Felipe Machado: O primeiro Monsters of Rock a gente nunca esquece
Por Felipe Machado
Postado em 05 de setembro de 2013
Quando eu era adolescente, em 1984, fazia parte de uma turma enorme de cabeludos fanáticos por Rock & Roll. Entre nossas atividades principais, costumávamos: ouvir rock, conversar sobre rock, tocar rock, ver vídeos de rock, comprar discos de rock, ir a shows de rock… bom, você entendeu.
Publicado originalmente no blog Palavras de Homem
http://www.palavradehomem.com.br
Gostávamos tanto que vários integrantes dessa turma acabaram virando músicos profissionais ou profissionais ligados ao rock alguns anos depois. Eu, Andre Matos, Pit Passarell e Yves Passarell formamos o Viper; Marcos Kleine é guitarrista do Ultraje a Rigor; Eduardo Simões mudou para Belo Horizonte e tocou no Chakal; Nando Machado formou o Exhort e hoje, com Daniel Dystyler e Rafael Masini, montaram a produtora/selo/podcast Wikimetal. E continuamos ouvindo as mesmas coisas (e outras, claro) até hoje.
É bom deixar claro que era muito difícil conseguir vídeos de rock, principalmente de heavy metal. A solução era apelar para fitas de vídeo piratas ou ir a algumas das sessões underground de cinemas como o Rock Show e o Carbono 14. Chamá-los de cinema, inclusive, seria uma ofensa aos cinemas: eram salas com projetores de vídeo de péssima qualidade e áudio pior ainda. Ar condicionado? Um luxo impensável na época. Portanto, alguém comprava uma fita de vídeo nos Estados Unidos e emprestava para os produtores do Rock Show e Carbono 14, que cobravam uma graninha e exibiam para adolescentes que não se importavam em ficar amontoados uns sobre os outros, cantando, batendo palmas, como se aquilo fosse um show de verdade. Não era – mas a mágica estava ali.
O ponto alto dessas tardes eram os festivais: só assim a gente conseguia ver várias bandas na mesma sessão: Woodstock, US Festival, Monsters of Rock, aquilo era um sonho. No mesmo palco, bandas como Ozzy, AC/DC e Scorpions nos transportavam para um mundo visual que existia até então apenas nos nossos ouvidos. Podíamos ver nossos ídolos se mexendo, agitando a cabeça, ‘headbangeando’ como a gente. Em meio a adolescentes suados e empolgados como se estivessem em um show de verdade, a vida acontecia.
Dez anos depois.
Depois de duas turnês pela Europa e uma pelo Japão, o Viper foi convidado para gravar um disco em Los Angeles, Califórnia. Passamos quase dois meses em Hollywood, dividindo um complexo de estúdios com bandas como White Zombie e Body Count. Gravamos ‘Coma Rage’ com produção de Bill Metoyer, que havia trabalhado com Slayer e Testament, entre outros. O resultado foi o disco mais pesado da nossa carreira (e aqui cabe um parênteses – hoje eu acho que o disco e rápido até demais… ).
Tudo isso para contar que estávamos no estúdio quando nos liga o Jerome Vonk, na época o presidente da Roadrunner no Brasil, e nos conta a novidade: o Viper foi convidado para tocar na primeira edição do Monsters of Rock no Brasil! "Peraí, como é que é?" É isso mesmo!
O show seria no dia 27 de agosto de 1994, por isso fomos olhar o cronograma das gravações e descobrimos que acabaria no dia… 25 de agosto! Ufa! Viajamos no dia 26 e chegamos ao Brasil no dia do show, de manhã. Lembro que pegamos um táxi direto para a coletiva do festival e conversamos com jornalistas e amigos quase dormindo. Enquanto isso, os roadies já levavam o equipamento para o Estádio do Pacaembu, para onde fomos passar o som. Tudo isso sem dormir. Mas quem queria dormir quando ia tocar algumas horas depois no maior festival de heavy metal do mundo?
Foi aí que nos confirmaram todas as bandas do line-up: os brasileiros Angra (com o Andre Matos nos vocais, quem diria que o tempo iria nos unir novamente…), Dr. Sin e Raimundos; os gringos Suicidal Tendencies, Slayer, Black Sabbath (com Tony Martin no vocal) e Kiss. E o Viper no meio dessa galera sensacional. Que honra.
Foi uma das melhores apresentações da nossa carreira. Não preciso nem falar muito, o show passou dezenas de vezes na MTV e hoje está inteiro no YouTube. Já havíamos tocado para grandes multidões antes, na abertura do Metallica no Estádio do Palmeiras e na abertura do Black Sabbath, ao ar livre, no Ibirapuera. Mas ali a gente estava tocando no Monsters of Rock, o festival com que sonhávamos quando éramos garotos. Se estávamos ali era porque também éramos, de certa forma, ‘monstros do rock’, mesmo imaginando que éramos apenas ‘monstrinhos’ perto de gigantes como Black Sabbath e Kiss. Naquela noite eu cheguei em casa e estava tão cansado que não cheguei a sonhar. Não precisava.
Outra coisa que pode parecer besteira, mas que foi muito marcante, era que estávamos tocando para 30 mil pessoas no Estádio do Pacaembu, bem pertinho do bairro onde crescemos, Higienópolis. A distância geográfica entre um lugar e outro podia ser pequena, mas nada mais distante do que os cabeludos que estavam no palco cantando ‘Rebel Maniac’ e os garotos que, pertinho dali, dez anos antes, se reuniam para ouvir rock, conversar sobre rock, tocar rock, ver vídeos de rock, comprar discos de rock, ir a shows de rock…
O festival aconteceu mais alguns anos e depois parou. Fico feliz em saber que os monstros voltaram ao Brasil!
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