Robert Plant: uma noite inesquecível em Porto Alegre

Resenha - Robert Plant (Gigantinho, Porto Alegre, 29/10/2012)

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Por Paulo Finatto Jr.
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Para muitos, o anúncio feito pela produtora XYZ Live no dia 22 de agosto representou a realização de um sonho. O ex-LED ZEPPELIN ROBERT PLANT retornaria ao Brasil para uma sequência de sete shows. Embora tenha visitado o país em duas outras oportunidades, para tocar no saudoso Hollywood Rock nos anos noventa, a sua mais recente turnê desembarcaria pela primeira vez em cidades fora do eixo Rio-São Paulo, como Brasília, Belo Horizonte e Curitiba. Em Porto Alegre, mais de doze mil pessoas compareceram ao Gigantinho para assistir o principal show de rock do ano, atrás apenas da megatour The Wall Live, de ROGER WATERS. A noite foi inesquecível.

Fotos: Edu Defferrari/Divulgação

O show de abertura proporcionado pelo gaiteiro RENATO BORGHETTI durou cerca de trinta minutos e foi bastante saudado pelos presentes, mesmo que o estilo tradicionalista do gaúcho pouco tenha referência com o que ROBERT PLANT apresentaria pouco tempo depois. Embora a chuva forte tenha se transformado em um transtorno para parte da plateia que deixou para chegar na última hora, o ginásio localizado dentro do Complexo Beira-Rio já estava praticamente lotado antes mesmo de Borghettinho entrar em cena. As filas formadas em todos os setores andavam rápido desde o fim da tarde e deixavam claro de que tudo estava armado para evitar acidentes de percurso. Por mais que a pista “comum” e o setor da arquibancada tivesse pouquíssimo espaço para a circulação de pessoas, nada estava fora do quer era imaginado.

E foi sem muita cerimônia que ROBERT PLANT, acompanhado da banda THE SENSATIONAL SPACE SHIFTERS, entrou em cena, pontualmente às 21h30. O set-list, que iria misturar músicas do álbum “Mighy Rearranger” (2005) e covers, sem deixar de fora – obviamente – clássicos da sua ex-banda, teve início com “Tin Pan Valley”, uma das faixas mais incríveis da carreira solo do cantor britânico. Com toques de world music e riffs extremamente pesados, a música levou a plateia ao delírio, a cada momento mais animado e vibrante comandado pelo ex-LED ZEPPELIN. Embora sem o mesmo pique dos anos setenta, o comprometimento de ROBERT PLANT em cena é fantástico. Nem mesmo a acústica e mística “Another Tribe” foi capaz de tornar o show morno ou arrastado. A plateia gaúcha estava realmente na mão do vocalista e o espetáculo à altura de qualquer expectativa.

Embora ROBERT PLANT não tenha a ambição de proporcionar um espetáculo dedicado ao passado com o LED ZEPPELIN e ao rock n’ roll no seu estado mais puro, muitas músicas da sua ex-banda estavam previstas para aparecer no repertório. A faixa “Friends”, do álbum “Led Zeppelin III” (197), foi a primeira a ser executada e uma das mais ovacionadas da noite, provavelmente por isso. O estilo mais transitório da música se encaixou perfeitamente aos arranjos propostos pelo sexteto THE SENSATIONAL SPACE SHIFTERS, que é formado por Justin Adams (guitarra), Liam Tyson (guitarra), Dave Smith (baixo), John Baggott (teclado), Dave Smith (bateria) e pelo folclórico Juldeh Camara (violino africano, percussão e banjo africano). Na sequência, “Spoonful” (de HOWLIN’ WOLF) perdeu o seu aspecto blues para se transformar em uma interessante e obscura faixa, mais ou menos como “Somebody Knocking”, também retirada do disco “Mighy Rearranger” (2005).

O mais importante na recente turnê de ROBERT PLANT é se conscientizar de que o vocalista não irá repetir nenhuma performance como as que marcaram o nome do LED ZEPPELIN na história do rock n’ roll. A voz do inglês de West Bromwich não possui a mesma potência de outrora e o cantor pouco se interessa em reproduzir de maneira fiel o que criou no passado. A prova disso é o modo como “Black Dog” se aproximou do folk e da world music. Com arranjos mais arrastados e experimentais, a faixa se adequou de maneira agradável às cordas vocais já desgastadas de ROBERT PLANT. O público gaúcho entendeu o recado e não torceu o nariz. A nova fórmula da música foi recebida de maneira acalorada pelo público, que cantou junto do início ao fim. Na sequência, a belíssima “Song to the Siren” (cover de TIM BUCKLEY) deu um toque ainda mais bonito ao show e “Bron-Y-Aur Stomp” também se encaixou de maneira exemplar no trabalho diferenciado do THE SENSATIONAL SPACE SHIFTERS. A plateia acompanhou com as palmas da versão original e proporcionou aqui outro momento de verdadeiro destaque.

A preferência por um repertório acústico se desfez já a partir da próxima música. A densa “The Enchanter” elevou o show novamente ao estado mais rock n’ roll que o THE SENSATIONAL SPACE SHIFTERS consegue fazer. No entanto, ROBERT PLANT já estava satisfeito com o seu repertório próprio e dedicaria a última parte do espetáculo ao que o público queria ver e ouvir ao vivo. Em ritmo mais lento e sem os riffs inspirados de JIMMY PAGE, “Four Sticks” e “Ramble On” foram simplificadas para exigir menos da voz do ex-frontman do LED ZEPELLIN. De qualquer maneira, “Ramble On” foi outro destaque à parte. A plateia cantou junto e o refrão possui força suficiente para deixar muitos arrepiados. Na sequência, “Funny in My Mind (I Believe I’m Fixin’ to Die)” – baseado em um blues de BUKKA WHITE – precedeu outro momento grandioso. O medley que incluiu “Who Do You Love” (de BO DIDDLEY) e a clássica “Whole Lotta Love” levou praticamente todos à loucura. O refrão – mesmo mais arrastado – teve um impacto impressionante.

Na volta para o bis, provavelmente o momento mais descontraído de toda a turnê. Com a ajuda de um intérprete, ROBERT PLANT pediu para o público gaúcha cantar um “feliz aniversário” em português – assim frisado pelo vocalista – para um amigo que completava sessenta anos de idade. O pedido foi prontamente atendido. Em seguida, a belíssima “Going to California” – executada de maneira brilhante – emocionou os mais fanáticos pelo LED ZEPPELIN. O encerramento derradeiro foi com o hino “Rock n’ Roll”. Na contramão do que fez durante todo o show, aqui ROBERT PLANT não poupou a voz e evidenciou uma performance fervente. Entretanto, a única ressalva fica para o THE SENSATIONAL SPACE SHIFTERS, que poderia ter investido em um arranjo mais cru e próximo do original. Em pouco menos de duas de horas de show, ROBERT PLANT mostrou porque veio ao Brasil. O público, por outro lado, deixou claro porque foi ao espetáculo. A noite proporcionada pelo ex-LED ZEPPELIN foi incrível e se tratou de uma experiência única e indescritível somente com palavras.

Set-list:

01. Tin Pan Valley
02. Another Tribe
03. Friends (Led Zeppelin)
04. Spoonful
05. Somebody Knocking
06. Black Dog (Led Zeppelin)
07. Song to the Siren
08. Bron-Y-Aur Stomp (Led Zeppelin)
09. The Enchanter
10. Four Sticks (Led Zeppelin)
11. Ramble On (Led Zeppelin)
12. Funny in My Mind (I Believe I’m Fixin’ to Die)
13. Whole Lotta Love (Led Zeppelin)
14. Going to California (Led Zeppelin)
15. Rock n’ Roll (Led Zeppelin)

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Sobre Paulo Finatto Jr.

Reside em Porto Alegre (RS). Nascido em 1985. Depois de três anos cursando Engenharia Química, seguiu a sua verdadeira vocação, e atualmente é aluno do curso de Jornalismo. Colorado de coração, curte heavy metal desde seus onze anos e colabora com o Whiplash! desde 2000, quando tinha apenas quinze anos. Fanático por bandas como Iron Maiden, Helloween e Nightwish, hoje tem uma visão mais eclética do mundo do rock. Foi o responsável pelo extinto site de metal brasileiro, o Brazil Metal Law, e já colaborou algumas vezes com a revista Rock Brigade.

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