Meshuggah: os pais do djent finalmente no Brasil

Resenha - Meshuggah (Carioca Clube, São Paulo, 16/11/2013)

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Por Durr Campos
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Por vezes vejo comentários de leitores do Whiplash.Net pedindo mais imparcialidade em resenhas. Não sei se os mesmos já pararam para observar o conceito de tal abordagem, mas pelo menos no jornalismo resenhar é, sim, opinativo e, portanto, passível a comentários de origem pessoal e julgamentos do resenhista sobre o que é analisado. Escrito isso, informo que o texto a seguir não terá quaisquer traços de neutralidade; ficar sobre o muro. Sou admirador confesso do MESHUGGAH e mesmo que o show ocorrido em São Paulo no último sábado, 16, não tivesse sido a perfeição que foi provavelmente haveria em minhas linhas mais elogios do que críticas. Portanto isso aqui será entre nós, “Meshuggeners”. Sigam-nos os maus.

A noite foi dedicada ao djent metal. Isso mesmo, mais um subgênero senhoras e senhores. Quem acompanha a coisa sabe que o movimento é recente e deriva do metal progressivo. A palavra em si é uma onomatopeia para o distintivo de "itself" (alto-ganho), da guitarra com distorção "palm-mute”, tão bem empregada pelo Meshuggah, pioneiro no estilo, devido o termo ter sido citado por Fredrik Thordendal, guitarrista da banda. Outro nome de grande respeito neste contexto seria o Sikth, do Reino Unido. A abertura ficou por conta dos curitibanos do THIRD EAR que em pouco menos de uma hora ferveram o palco com suas experimentações. Não os conhecia, apenas de nome, mas posso afirmar que André Sant' Anna (vocais), Anderson Ferret (baixo), Ravi (bateria), André Luis e Samuel Ebel (guitarras) ainda vão crescer bastante tamanha vontade e garra em cena. Promovendo seu EP "A New Cycle", lançado de forma independente em janeiro deste ano, o quinteto ganhou o público por interagir tão bem com ele. Teve até stage-diving de alguns dos membros. Tocaram um seleto apanhado de sua carreira com “Det är en egendomlig och fascinerande kraft”, “Off the Grid”, “I'm Leaving Now”, “The Altruist” e “Bench Coin”, não necessariamente nesta ordem.

THIRD EAR - Sites Relacionados
thirdearofficial.com
soundcloud.com/thirdearofficial
thirdear.bandcamp.com
got-djent.com/thirdear
grooveshark.com/thirdearofficial

Meshuggah, assim como meshuga, meshugge e meshugah, é uma palavra que deriva do iídiche (ou ídiche) e significa doido, maluco, insano! Quer dizer, os caras já sabiam a que vieram desde que formaram a banda em 1987 na cidade de Umeå, norte da Suécia. Donos de uma sonoridade única e extremamente bem construída harmonicamente, seus discos são peças de arte e livres de quaisquer fronteiras. Já em sua estreia “Contradictions Collapse” (1991), lançado pela Nuclear Blast, já era possível notar que não se tratava de mais uma banda de thrash metal por conta dos elementos de jazz fusion e complexas linhas de guitarra do mestre Fredrik Thordendal. Porém, foi com o segundo e seminal “Destroy Erase Improve” (1995) que o negócio aconteceu mundialmente e canções do quilate de "Future Breed Machine", "Acrid Placidity", "Vanished" e "Sublevels", por exemplo, tornaram-se referências no metal de vanguarda. A espera de uma visita ao Brasil foi longa, mas valeu a pena tamanha grandiosidade do espetáculo que pudemos observar naquele sábado chuvoso na capital paulista. Agradeçam à produtora Dark Dimensions pela ousadia.

Desde o início com “Swarm”, uma das melhores em “Koloss”, mais recente trabalho de estúdio, coladinha com outra delícia, “Combustion”, de “obZen” (2008) e a sequência em “Rational Gaze”, única tocada de “Nothing” (2002), cantada por boa parte do público, o que presenciamos não poderia ser descrito facilmente em palavras. Não se trata de uma frase em hipérbole, caro leitor, quem estava lá pode comprovar a inteligência da trinca inicial. A comunicação até ali era apenas através dos acordes sobrenaturais das guitarras de oito cordas e levadas insanas de Tomas Haake, o “Neil Peart” no grupo em se tratando de letrista. Aliás seus poemas poderiam render facilmente roteiros “meshuggeiros/birutas” no nível de um Stanley Kubrick ou Ridley Scott num âmbito mais caótico/apocalíptico. Se lhe resta dúvida, o que comentar sobre a faixa-título do já citado “obZen”? E, sim, aquela paradinha mortal foi feita com perfeição!

O hino “Lethargica” foi antecedido pelos cumprimentos do vocalista Jens Kidman. Esta composição merece o nome que tem e escancara o quão livre o Meshuggah é. Estes rapazes podem escrever a música que desejarem, sem o menor risco de soar enfadonho, desnecessário ou mal-intencionado. Parecem verbetes soltos ao vento, mas na prática isso é bem mais difícil do que parece. Os músicos deste calibre que por ventura leem isso aqui são nossos convidados a discorrer sobre, mais abaixo. “Koloss” retorna com “Do Not Look Down”, uma das coisas mais sublimes já forjadas na história da música de todos os tempos, sem medo de errar. A pergunta que me veio à cabeça foi um mimoso “que porra é esta?”.

Eu nem recuperado estava e me vem a velocíssima e linda “The Hurt that Finds You First”, detentora de uma das melhores letras de Haake. Vou até fazer uma menção: “Capitulate, you know this fight is over/ Spiritual flesh, my stomach starts to churn/ A perfected mindjack. Confirmed illusion/ Euphoric state. You gag, you choke/ Words, virus. They echo in your ears/ True bliss through bondage and oh here come the tears/ I find my joy in fear/ A soul cadaver I'm the hurt that finds you first…”. Coisa fina! Já repararam que não há um refrão sequer nas composições do Meshuggah? E quem precisa deles em meio à tamanha euforia e catarse sonora? Ao meu redor os fãs abraçavam-se, choravam e pareciam não crer no que seus cinco sentidos testemunhavam.

“I Am Colossus” é absurda! Simples assim. Não há nada ali que pudesse sair. Fico a imaginar o processo de criação deles, mas não me contento com uma devolutiva de entrevista: eu precisaria estar lá, vivenciando a “meshuggahridade” dos dias e noites os quais esses senhores dedicam quando estão a criar itens assim. E “Bleed”? Eu até ri devido à “falta de respeito” a qual ela é no melhor sentido possível. Só deu tempo de Jens soltar um “agora mostrem-nos do que são capazes” à plateia e o pandemônio estava feito. Em se tratando de, talvez, minha favorita ia até citar a letra, mas como já me utilizei do recurso no parágrafo acima é mais prudente assistirmos ao vídeo. Tomem aí antes de continuarmos nosso papo.

Outra das que me fazem sonhar em ser tele transportado ao estúdio dos suecos é “Demiurge”, também do álbum “Koloss”. Esta causa engasgos pela infraestrutura (Nota do redator: Eu precisava desta licença literária) e criatividade sem precedentes. Tê-la no set-list só comprova o cuidado minucioso com que pensam em seus concertos. E assim o é também com “New Millennium Cyanide Christ” (que título!), do excepcional “Chaosphere” (1998). Apocalipticamente genial, sua pegada meio RAP faz até mesmo os detratores do estilo ajoelharem-se. “E os samplers foram utilizados de boa?”, o caro leitor pode questionar. Pois bem, eles são o sampler! Haake é matemático, sabemos disso não é? Daí eu que pergunto: Como há espaço para tanto feeling dentro do universo aparentemente preto e branco dos metrônomos e artifícios pré-gravados? Na prática o Meshuggah consegue se livrar de muitos deles e acabar com o papo no braço mesmo. Comentei que o final de “New Millennium...” é um desrespeito de bom? Fica o registro. O final do set normal veio com a longa e progressiva “Dancers to a Discordant System”, sensacional faixa que também encerra sua morada, o disco “obZen”.

O encore foi dedicado aos incansáveis pedidos – aliás, ordens! – a plenos pulmões da audiência. Inicialmente a banda reservara “In Death - Is Life” e “In Death - Is Death”, do “Catch Thirtythree” (2005), mas como não haveria possibilidade de ignorar a galera, trocaram de última hora – e isso era possível notar quando fizeram uma mini reunião no canto direito do palco – pelo clássico “Future Breed Machine”, certamente seu hit mundial se é que posso utilizar esta palavrinha infame aqui. Perdão.

Em tempo, lá fora estava o TEST, um dos nossos maiores expoentes no grindcore, tocando embaixo de chuva e de um toldo bem menor do que sua atitude em levar um som de forma gratuita aos que saiam em puro êxtase do Carioca Clube.

Line-up Meshuggah
Jens Kidman – vocais
Fredrik Thordendal – guitarra solo, backing vocals
Tomas Haake – bateria, narrações
Mårten Hagström –guitarra-base, backing vocals
Dick Lövgren – baixo

Set-list Meshuggah
Swarm
Combustion
Rational Gaze
obZen
Lethargica
Do Not Look Down
The Hurt that Finds You First
I Am Colossus
Bleed
Demiurge
New Millennium Cyanide Christ
Dancers to a Discordant System
Encore:
Future Breed Machine

Sites relacionados
http://www.meshuggah.net/‎
facebook.com/meshuggah‎
myspace/meshuggah
twitter/meshuggah

Texto: Durr Campos
Fotos: Leandro Anhelli
http://www.anhelli.com.br

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Sobre Durr Campos

Graduado em Jornalismo, o autor já atuou em diversos segmentos de sua área, mas a paixão pela música que tanto ama sempre falou mais alto e lá foi ele se aventurar pela Europa, onde reside atualmente e possui família. Lendo seus diversos artigos, reviews e traduções publicados aqui no site, pode-se ter uma ideia do leque de estilos que fazem sua cabeça. Como costuma dizer, não vê problema algum em colocar para tocar Napalm Death, seguido de algo do New Order ou Depeche Mode, daí viajar com Deep Purple, bailar com Journey, dar um tapa na Bay Area e finalizar o dia com alguma coisa do ABBA ou Impetigo.

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