Rush: Quando foi que a banda se tornou legal?

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Por Doctor Robert
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Rush, uma banda diferenciada. Um Power Trio (assim mesmo, com maiúsculas) que te faz pensar como é que apenas três caras conseguem se desdobrar em seus instrumentos e fazer aquilo tudo que você ouve... Uma banda com uma das legiões de fãs mais fiéis da história do rock. Execrada por muitos, respeitada por outros tantos, inclusive por gente que já torceu o nariz por muito tempo ao trio. Muitos que taxavam a banda de fazer "música para músicos" ou "para um bando de fãs nerds", hoje se rendem ao maior expoente da música canadense. Aí fica a pergunta, lançada por Dave Grohl, do Foo Fighters, quando da indução do trio ao Hall da Fama do Rock: "Quando diabos foi que o Rush se tornou legal?".

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O Rush é uma banda tão peculiar que preferiu fugir do marketing fácil de realizar uma turnê para comemorar seus 40 anos em 2014, alegando já ter feito algo parecido dez anos atrás, quando inclusive foi lançado o DVD "R30" - "Vamos deixar para comemorar os 41 ou 42 anos", disse o sempre bem humorado Alex Lifeson. E, na verdade, os 40 anos de Rush teriam que ser comemorados em 2008, já que a banda foi formada pelos amigos Gary Lee Weinrib e Aleksandar Zivojinović (ou, se você preferir, Geddy Lee e Alex Lifeson) em Willowdale (nos arredores de Toronto) em 1968. Na verdade, 2014 marca 40 anos do lançamento do primeiro do primeiro LP da banda. Ou ainda, podem ser comemorados os 40 anos da formação clássica-atual-eterna, pois naquele ano Neil Peart substituiria o baterista anterior, John Rutsey, na turnê do primeiro álbum.

A história do trio, incomum desde o começo, começou mais ou menos assim: Geddy e Alex, amigos de colégio, formaram o Rush em 1968, ainda garotos com 15 anos de idade. Após diversas mudanças em sua formação, firmaram-se como um trio com a chegada do baterista John Rutsey em 1971. Passaram a tocar bastante na região de Toronto e logo foram formando um núcleo de seguidores. Decidiram se profissionalizar e contrataram um empresário (Ray Danniels, que representa o trio até hoje). Em 1973 lançam um compacto de forma independente (com as músicas "Not Fade Away", cover de Buddy Holly, e "You Can't Fight It"). Um ano depois, em março de 1974, lançavam (também de forma independente) seu primeiro álbum, que trazia um som calcado no hard blues de nomes como Cream e Blue Cheer, com uns bons toques de Led Zeppelin, porém demonstrando desde já muita personalidade.

"Rush", o disco, caiu nas graças de uma rádio rock chamada WMMS, de Cleveland, Ohio (EUA). "Working Man" começou a ser executada regularmente, o que chamou a atenção da gravadora Mercury, que não só os contratou como fez questão de relançar o álbum, e agendou uma turnê pelo país, inclusive abrindo alguns shows para nomes como Uriah Heep, Manfred Mann e Kiss - Geddy Lee admite que na turnê com o Kiss, as duas bandas aprenderam muito juntas e que nunca se esquece do senso de trazer o melhor espetáculo possível para os fãs que o quarteto mascarado já tinha desde então.

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O baterista John Rutsey sofria de diabetes e a vida destemperada na estrada começou a lhe afetar gravemente a saúde, o que culminou com sua saída e a entrada do "novato" (como é chamado até hoje) Neil Peart, em julho de 1974. Inspirado por nomes como Buddy Rich, Gene Kupra, Keith Moon, John Bonham e Carl Palmer, o virtuoso Peart trouxe uma nova roupagem para o som da banda, casando perfeitamente com o instrumental trabalhado das cordas de Lee e Lifeson, iniciando uma evolução gradativa que levaria o trio a ser um dos mais aclamados do rock progressivo - apenas um dos rótulos aos quais o Rush teve de se acostumar ao longo dos anos. Assim como o a técnica e a qualidade musical do trio, seu sucesso aumentava exponencialmente com o passar dos anos.

Outra particularidade quanto ao Rush é o fato de que as letras são escritas pelo baterista. Neil Peart, aficionado confesso em literatura, tão logo entrou para o grupo assumiu a responsabilidade para si e trouxe suas influências para o universo do trio, escrevendo letras complexas e muitas vezes de difícil compreensão. Em suas diversas fases, as canções do grupo já abordaram os temas mais diversos: personagens literários, mitologia, filosofia, humor, ficção científica, viagens, preconceito, tecnologia, cotidiano, ecologia... Tudo que é jogado no caldeirão do trio parece se encaixar perfeitamente!

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Analisando friamente, a fórmula parece um tanto quanto estranha para uma banda de sucesso: três músicos virtuosos, compondo canções que fogem do lugar comum, com letras complicadas... Some a isto o fato de que nenhum dos três tenha um visual atraente (muito pelo contrário, para quem já apareceu nos encartes e contracapas usando quimonos, mullets e etc.). Sem falar que o pobre Geddy Lee sempre foi tão achincalhado impiedosamente quanto aos seus vocais... E, além de tudo, nunca foram queridinhos dos críticos ou nunca tiveram superexposição na mídia, seja positiva ou negativa (quantos escândalos você se lembra de ter lido sobre o Rush?). E então você pega os dados da RIAA (Associação da Indústria de Gravação da América) e vê que o Rush é o terceiro colocado nas estatísticas de vendas de álbuns consecutivos de ouro ou platina por uma banda de rock, atrás apenas dos Beatles e dos Rolling Stones... Como se explica isso?

A resposta talvez esteja na palavra fidelidade. Primeiramente a de princípios: o fato de não se considerarem estrelas, serem avessos a badalações e agirem como pessoas comuns, o que transparece a cada entrevista - Neil Peart, tímido confesso, sempre diz que seu maior pesadelo depois da fama passou a ser tocar em Toronto, terra natal do trio, onde sempre aparecem pessoas que eles nunca viram agindo como velhos amigos, querendo favores, visitas aos camarins, ingressos, e etc.

Outro tipo de fidelidade é a da base de fãs fiéis, que foi cuidadosamente construída desde o seu início, e, o mais importante, respeitada com igual fidelidade pelo trio até hoje. Não podemos também nos esquecer da fidelidade sonora: o Rush sempre fez o seu som, do modo que quis, não se rendendo a modismos passageiros - sempre soube incorporar novos elementos ao seu estilo sem se vender, como pode ser facilmente percebido com o estilo Prog da década de 1970, o New Wave e os teclados nos anos 1980 e as guitarras cruas e sujas nos anos 1990. Aliado a isso tudo, existe a fidelidade entre eles e os que os cercam em seu trabalho: o empresário Ray Danniels ainda é o mesmo desde os primórdios, os produtores de seus álbuns (Terry Brown, Peter Collins, Nick Raskulinecz) costumam trabalhar com o trio por anos consecutivos, sem falar na equipe técnica, roadies e tudo mais...

Nada, porém, parece ser maior que a fidelidade entre si, a cumplicidade e união do trio. Lee e Lifeson já eram melhores amigos um do outro desde garotos, e assim permanecem até hoje. Peart foi acolhido da mesma maneira desde o início. Cada um sabe respeitar o tempo e os limites do parceiro, como qualquer relacionamento pessoal deve ser. Prova maior foi quando o baterista decidiu abandonar a música após perder em um curto intervalo de tempo sua filha e sua esposa, entre 1997 e 1998. Qualquer outra banda traria um substituto para o seu lugar para manter a máquina rodando e capitalizando, o que não foi o caso do Rush. Se Neil Peart preferiu abandonar as baquetas e sair com sua motocicleta pelo mundo para exorcizar seus demônios, Lee e Lifeson prontamente colocaram a banda em stand-by, mesmo sem a certeza de que um dia o baterista voltaria...

Concluindo, não dá pra se saber ao certo se há uma resposta para a pergunta feita no início do texto, já que para nós, os fãs, o Rush sempre foi legal - para muitos, aliás, uma banda acima do bem e do mal, a melhor que jamais existiu. Talvez simplesmente o fato de eles serem diferentes em tudo do que se costuma ler-ver-ouvir a respeito de bandas de rock seja uma grande chave para isso... E se o trio vai comemorar os seus ditos 40 anos à sua maneira, façamos nós o mesmo. A trilha sonora com certeza vai ser da melhor qualidade, não importa a fase do trio que você escolher...

Vida longa ao Rush! (por aqui, ao som de "By-Tor and the Snow Dog"...)




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Sobre Doctor Robert

Conheceu o rock and roll ao ouvir pela primeira vez Bohemian Rhapsody, lá pelos idos de 1981/82, quando ainda pegava os discos de suas irmãs para ouvir escondido em uma vitrolinha monofônica azul. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, queria ser Gene Simmons e, algum depois, ao ver o clipe de Jump na TV, queria ser Eddie Van Halen. Hoje é apenas um bom fã de rock, que ouve qualquer coisa que se encaixe entre Beatles e Sepultura, ama sua esposa e juntos têm um cãozinho chamado Bono.

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