Anathema: Show apenas correto e público pouco animado em SP
Resenha - Anathema (Clash Club, São Paulo, 08/02/2015)
Por Diogo Azzevedo
Postado em 16 de fevereiro de 2015
Parece que uma nuvem carregada paira sobre o Anathema sempre que a banda anuncia uma apresentação no Brasil. Na passagem anterior dos ingleses por São Paulo, em 2013, o merchandising foi extraviado; em 2006, o show foi cancelado pouco antes dos músicos subirem ao palco, devido à falta de alvará de funcionamento do local. Chega a ser impressionante, portanto, que os caras ainda incluam o país em suas turnês. E para manter a tradição (maldição?), a mais recente aparição do grupo na capital paulista – desta vez para divulgar o álbum "Distant Satellites" – foi cercada de contratempos.
Assim que o público começou a tomar as dependências da Clash Club, na região da Barra Funda, ficou claro que a casa não tinha estrutura sequer para um show de pequeno/médio porte como o que estava programado para aquela noite. A impressão é que havia muito mais do que as 800 pessoas que o estabelecimento dizia ter capacidade de receber. Apesar de não ter sido um dia tão quente, a lotação faria com que a temperatura ali tratasse logo de subir.
Previsto para as 21h (ainda que os ingressos marcassem às 20h), o show, para variar, começou com atraso – não tão grande, é verdade, quanto o da apresentação no Carioca Club, há pouco mais de um ano. A introdução já saía dos alto-falantes, aumentado a expectativa dos presentes, quando a tomada da mesa de som que ficava logo atrás da galera se soltou, cortando o áudio. Um baita mico. Em questão de minutos o problema foi resolvido, mas para quem estava ali - principalmente os que veriam a banda de Liverpool pela primeira vez - a interrupção durou uma eternidade.
Após a intro rolar novamente, desta vez até o fim, sobem ao palco os irmãos Danny (guitarra, teclado, vocal), Vincent (vocal, guitarra, teclado) e Jamie "Fabio Lione" Cavanagh (baixo), mais o portuga Daniel Cardoso (bateria). A coisa começa meio devagar, sendo o número de abertura a canção que também batiza a banda, pinçada do mais recente trabalho. Penso que esse tema foi escolhido justamente para os músicos poderem acertar os últimos detalhes do som – o que não adiantou muito, pois foram vários os empecilhos durante todo o set.
Na sequência, agora com a linda da Lee Douglas (vocal) no palco, a banda executa "The Lost Song" (partes I e II), também extraídas do último play, seguidas de "Untouchable" (partes I e II), do aclamado "Weather Systems". A partir daí, a coisa começa a desandar. Para quem presenciava o Anathema pela primeira vez, a sensação era de deslumbramento; por outro lado, os que compareceram ao show do Carioca Club tiveram a impressão de estar assistindo à mesma performance de 2013, porém com a adição das músicas novas.
Com um repertório previsível e que nem sempre funcionava tão bem quanto em estúdio, a recepção da audiência era apenas morna. Quase ninguém agitava, mas não dava para saber se era por falta de empolgação ou de espaço, já que na pista todos estavam literalmente espremidos - sem contar os que estavam mais preocupados em tirar fotos com o celular. Tudo isso - somado aos problemas técnicos - tirou Vincent do sério. Em determinado momento, ele pergunta se o público gostava da Clash, recebendo um sonoro "não" como resposta. Mais adiante, o frontman também indaga se os presentes se incomodariam caso a banda tocasse da próxima vez no Rio, o que, evidentemente, feriu o orgulho ridículo dos fãs paulistanos.
Na segunda parte do show, a resposta do público foi um pouco melhor. Após "Distant Satellites", era a vez das músicas retiradas dos trabalhos mais "antigos" (leia-se do "Alternative 4" até "A Natural Disaster"). Inegavelmente, "Deep" e "One Last Goodbye", faixas do álbum "Judgement", foram o ápice da apresentação, bem como "A Natural Disaster", do disco homônimo, que contou com uma bela atuação de Lee Douglas. Na medida do possível, Danny e Vincent se esforçavam em ser simpáticos com os brasileiros (contavam piadas, soltavam algumas frases em português, faziam ode à caipirinha, etc). Em um desses momentos "engraçadinhos", o vocalista anuncia que canção a seguir seria mais "pesada", daí Danny começa a puxar "Shine on You Crazy Diamond" (Pink Floyd); enquanto isso, os demais confabulavam, provavelmente sobre qual dancinha Lee Douglas faria no palco, já que todos sabiam que o próximo e derradeiro número seria a unânime "Fragile Dreams", do não tão unânime "Alternative 4".
Não tocaram nada do "A Fine Day To Exit", nem houve tempo para um eventual bis. As luzes logo se acenderam e os equipamentos começaram a ser desmontados e retirados rapidamente. Os alto-falantes rolavam "Twist And Shout", e Danny agitava com a plateia ao som dos conterrâneos mais famosos, enquanto Vincent cumprimentava parte dos fãs. Mais um momento descontraído, porém um final um tanto melancólico para um show tecnicamente bom, apesar das limitações da casa, mas extremamente burocrático. E suspeito que a "má vontade" da banda nesse último braço da turnê sul-americana foi um pouco reflexo da apatia de considerável parcela dos espectadores; ou alguém ainda acredita nessa falácia de que o público brasileiro é um dos melhores do mundo?
Set list:
Anathema
The Lost Song (part 1)
The Lost Song (part 2)
Untouchable (part 1)
Untouchable (part 2)
Thin Air
Ariel
The Lost Song (part 3)
The Beginning And The End
Universal
Closer
Distant Satellites
A Natural Disaster
Deep
One Last Goodbye
Shine On You Crazy Diamond
Fragile Dreams
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