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Muse: trilhando os passos do Queen

Se você não viveu fora do planeta Terra nos últimos 40 anos, com certeza conhece o Queen, ok? Uma das maiores bandas da história do rock, e até hoje também uma das maiores influências para diversos artistas do gênero (e fora dele). Dentre eles estão seus conterrâneos do Muse, o talentoso power trio formado por Matthew Bellamy, Chris Wolstenholme e Dominic Howard. Mas as similaridades entre os dois grupos vão muito além da origem britânica.

A começar pelos próprios nomes das bandas. Tanto Queen quanto Muse são substantivos femininos curtos, simples, fáceis de serem lembrados, e com mais de uma interpretação. Se Queen (rainha) soava provocativo no sentido de “gay”, uma citação ao visual andrógino e glam do começo da década de 1970, ao mesmo tempo remete à sensação de poder, especialmente levando-se em conta que a Inglaterra vive no regime monárquico, tendo justamente uma rainha no trono. Já Muse, além de musa, pode ser traduzido também como verbo “meditar” ou “refletir”, dando uma dica de que as composições do grupo tenderiam a fugir do convencional.

Ainda falando sobre as origens dos dois grupos, ambas as bandas foram formadas e tocavam em ambientes universitários – no caso do Queen, o quarteto estudava em faculdades como o Imperial College, Ealing Art College e Chelsea College; já no Muse, o trio passou pela Teignmouth Community College e pela Coombeshead College. Talvez isso explique muita coisa no estilo das composições e letras complexas de ambas as bandas, com inspirações literárias, cinematográficas e artísticas em geral, culminando inclusive em álbuns conceituais (“Queen II” e “The Resistance”, por exemplo, embora muitos também encaixem na categoria “A Night At The Opera”, do primeiro, e “Black Holes and Revelations, do segundo).

E ainda no início da carreira, ambos sofreram injustamente com as comparações que enfrentavam. Se o Queen nos anos 1970 era acusado por alguns críticos mal-humorados de ser uma imitação mal feita do Led Zeppelin, o Muse não passava de uma cópia mais nervosa do Radiohead para a mídia da segunda metade dos anos 1990. Em ambos os casos, a influência é inegável, mas tanto o Queen quanto o Muse logo foram desenvolvendo seu estilo pessoal, deixando para trás tais comparações.

Outro ponto comum foi o fato de não terem passado muito tempo abrindo shows para grandes bandas. Ambas seguiram o caminho tradicional de todo grupo em suas duas primeiras turnês, mas logo na terceira já eram headliners. O Queen acompanhou extensamente o Mott The Hoople (aquela de “All The Young Dudes”), já o Muse acompanhou o Red Hot Chili Peppers e o Foo Fighters. Isso sem falar na atitude “arrogante” adotada em muitas entrevistas, onde jamais negaram a vontade de “dominar o mundo”, de tornar-se a maior banda do planeta (apesar de o Queen ter sido muito mais atrevido neste quesito em seus primórdios).

Se nas entrevistas pode-se ver muito desta atitude, a autoconfiança gerada na crença desta possibilidade de vir a serem os maiores ajudou e muito ambas nos palcos. Falar sobre o domínio que Freddie Mercury e cia. exerciam sobre a plateia em seus shows é desnecessário, basta assistir a qualquer vídeo ao vivo do Queen. A presença de palco, especialmente do vocalista, atingiu níveis jamais alcançados por qualquer outro artista do gênero, conseguindo contagiar desde aqueles na grade até o último espectador no fundo do estádio. E o Muse parece trilhar o mesmo caminho: embora esteja limitado de certa maneira pela guitarra ou pelo piano, Matthew Bellamy coloca no bolso qualquer público, de qualquer tamanho – quem já assistiu a alguma apresentação ao vivo do Muse é testemunha; muitos críticos brasileiros, inclusive, chegaram a comentar que o Muse roubou a cena nos shows em que vieram como convidados do U2 aqui no Brasil.

E a diversidade musical? Não dá para se rotular nenhuma das duas bandas como pertencentes a um estilo definido, entre os tantos que a mídia costuma usar. Vejamos o Queen: sua música tem um pouco de Hard Rock, Art Rock, Heavy Metal (já ouviu “Son and Daughter” e “Stone Cold Crazy”?), um forte flerte com o pop, pitadas de rock progressivo, blues, folk, ópera, música erudita... Já o Muse incorpora elementos tão diversos como o rock alternativo, sons eletrônicos, e também tem um grande acento pop, passeando ainda pelo Hard Rock (“Stockholm Syndrome” é uma porrada na orelha), rock progressivo (“Knights of Cydonia”), pela música erudita, ópera... e por aí vai. Ou seja, ambas apostam naquilo que os fãs do rock mais simplista amam odiar: um som extremamente esmerado e trabalhado. E curiosamente, ambas têm um grande hit com forte influência de black music: em “Another One Bites The Dust”, do Queen, é impossível não se lembrar do Chic, já “Supermassive Black Hole” do Muse tem uma levada suingada e vocais em falsete totalmente à la Prince.

Se você quiser também um guitarrista que foge do trivial, não irá se desapontar. Brian May dispensa qualquer apresentação, mas para quem não sabe, vamos lá: o mestre da guitarra construiu seu próprio instrumento com a ajuda do pai ainda adolescente (sua famosa “Red Special”). Desde os primeiros álbuns, seus arranjos sempre se destacaram por fugir do lugar comum, especialmente no que diz respeito às guitarras gravadas em sobreposição ou camadas, gerando em alguns casos o que ficou conhecido como “orquestrações de guitarras”. Brian relata em entrevistas que sua inspiração veio ao assistir às sessões de gravações do Genesis, quando Steve Hackett usou do artifício na parte final de “The Musical Box”. Já Matthew Bellamy do Muse é claramente inspirado por Tom Morello, do Rage Against The Machine, especialmente no que envolve efeitos e pedais. Se não construiu seu instrumento, Matt não deixa de ser peculiar na escolha de seus instrumentos, utilizando modelos especialmente customizados e construídos para ele pelo luthier Hugh Manson, como por exemplo guitarras que emulam “pick-ups” de DJ, e uma outra “double-neck”, onde um dos braços é “fretless” (sem trastes). E ambos têm um estilo inconfundível de solar e odeiam se repetir ao vivo, normalmente improvisando um pouco em cima de suas gravações de estúdio. E Matt não esconde suas influências: vide seu solo totalmente “Brian May” em “Guiding Light” (do álbum “The Resistance”).

Por fim, ambas as bandas têm uma grande ligação com o cinema: o Queen se envolveu no ramo em diversas ocasiões, compondo a trilha sonora do tosco “Flash Gordon”, de 1980, escrevendo diversas canções para “Highlander”, em 1986, além de ter “One Vision” na trilha sonora de “Águia de Fogo”. Isso sem falar que após a morte de Freddie Mercury diversas canções da banda pipocaram em várias trilhas sonoras diferentes, como “Wayne’s World”, “O Homem da Califórnia” e até em “Super Mario Bros”. Já o Muse teve um grande catalisador em seu sucesso com a inclusão de “Supermassive Black Hole” na trilha sonora de “Crepúsculo” e, a partir de então, tornou-se figura constante na saga do vampiro Edward que fazem as adolescentes suspirarem, contribuindo com as canções “I Belong To You” e “Neutron Star Collision” nas sequências “Lua Nova” e “Eclipse”.

Não, o propósito desta matéria não é dizer que o Muse é o novo Queen. E nem muito menos comparar uma banda à outra, e nem seus músicos. Afinal ainda falta muito para o trio de Teignmouth chegar ao patamar do quarteto de Freddie Mercury. Mas que eles pretendem seguir essa trilha, não dá para negar...

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Sobre Doctor Robert

Conheceu o rock and roll ao ouvir pela primeira vez Bohemian Rhapsody, lá pelos idos de 1981/82, quando ainda pegava os discos de suas irmãs para ouvir escondido em uma vitrolinha monofônica azul. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, queria ser Gene Simmons e, algum depois, ao ver o clipe de Jump na TV, queria ser Eddie Van Halen. Hoje é apenas um bom fã de rock, que ouve qualquer coisa que se encaixe entre Beatles e Sepultura, ama sua esposa e juntos têm um cãozinho chamado Bono.

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