Prophets Of Rage: A ira como antídoto para o ódio
Resenha - Prophets Of Rage (Audio, São Paulo, 09/05/2017)
Por Fernando Yokota
Postado em 10 de maio de 2017
O PROPHETS OF RAGE fez seu primeiro show no Brasil na noite do último dia 9 em São Paulo, prefaciando sua participação na edição de 2017 Maximus Festival, no Autódromo de Interlagos. O grupo, formado pela seção instrumental do RAGE AGAINST THE MACHINE mais as lendárias vozes de B-Real do CYPRESS HILL e Chuck D do PUBLIC ENEMY e o suporte de DJ Lord, teve seu repertório orbitando em torno no catálogo do RAGE AGAINST THE MACHINE mas não deixou de fazer menção ao catálogo dos grupos dos vocalistas, seja com a banda inteira (em Fight The Power ou How I Could Just Kill a Man), algumas composições originais do grupo (The Party's Over ou a nova Unfuck The World) e até mesmo uma versão de Seven Nation Army dos WHITE STRIPES.
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Se uma hora e meia antes do início programado para a apresentação (com ingressos esgotados, segundo informação levantada no local), o local não dava pistas de que um show de rock estaria para acontecer, por volta das 21h o DJ Lord entretinha a público, a essa altura já bem maior, com um competentíssimo set que incluía clássicos do rock e soul music.
Por volta das 21h45, mais ou menos quinze minutos após o horário estimado para o início do show, a pista da Audio não era sombra da sua imagem duas horas antes. Já na primeira música, Prophets Of Rage, Tom Morello tratava de tirar o elefante político da sala ao mostrar um "Fora Temer" nas costas de sua guitarra, em letras garrafais. A pista, apinhada de gente, explodia em resposta.


Testify, do já clássico The Battle Of Los Angeles, ressalta a mais que coesa cozinha formada por Brad Wilk e Tim Commerford, formando o característico bolo sônico pulsante sobre o qual Morello pratica o seu pirotécnico freestyle guitarrístico, com direito a solo de cabo de guitarra. A surra sônica continuaria com Take The Power Back, Guerilla Radio e uma interessante versão de How I Could Just Kill A Man, sucesso do Cypress Hill.


Fãs mais ortodoxos do Rage talvez tenham sentido falta do tom de desespero da voz mais aguda de Zack de la Rocha. Nesse aspecto, B-Real (trajando um esvoaçante keffiyeh na cabeça) ficava encarregado das partes em que os registros mais altos eram necessários, com Chuck D fazendo a vez do hype man. No mais, na maioria do tempo os dois tendem a dividir o papel principal, se se a banda perde a urgência da voz de de la Rocha, ganha com o trovejante tom grave da voz de Chuck D, bem conhecida de quem foi musicalmente educado a partir do final dos anos 80. Se a banda ganha com a voz de Chuck, Fight The Power é revigorada numa versão ao vivo, com Morello reproduzindo os efeitos especiais da versão original em sua guitarra.
O meio da apresentação é marcada por um medley levado a cabo pelo DJ Lord e que inclui hits do PUBLIC ENEMY e do CYPRESS HILL, com B-Real e Chuck D descendo até a plateia para comandar a festa. O interlúdio é encerrado quando Morello toma o palco ao som do riff de Sleep Now In The Fire. O caos que toma conta da pista é amplificado ainda mais no que provavelmente foi o ápice do show, em Bullet In The Head, com um mosh pit gigantesco que centrifugou o ódio que toma conta do país e do mundo, dissipando-o em ira e suor.


Ao fim da hora e meia de apresentação, ainda houve tempo para uma composição nova (Unfuck The World), um cover (Seven Nation Army, dos WHITE STRIPES, em cujo solo JACK WHITE claramente cita Morello) e o grand finale com Bulls On Parade e Killing In The Name. A essa altura, estranhos se abraçavam, pessoas tomavam banhos de copos de cerveja arremessados ao ar e agradeciam por isso e fumígenos de origem duvidosa aromatizavam o local.
Tendo provado que dão a liga em cima do palco, em termos de carreira, o PROPHETS OF RAGE não está longe de chegar ao ponto em que deve decidir se segue pelo caminho mais fácil, o de virar uma banda-tributo de si própria, ou se trilha o árduo porém recompensante caminho da reinvenção artística. De certo, temos que em tempos de intolerância e estupidez exacerbadas, o papel exercido pela banda como catalisador de um grito de ira contra o ódio está longe de se tornar irrelevante. Dada a conjuntura mundial, ao apreciar a arte do PROPHETS OF RAGE, RAGE AGAINST MACHINE, CYPRESS HILL ou do PUBLIC ENEMY não há "meia porção": a música é indissociável da política.
(com o agradecimento à Midiorama pelo credenciamento)
Setlist:
Prophets of Rage
Testify
Take the Power Back
Guerrilla Radio
How I Could Just Kill A Man
Bombtrack
People of the Sun
Fight the Power
Medley (Hand on the Pump/Can't Truss It/Insane in the Brain/Bring the Noise/I Ain't Goin' Out Like That/Welcome to the Terrordome/Jump Around)
Sleep Now in the Fire
Bullet in the Head
The Party's Over
Know Your Enemy
Unfuck The World
Seven Nation Army
Bulls on Parade
Killing in the Name



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