e Sílvio Golffeti, chegou a ser estranho o público total no local, entre 19 e 22 mil pessoas, ou seja, inferior ao de Whitesnake e Judas Priest.

Muito bacana o encontro de faixas etárias, de quarentões até meninos de 10, 11 anos apoiados nos ombros dos pais para verem seus ídolos. Uma conseqüência da escalação de bandas da velha-guarda com as novas sensações do momento.

Partindo do princípio de que estávamos numa sexta-feira, dia de trabalho, com aquele trânsito apocalíptico de São Paulo, podemos dizer que os shows começaram cedo demais. O Korzus tocou na hora do rush, por volta das 18:30 já estava no palco. Pra quem gosta, essa foi uma brincadeira de péssimo gosto, mas é compreensível pela necessidade de cumprir com os horários de locação assinados em contrato, e a verdade é que a maioria dos presentes não queria ver todos os grupos do festival.

Sem mais delongas, a melhor banda do thrash metal nacional na atualidade deu seu recado e muito bem. Os efeitos de um set list bem programado foram sentidos nas reações mais fortes da noite, em enormes rodas e contágio geral. O CD “Ties Of Blood” (2004) teve ótima divulgação principalmente com as estrondosas “Guilty Silence”, “Respect”, “What Are You Looking For?”, e “Correria”. Os clássicos vieram colocar mais lenha na fogueira. “Last Memories”, “Internally”, “Mass Illusion” e “Catimba” incendiaram a audiência, e certamente surpreenderam os despreparados para a tradicional devastação do Korzus. Pra fechar, com um clima já muito favorável, “Raining Blood” do Slayer. Nem precisa dizer a febre que ela ocasionou, não?

Muita gente teve dificuldade em compreender o porquê do Chipset Zero, conjunto menos conhecido, de curta história, e apenas um álbum lançado, “Deep Blue” (2003), ser a segunda e não a primeira banda, abrindo a festa. No entanto, a apresentação deles justificou a colocação, pois indubitavelmente a proximidade que têm com a música do Slipknot é muito maior que a de qualquer outro conjunto que se candidatasse ao posto.

O debute dos guarulhenses é bem profissional, mas eu tinha lá minhas ressalvas sobre várias faixas. Persisto com elas, mas devo admitir que ao vivo eles são bem melhores. Os 30 minutos foram suficientes para uma passagem intensa, mesmo que com algumas falhas técnicas, e som baixo em determinados instrumentos. “Face The Reality” e “Switching Power Supply” são músicas realmente boas e que animam. Vale conferir o Chipset Zero com mais atenção.

O Sepultura chegou na seqüência e a quantidade de cara emburrada porque os brasileiros estavam abrindo o show dos norte-americanos não foi brincadeira. Em alguns lugares da Arena Skol o som estava ok, mas em compensação, outros pontos ficaram muito prejudicados. Mal se podia ouvir o que os músicos estavam tocando. Instrumentos engalfinhando-se.

Apesar deste tremendo vacilo, a banda fez uma excelente apresentação, arrebatando o público imediatamente com “Arise”. Seguiu no passado glorioso com “Slave New World” e “Biotech Is Godzilla” do fantástico “Chaos A.D.” (1993). Depois só material mais atual, já da fase Derrick Green, como “Choke”, “Apes Of God”, “Sepulnation”, “Mind War”. Neste entremeio houve um pequeno retorno aos tempos de Max Cavalera com “Attitude”.

O atual vocalista foi então anunciar uma música “velha”, e Andreas Kisser o corrigiu rapidamente, pois se tratava exatamente do contrário. O grupo apresentou uma pancada chamada “Convicted In Life”, proveniente do trabalho que está sendo gravado. Levada thrash metal, obviamente ainda dentro da postura do Sepultura nos últimos anos, mas que certamente chama atenção e deixa-nos mais ansiosos pelo novo álbum.

A reta final do set list é de extasiar e inclui músicas mais conhecidas, alguns grandes clássicos que puxam todo o público, independentemente de preferência por Chipset Zero, Korzus ou Slipknot. Falamos, entre outras, de “Refuse / Resist”, “Troops Of Doom”, e claro “Roots Bloody Roots”. Aliás, esta última já causa irritação em alguns fãs. Um rapaz do meu lado que acompanhou todas as músicas, cantou, bateu cabeça etc., soltou a seguinte frase antes que Derrick completasse o “Sepultura do... (Brasil)”: “pu** merd*, lá vem ‘Roots’”. É engraçado. Existe todo tipo de fã, mas o certo é que em todo tipo de fã há algum aspecto, no mínimo, implicante.

Bastou Igor Cavalera dar um passo fora do palco, e os roadies trazerem o kit de bateria de Joey Jordison, para a gritaria começar. Uns xingando, e outros clamando. A maioria parecia estar, pelo menos, curiosa.

Criou-se uma baita atmosfera com “Prelude 3.0”, e então “The Blister Exists” numa entrada explosiva dos nove integrantes do Slipknot, liderados pela figura carismática de Corey Taylor. Há todo um contexto circense envolvendo a apresentação do grupo. Movimentação incessante, traços de coreografias, baquetas voando de um lado para o outro, taco de beisebol, além das máscaras que se encaixam perfeitamente à proposta mostrada por eles.

Uma arte violenta e bruta transmitindo uma mescla de repulsa, fantasia, horror, interesse, bestialidade, espanto. O melhor resumo disso ficaria na imagem de Shawn “Clown” Crahan, “percussionista” que pula, canta, joga água no povo, encena masturbação com o microfone, e por aí vai.

O fato é que se prender aos adereços e a certos exageros é perder boa parte do ótimo som praticado pelo Slipknot. Não há qualquer dúvida de que eles beberam muito da fonte do Sepultura, e de outros artistas importantes do metal extremo, e isso o próprio Corey declara abertamente, como o fez durante o Chimera Music Festival.

Com apenas quatro álbuns, contando também “Mate.Feed.Kill.Repeat” (1997), eles tiveram tempo suficiente de cobrir toda a carreira em uma hora e meia de show. Excelente mistura da fase mais crua do auto-intitulado de 1999, e de “IOWA” (2001), com a era popular, patrocinada pela MTV, e encabeçada pelos ‘hits’ “Before I Forget” e “Duality” de “Vol. 3 (The Subliminal Verses)” (2004).

Conseguiram agradar as duas facções de seus fãs com quebradeiras como “(sic)”, “People=Shit”, “Everything Ends”, “Wait & Bleed”, “Spit It Out”, “Disasterpiece”, “The Heretic Anthem”, e “Eyeless”. Guitarras pesadíssimas, exatas, bom trabalho percussivo, baixo robusto, e vocais energéticos. Uma banda pujante e coesa ao vivo, acima de tudo.

É uma pena que a incidência econômica e a busca pelo baixo nível musical, aquele fácil de ouvir, exclua do set e atrapalhe a popularização de músicas excelentes, mais trabalhadas e complexas como “Prosthetics”, “Opium Of The People”, “Metabolic”, “Skin Ticket”.

Se está difícil abrir a cabeça para o Slipknot, tudo bem, talvez não caia no seu gosto nunca. Porém, se ainda lhe resta alguma esperança, DESLIGUE A MTV E VÁ OUVIR UM DISCO.

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Sobre Thiago Sarkis

Thiago Sarkis: Colaborador do Whiplash!, iniciou sua trajetória no Rock ainda novo, convivendo com a explosão da cena nacional. Partiu então para Van Halen, Metallica, Dire Straits, Megadeth. Começou a redigir no próprio Whiplash! e tornou-se, posteriormente, correspondente internacional das revistas RSJ (Índia - foto ao lado), Popular 1 (Espanha), Spark (República Tcheca), PainKiller (China), Rock Hard (Grécia), Rock Express (ex-Iugoslávia), entre outras. Teve seus textos veiculados em 35 países e, no Brasil, escreveu para Comando Rock, Disconnected, [] Zero, Roadie Crew, Valhalla.

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