"Who Do We Think We Are", o álbum mais injustiçado do Deep Purple?

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"Who Do We Think We Are", o álbum mais injustiçado do Deep Purple?


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Imagine a seguinte situação: você faz parte de uma banda de rock que encontra uma formação muito bem equilibrada. Os integrantes são simplesmente extraordinários naquilo que fazem. Todos são músicos de capacidade e inventividade incontestável. Você e seu conjunto então lançam uma sequência de três discos que se tornam obras essenciais do estilo e que passam a ser influência básica de boa parte do que viria depois. Não satisfeito com isso, ainda aparece com outro álbum que se transforma num dos mais impressionantes registros ‘ao vivo’ que se tem notícia. Após realizar tudo isso e chegar ao auge, de que forma você daria continuidade à sua carreira? No caso do Deep Purple, a resposta a tal questionamento é o que discutiremos agora.

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Por mais que existam debates acerca de quais foram as melhores formação e fase do Deep Purple, não há como negar que o período mais produtivo e de maior sucesso da banda ocorreu no início dos anos 70. Ian Gillan, Ritchie Blackmore, Jon Lord, Roger Glover e Ian Paice constituíram o que ficaria imortalizado como MK II. Em um espaço de tempo relativamente curto, essa formação concebeu clássicos absolutos como “In Rock”, “Fireball”, “Machine Head” e “Made In Japan”. O Purple atingia dessa forma o status de um dos maiores e mais influentes nomes do rock no mundo. Exaltados como uma banda virtuosa, que normalmente brindava seus fãs com apresentações ao vivo vigorosas e ainda ostentando um enorme sucesso comercial à época, não haveria como não considerar que realmente tinham chegado ao topo.

No entanto, chegar e, principalmente, manter-se no topo não é somente um ‘mar de rosas’, traz consigo exigências cada vez maiores e uma pressão absurda para que se faça algo sempre de qualidade melhor e de mais sucesso do que o já realizado, seja por parte dos fãs ou da mídia. Com isso, o ritmo intenso de trabalho, aliado à já referida pressão sobre o grupo, acabariam cobrando o seu preço. Os membros da banda, notadamente Ian Gillan e Ritchie Blackmore, reconhecidamente tinham personalidade forte, além de pontos de vista diferentes sobre determinadas coisas. Obviamente, isso geraria, no decorrer dos anos, tensões crescentes e cumulativas. O cansaço físico e mental a que estavam expostos acabaria por elevar tais divergências a um nível além do aceitável, de forma que a relação pessoal entre o vocalista e o guitarrista praticamente deixou de existir. Só que, no meio disso tudo, havia um grupo com uma carreira a seguir, contratos a cumprir e, o mais importante, uma legião de fãs fervorosos sedenta por shows e por mais material novo. Diz a história que, ainda no final de 1972, Gillan avisou que deixaria o Purple em seis meses, para que seus colegas e os empresários decidissem o que fazer da banda. É dentro desse contexto que em 1973 é lançado o álbum “Who Do We Think We Are”.

É claro que para existir o melhor também tem que existir o pior. Entretanto, nem sempre falar que uma coisa é melhor que outra implica em dizer que uma é boa e a outra é ruim. Algumas pessoas não entendem bem quando se diz que um disco é injustiçado ou subestimado. Consideram que o que está sendo falado ou escrito é que tal álbum é melhor que os outros ou imaginam que se está afirmando que ele é um clássico atemporal. Bem, não é isso. O que está em questão é tão somente o fato de se compreender que uma determinada obra tem reconhecimento e importância histórica aquém da sua real qualidade. E aqui temos mais um exemplo muito bem acabado disso.

Embora não tenha sido um fracasso comercial retumbante, “Who Do We Think We Are” não agradou boa parte dos fãs e da crítica já na época de seu lançamento. Importantes publicações especializadas em música naquele tempo já o pintavam como ‘um disco totalmente deslocado’, ‘o fim da capacidade criativa da banda’, ‘um conjunto funcionando no piloto automático’ e por aí vai. Muitos se questionavam sobre onde teria parado o virtuosismo dos caras. Outros o criticavam pela falta de peso, de vigor, da própria essência e musicalidade do grupo. Suas canções jamais figuraram entre as mais pedidas pelos seguidores da banda nas apresentações ao vivo. Se um fã for solicitado a apontar dez ou mesmo quinze clássicos do Deep Purple, são enormes as chances de não aparecer nenhuma música deste álbum na hipotética lista. Nenhum dos integrantes envolvidos no trabalho jamais demonstrou morrer de amores pela obra. Chega-se ao ponto de algumas pessoas até mesmo ignorarem a existência desse disco ou então lembrarem-se apenas de “Woman From Tokyo”. Mais do que isso, até mesmo em algumas entrevistas e vídeos retratando parte da história da banda o álbum foi sumariamente esquecido.

Tudo bem, você até pode dizer que os demais discos gravados por aquela formação são melhores. Pode ir além e afirmar que a MK II só tinha clássicos no currículo até então. Ninguém vai criticá-lo por isso. Pelo contrário, muitos dirão ‘esse cara sabe do que está falando’. Só que uma coisa é considerar que “In Rock”, “Fireball”, “Machine Head” ou até mesmo “Burn”, que veio depois e com outra formação, sejam obras melhores ou mais queridas. Outra coisa é julgar um trabalho como algo realmente ruim. Se for feita uma análise um pouco mais detalhada das sete faixas que compõem o álbum em discussão aqui, será que o disco é tão fraco como o tratamento dispensado a ele nos leva a acreditar? Será essa mais uma daquelas conversas de fã, cego pelo fanatismo e querendo justificar as presepadas de seus ídolos?

A bolacha começa com o single “Woman From Tokyo”, sem dúvidas a canção mais conhecida do disco e a que pode ostentar o status de clássico. Muita gente, de forma absurda, acusava a música de ser uma tentativa frustrada de repetir o sucesso de “Smoke On The Water”, devido ao tipo de introdução e de riff que iniciava ambas as faixas. O fato é que a canção traz mais um dos riffs clássicos de Ritchie Blackmore e já dá sinais de que o disco é mais calcado em riffs do que em solos, no que diz respeito às guitarras. Uma parte mais calma no meio da música mostra o quanto o Purple é capaz quando quer desenvolver partes mais melódicas e sentimentais. Na sequência, temos “Mary Long”, com sua letra bem humorada, uma ‘cutucada’ em Mary Whitehouse, britânica que se tornou famosa por sua cruzada em defesa da moralidade. Nessa faixa, além da boa levada e do ritmo constante, Blackmore se destaca com um ótimo solo. “Super Trouper” traz uma guitarra com o principal de sua agressividade residindo na melodia, em detrimento da distorção, alternando com lapsos de algo mais psicodélico, sobretudo no refrão. O trabalho do baixo de Roger Glover também é digno de nota.

À seguir, somos levados ao momento mais agitado do disco, inicialmente com “Smooth Dancer”, um rock clássico, direto, dos mais contagiantes do álbum. Lembra vagamente a levada de “Speed King”. O bom e velho Hammond de Jon Lord ganha nessa faixa o seu primeiro grande destaque no disco. O mais impressionante, no entanto, é a letra, onde Ian Gillan deixa bem claros seus sentimentos por Ricthie Blackmore. Fica sempre a dúvida: será que o guitarrista não entendeu sobre o que tratava a letra antes de gravá-la? E, se entendeu, como não hesitou em gravá-la? O que dizer então de “Rat Bat Blue”, música que tinha todas as condições de se transformar num dos grandes clássicos da banda, daqueles presentes em todos os shows? Desde seu riff inicial, passando pelo groove meio Zeppeliniano, até desembocar no solo fantástico de Jon Lord e na batida firme de Ian Paice, uma pérola meio que esquecida pelo grupo e pelos fãs. O blues “Place In Line” mostra mais uma vez o virtuosismo da banda, sobretudo de Blackmore, em seu melhor momento no álbum. Ian Gillan comparece com um vocal carismático e totalmente bem encaixado na proposta da faixa, ainda que cantando blues, que não era a sua especialidade. Fechando o álbum, temos a semi-balada “Our Lady”, canção simples, fácil de assimilar, pela melodia simples e mais ‘pop’, sem, no entanto, soar piegas.

O desempenho individual dos músicos nesse trabalho talvez não tenha superado aquele obtido nos discos anteriores com a mesma formação. Entretanto, dizer isto está longe de considerar que todos eles não tenham atingido uma ótima performance. Ian Gillan não apresentou os vocais agudos absurdos verificados em discos como “In Rock” e “Machine Head”, por exemplo, mas soube encaixar muito bem sua voz em todas as canções, além de interpretar com maestria todas as letras. Blackmore focou seu trabalho mais no desenvolvimento de riffs e melodias do que na composição de solos enlouquecidos ou nas viagens sonoras que embarcou em obras anteriores (e posteriores). Jon Lord, quando apareceu em destaque nas músicas, apareceu bem demais, como sempre foi a tradição de um dos maiores tecladistas da história. Roger Glover mostrou a competência de sempre, segurando com classe a ‘cozinha’ ao lado de Ian Paice, este último, como já escrito em várias resenhas de material do Purple, um sujeito ‘que parece nunca ter passado por maus momentos, musicalmente falando’.

Como que um disco que contém melodias cativantes, instrumental bem executado, uma excelente voz a dar vida às letras, além de uma identidade própria, pode ser visto como algo fraco? “Who Do We Think We Are” foi atacado por ser um disco menos pesado, menos virulento que a média da obra da banda. No entanto, sua essência mais branda de forma alguma deveria depor contra ele. Sua natureza mais melódica e seu flerte com o pop, como já era de se esperar, desagradaram muita gente. Apesar disso, essas características não parecem ter surgido de maneira premeditada, objetivando uma maior penetração no mercado. Soam apenas como o registro de uma banda num momento musical menos intenso e com uma sonoridade mais despojada, embora sob o ponto de vista de relacionamento interno na banda, a coisa estivesse ocorrendo de forma totalmente antagônica, algo que é perfeitamente notado nas letras que, a despeito da sonoridade mais leve, são carregadas de raiva, frustração e pessimismo. Ninguém jamais poderá acusá-lo de ser um álbum mal produzido, mal trabalhado ou pobre na questão instrumental. Ele era apenas um Deep Purple um pouco diferente daquele que se estava acostumado a ver e ouvir. Além disso, todos os problemas internos do grupo também ajudaram nas avaliações negativas sobre esse álbum.

Se para muitos o álbum não foi superior ao restante da obra da MK II, ele também não era e não é merecedor de tamanha indiferença ou das críticas com que sempre teve que conviver. Quando um determinado artista na música já tem uma trajetória constituída, é quase impossível não comparar um novo trabalho com aquilo que já existe. Ainda assim, o que faz de um disco algo bom ou ruim são unica e exclusivamente as músicas contidas nele e não o fato de haver algo anterior melhor ou pior. “Who Do We Think We Are” provavelmente não é o melhor e nem o segundo melhor disco do Deep Purple, mas é composto por um conjunto de canções muito boas, se analisadas de mente aberta e sem preconceitos. Muito de sua má acolhida pode ser atribuída ao fato de que após uma sequência de discos tão memorável, a expectativa da grande maioria das pessoas era de que o próximo trabalho fosse algo perfeito, acima do bem e do mal. O interessante é que muitas bandas de relativo sucesso atravessam uma carreira inteira sem conseguir conceber um material do mesmo nível aqui observado.

Como essa história continuou, todos já sabem. Ian Gillan saiu da banda, sendo seguido pouco tempo depois pelo antigo parceiro Roger Glover. Para seus lugares, a banda contratou o então novato David Coverdale e o baixista/vocalista Glenn Hughes. Estava formada ali a MK III, outra formação que se tornaria clássica, que conceberia grandes álbuns nos anos que se seguiriam e que até hoje envolve polêmicas entre os fãs da banda, já que muita gente a considera uma formação tão boa quanto a anterior. Mas isso é conversa para uma outra ocasião.

Agora, procure dar mais uma passada pelas faixas que compõem “Who Do We Think We Are”, preste bastante atenção em cada uma delas e depois deixe a sua opinião. Será ele realmente um disco subestimado ou tem apenas o tratamento que sempre mereceu? A palavra é sua.

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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