Maquinária: "Patton parece uma pintura surreal de terno!"
Resenha - Maquinária Festival 2009 (Chácara do Jockey, São Paulo, 07/11/2009)
Por Roger Lopes
Postado em 15 de novembro de 2009
O dilema que fustigou corações e mentes na ensolarada tarde de sábado, provavelmente faria um certo senhor Willian debruçar-se angustiado sobre seu "to be or not to be". Coincidências ou incoerências à parte, atrações dispostas em cantos diferentes do ringue levaram diversos fãs a nocaute. Ser ou não ser, Maquinaria ou Planeta Terra, eis a questão. De um lado a miscelânea de metal, psicodelismo, jazz, hardcore e funk, oriunda dos californianos DEFTONES, JANE’S ADDICTION e FAITH NO MORE. Do outro, o legado indie lisérgico oitentista do britânico Primal Scream e o noise experimental dos novaiorquinos cult "Sonic Youth", amparados pela encarnação punk do deus iguana, Mr Iggy "I Wanna Be Your Dog" Pop.
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Enquanto os esperançosos procuram infrutiferamente por algum poder não manifesto que os permita estar em locais distintos ao mesmo tempo, os mais céticos realizam sua opção da forma mais lógica possível. No melhor estilo "Duas Caras", coroa você vive, cara você morre. Lado riscado para cima, Maquinaria Festival. "Alea jacta est". Uma gargalhada sinistra parece ecoar num famoso centro de diversões do outro lado da cidade.
Os portões da Chácara do Jóquei quando se abrem mais se assemelham aos de Hades. NAÇÃO ZUMBI e SEPULTURA começam a atrair não apenas os mortos-vivos, mas também os vivos com aparência de mortos. Na sequência, DEFTONES arregimenta uma jovem legião de rainhas e condenados trajados em mantos negros. "Change (In the House of Flies)", hino vampiresco que compõe a trilha sonora de "Queen of the Damned", sequência cinematográfica da notória entrevista ao personagem sanguessuga de Anne Rice, é regida sob um sol digno de país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza. "Santa ironia", diria aquele famoso garoto prodígio.
Grandes poderes trazem enorme responsabilidade. Opa! Espera um pouco. Isso é de outra história. Não importa, poder e responsabilidade não faltam aos mutantes do JANE’S ADDICTION. Com um figurino de fazer inveja até ao Major Tom e outras actions figures camaleônicas, o Senhor Perry Lollapalooza Farrel, juntamente com os outros três fantásticos, Capitão Navarro, Super Avery e Poderoso Perkins sobem ao palco já com o olhar sereno da lua e das estrelas.
Os acordes iniciais de "Up the Beach" aliados à performance de Mr. Farrel deixam os mortais presentes em transe. "Whores", "Ain’t No Right" e" Three Days" sustentam a catarse coletiva, arrebatada pelas rajadas histriônicas de "Mountain Song". "Then She Dids" joga novamente os incautos à mercê do Banshee prateado que flutua de um lado ao outro do palco. David Navarro impenetrável em sua carapaça de gelo transforma as notas de sua guitarra em energia cósmica.
É quase covardia quando as duas pinups gueixas adentram seminuas para unir forças aos invasores alienígenas. Os incrédulos que ainda ousavam resistir se rendem de vez à abdução. É a deixa para o aguardado momento, "Been Caught Stealing" acende o pavio para a explosiva "Ocean Size". Se há algum assassino por natureza na platéia, "Ted, Just Admit It…" é um convite para que os Mickeys e Mallorys Knox da vida se contorçam sob o refrão "sex is violent".
Formas etéreas se dissipam em meio a neblina. Um silêncio hipnótico se faz presente como se o tempo parasse. Parece heresia pedir para que as estranhas criaturas voltem. Mas os deuses estão magnânimos e eles retornam com "Stop!", que ao contrário do imperativo em língua portuguesa não deixa ninguém ficar parado. Uma garota ameaça chorar se não tocarem "Jane Says". A música vem e a menina debulha-se em lágrimas. Vai entender. Antes de partir em nova missão rumo ao desconhecido e onde nenhum homem jamais esteve os humanóides ainda oferecem "Chip Away", deixando os terráqueos em estado catatônico. Começa a chover.
E antes da bonança a realidade se desfaz de vez. Como personagens recém saídos de coloridas páginas de gibis surgem os heróis. No dia mais mais claro ou na noite mais densa, Mike Patton parece uma pintura surreal de terno vermelho e guarda-chuva em mãos. A liga conhecida como FAITH NO MORE faz justiça às expectativas. A versão de "Reunited" do Peaches and Herb dá início ao show que ficaria eternamente impresso na memória. As trovoadas seguem com "From Out of Nowhere", "Be Aggressive", "Caffeine", "Evidence" e "Surprise You’re Dead!".
Tentando parecer reais os reluzentes personagens animados procuram interagir fora do mundo da ficção com uma inusitada mistura de língua portuguesa com onomatopéias. Expressões como "nós secos, vocês molhados", "pourra", "couralho", "cacete" e "palmeiras" deixa claro que estão aqui como mensageiros de algo grandioso. E a mensagem vem na forma de belas canções como "Easy" dos Commodores, e aquela cujo nome já diz tudo, "Epic", além das clássicas "Midlife Crisis" e "King For a Day" e a peculiarmente batizada "Caralho Voador".
O clímax da história não poderia ser outro senão o retorno triunfal por duas vezes desta extraordinária liga de cavalheiros, com o gentleman Mike Patton saltando das páginas da aventura para o meio da multidão, berrando o que se tornaria seu tradicional grito de guerra durante o espetáculo. "Porra, Caralho".
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