Em 28/05/2010 | Marcelo Nova: "Detesto cover… cover de mim mesmo é pior"

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Marcelo Nova: "Detesto cover… cover de mim mesmo é pior"

Por Gabriel Gonçalves | Fonte: Imprensa Rocker

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Matéria publicada em 28/05/10. Quer matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?

Marcelo Nova (ex-Camisa de Vênus) concedeu uma longa entrevista ao blog IMPRENSA ROCKER, na qual falou sobre o início do Camisa de Vênus, carreira solo, Raul Seixas, disco novo dentre outros assuntos.

Em 1980, com quase 30 anos você formou o Camisa. Por que tão tarde, Marcelo? Pergunto isso porque o usual é a pessoa resolver montar uma banda quando é mais novo, com uns 14 ou 15 anos. Por que só com 30 anos você decidiu montar o Camisa?

Eu tinha um acervo em casa muito grande de música. Música para mim sempre foi uma paixão primordial, e eu ouvia música diariamente. Não me interessava por futebol, praia ou clube. Eu gostava era de música. Então, se eu tivesse meus discos e minha vitrolinha no quarto, já estava satisfeito.

Isto foi servindo como uma espécie de alimento que eu ia colocando no meu alforje para usar depois. Eu não sabia exatamente quando, evidentemente, pois eu morava em Salvador, uma terra estranha para este tipo de manifestação musical, mas eu ficava esperando o momento, tentando identificar onde eu poderia ser bom no que eu queria fazer. Eu comecei a trabalhar em rádio, comecei a trabalhar com música, até que surgiu um negócio chamado Punk Rock, e eu percebi que se dava pra fazer daquele jeito eu poderia tentar, já que eu não tinha nenhuma experiência musical do ponto de vista virtuoso ou técnico.

Eu não sabia tocar instrumento nenhum. Eu sabia cantar todas as canções, tinha ótimas idéias ou boas idéias para fazer arranjos, tinha um certo domínio da língua inglesa pra entender o que as pessoas estavam falando – porque sempre me interessou mais o texto do que o solo de guitarra – e então, com o surgimento do Punk, eu percebi que poderia criar um mata borrão sonoro sobre o qual derramaria meus textos, entendeu?

Naquela época era muito difícil (ter uma banda de Rock n’ Roll na Bahia). Não dava para falar em termos de música, pois músico na Bahia nos anos 80, final dos anos 70, era muito voltado para uma coisa acadêmica, uma coisa que tivesse um fundo de MPB ou que tivesse raízes e relações com essa coisa regionalista, que não era exatamente o que eu gostaria de fazer. Então acabei juntando, meio por acaso, mais quatro pessoas que também não tinham experiência musical, e acabou que nós entramos pelas portas dos fundos.

Todo mundo queria fazer um som que fosse representativo do novo surgimento do Rock brasileiro, pra tocar em rádio e fazer parte do Programa do Chacrinha e do Globo de Ouro, enquanto na verdade o que eu queria mesmo era esculhambar com a Bahia. Minha intenção maior naquele momento era dizer: “já que os baluartes não se manifestam, eu acho que eu poderia me manifestar de uma maneira distinta dos demais”.

Nunca me interessou fazer parte de time que está ganhando. As pessoas só querem jogar no time que está ganhando. Eu não tenho nenhuma vontade de jogar em time que está ganhando: eu gosto de jogar pelo amor ao jogo. Eu gosto de botar a bola por entre as pernas do zagueiro e fazer um gol de letra. Não me interessa se é no Estrelinha de Pirapora ou no Real Madrid. Até prefiro que seja no Estrelinha de Pirapora, porque eu dou vazão ao meu espírito anárquico. Jogar em time que está ganhando é muito chato. É muito fácil e é muito chato!

Na segunda reunião do Camisa, quando gravaram o DVD no “Festival de Verão de Salvador”, o acordo era fazer uns shows e terminar ou existia a possibilidade de mais um disco inédito?

A idéia era fazer uns shows, que foi o que acabou acontecendo. O Camisa é meu autorama (risos). Eu gosto de armar a pista, botar os carrinhos pra correr, mas depois de dois dias perde a graça. É brincadeira de menino.

O Camisa foi minha primeira banda e eu tenho o maior orgulho de ter sido parte dela, de ter feito tudo o que fizemos juntos. Lembro de Robério, de Gustavo e de Karl, às vezes com raiva e às vezes com muito carinho, porque é normal entre homens este sentimento ambíguo: um dia você está de bode e quer chamar o cara de filho da puta e no outro você quer dar um abraço e dizer “pô cara, eu gosto muito de você, me desculpe não ter lhe dito isto antes”.

Então esse sentimento misto existe, é real. Mas o Camisa não é o somatório das nossas relações pessoais, o Camisa é uma banda musical. Gravamos canções, gravamos discos, e é por este viés que ele tem que ser analisado, e não se Marcelo Nova é um cara bacana ou é egocêntrico, ou se Karl é maluco, se Robério fala de mais ou de menos. Não é esse o ponto. O que quero dizer quando falei que o Camisa é meu autorama, é que ele está ligado diretamente ao meu início de carreira, quando eu sonhava em ter uma banda.

Eu já passei por isso há muito tempo. É divertido tocar com eles? Claro que é divertido. Entretanto eu não vou fazer disto minha carreira, pois é algo no qual eu já virei a página. Eu tenho orgulho, ótimas lembranças daquilo, mas eu não gosto de nostalgia. Eu nem consigo tocar as músicas do Camisa do mesmo jeito que elas eram. Não me interessa estar aprisionado no tempo, nos anos 80. Eu detesto isso!

Hoje minhas canções têm que soar como eu sou hoje e não como eu soava em 1932 (risos). Não tenho interesse nenhum por cover. Detesto cover, e cover de mim mesmo é pior ainda (risos).

Confira a entrevista completa através do endereço www.imprensarocker.wordpress.com

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