Paul Di'Anno: Ainda capaz de levantar um público como poucos
Resenha - Paul Di'Anno (London Pub, Uberlândia, 21/11/2007)
Por Ronaldo Costa
Postado em 24 de novembro de 2007
Foi uma quarta-feira de muito calor na cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Nem o anoitecer aliviaria a temperatura. Mais quente ainda ficaria o interior do London Pub, completamente lotado para mais um concerto do lendário vocalista Paul Di’Anno, em sua turnê brasileira. Faltando quase duas horas para o início da apresentação, a pista em frente ao palco já estava tomada pelos fãs, ansiosos por ver e ouvir a voz dos dois primeiros discos do Iron Maiden. E, ao final do show, o público saiu com a certeza de que valeu a pena esperar.
Para essa turnê, Paul tocou ao lado de músicos locais, do projeto chamado Diamond Dogs, que conta com integrantes das bandas Nanji e Dogma. Era pouco mais de meia-noite quando os guitarristas Marlon Morlan e Nanji, o baixista Raone Franco e o baterista Dado Romanholi subiram ao palco com "The Ides Of March", cuja melodia foi reproduzida pelo coro da platéia durante toda a sua execução. Na seqüência, já emendaram com a introdução de "Wrathchild" e Di’Anno sobe ao palco. Nem é preciso detalhar a reação do público ao ver o vocalista detonando um dos maiores clássicos do Iron Maiden. Simplesmente uma catarse. Mancando muito devido a um problema no joelho, Paul compensou sua mobilidade prejudicada com muita simpatia, uma ótima performance vocal e interagindo o tempo inteiro com a platéia.
Em seguida, o riff inicial de "Prowler" fez com que o público acompanhasse a melodia da música e sua letra de forma tão ensandecida, que o barulho foi capaz de se sobrepor ao som da banda e à voz de Di’Anno. A energia e o suor visto em todos os presentes lembravam muito aquelas imagens antigas dos primeiros shows do Maiden em clubes londrinos. Sem pausa, a banda mandou "Marshall Lokjaw", da banda Killers, que também foi muito bem recebida pelos fãs. A introdução de "Murders In The Rue Morgue" foi um dos momentos mais emocionantes do show, uma das melhores introduções já compostas pela Donzela para uma música. Reproduzida com extrema competência pela banda, a canção foi uma das que mais agitou a galera, principalmente (e obviamente) em sua parte mais rápida e pesada. É claro que a voz de Di’Anno hoje já não é a mesma de 26 anos atrás mas, nessa apresentação em especial, ele teve uma performance vocal ótima, realçada pela excelente acústica do local. Paul deixa a platéia cantar sozinha vários trechos das músicas, o que serve tanto para levantar ainda mais o público quanto para dar um alívio na garganta mas, em meio a isso tudo, várias vezes apareceram os antigos e famosos agudos.
O setlist contou na seqüência com "The Beast Arises" (do Killers) e "Children Of Madness" (do Battlezone), canções que deveriam ser ouvidas por aqueles que criticam a carreira de Paul ‘pós-Maiden’ e que os fizesse rever seus conceitos. "Remember Tomorrow" parece ser a música onde Di’Anno injeta maiores doses de emoção, o que obtém resposta não menos emocionante por parte dos fãs. "Impaler" e "Faith Healer" deram continuidade à apresentação e quando a banda executava "A Song For You", um fã achou que seria boa idéia subir ao palco e pular sobre o vocalista. Resultado: Paul, que já tinha uma lesão séria no joelho, caiu, o que fez piorar ainda mais a dor que já sentia. Visivelmente irritado e mancando ainda mais, o cantor se retirou do palco, apoiado em membros de sua equipe, e a banda sequer conseguiu terminar a música. Cabe aqui uma observação: é óbvio que muitos fãs se emocionam ao ver um personagem lendário do metal como Di’Anno, mas deve existir um limite entre a idolatria e o bom senso. Uma outra pessoa já havia subido ao palco (algo que é sempre passível de críticas), mas, ao invés de se jogar sobre Paul, limitou-se apenas a pegar na mão do vocalista, que foi extremamente simpático e deu um abraço no referido fã. Por muito pouco, devido a uma atitude como essa, o show poderia ter sido encerrado e tanto a banda quanto todos os presentes teriam sido prejudicados. No entanto, de forma profissional, Di’Anno retornou ao palco pouco depois, esbanjando simpatia, sorrindo para a platéia, mas claramente demonstrando dor.
Só que quando voltou, foi pra arrebentar. Após um breve discurso ‘anti-Bush’, emendou "Killers", "Phantom Of The Opera" (o ponto mais alto do show, numa atuação competentíssima da banda e com os dois guitarristas reproduzindo com perfeição toda a música) e "Running Free". Di’Anno então despediu-se do público, falando que "precisava ir a um hospital". Pouco depois, a banda retorna para mais uma excelente performance, com a clássica instrumental "Transylvania". Paul retorna para o bis, com uma versão de "Blitzkrieg Bop", do Ramones, que também levantou o público. Em seguida, uma ótima versão para "Sanctuary", sobretudo pelas excepcionais linhas vocais de Di’Anno. No fim, uma grande e grata surpresa para a platéia, pois a banda toca "Iron Maiden", a música mais tocada pelo Maiden (a banda) em sua história, e que já não fazia parte do setlist dos shows de Paul há um bom tempo. Inclusive, não vinha sendo tocada nem mesmo nessa atual turnê.
O saldo disso tudo foi uma ótima apresentação, em um local muito bom e bem organizado, onde vários fãs, de várias idades, tiveram a chance de conferir de perto o talento de Paul, ainda hoje um bom vocalista, uma figura extremamente simpática em cima de um palco e com um carisma absurdo, acompanhado por uma banda tecnicamente muito competente e com um repertório empolgante. O tempo e os excessos de toda uma vida cobram o seu preço, mas o principal da música, sobretudo em um gênero como o heavy metal, é a emoção e energia que ela consegue despertar em cada um. E isso, inegavelmente, Di’Anno sabe fazer e bem.
Agradecimentos:
- London Pub
- Leandro Garcia
- Nanji
http://www.myspace.com/diamonddogsband
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