Rocka Rolla: Por que a MTV trata você como um imbecil?

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Por Ricardo Seelig, Fonte: Collector's Room
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O anúncio de que o personagem Detonator, criado pelo humorista Bruno Sutter, iria apresentar um programa chamado Rock Rolla (não por acaso, o título do primeiro disco do Judas Priest) na MTV, dedicado totalmente ao heavy metal, foi saudado com empolgação por uma parcela da mídia especializada e dos fãs do estilo, como se a emissora enfim fosse tratar o gênero com o respeito e a atenção que ele merece. É claro que isso não aconteceu.

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Rocka Rolla é um programa fraco, de humor duvidoso, apresentado por um humorista cuja única piada já perdeu a graça há uns cinco anos, no mínimo. "Ah, mas o Bruno é fã de heavy metal, ele já teve até uma banda". Pior ainda, porque hoje a sua aparição só serve para propagar uma imagem totalmente equivocada, e ultrapassada, sobre o fã de música pesada.

Antes que alguém diga que não se importa com nada disso, respondo que você está errado e deveria se importar, e muito. Afinal, é justamente esse estereótipo transmitido em rede nacional que chega até a maioria das pessoas que não consomem e não fazem parte do mundo do heavy metal. Essa tiração de sarro com a sua cara contribui de maneira decisiva em como o headbanger é visto, entendido e percebido pela imensa maioria da população brasileira.

Eles acham que nós somos violentos, burros, imbecis, desprovidos de cérebro. Eu não sou assim. Eles pensam que amamos vestir calças coladas e andar sem camisa mostrando o peito cabeludo, como se fôssemos homens das cavernas perdidos em pleno século XXI. Eu nunca fui assim. Eles pensam que o metal se resume a vozes agudas cantadas a plenos pulmões por vocalistas castrados e letras que falam sobre conquistas épicas, dragões e espadas. Há muito tempo o metal explora uma variedade enorme de temas em suas letras, falando a língua atual de um público que não para de crescer em todo o mundo.

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Vale a pena, nessa história toda, fazer um paralelo com o rap. Se o gênero há anos possui um programa dedicado a ele na grade da MTV, onde o estilo não só é tratado com respeito e seriedade, mas apresentado por gente que entende do que está falando, porque o heavy metal também não? "Ah, o público de heavy metal é muito menor que o do rap". Não, não é não. O Brasil tem um público imenso totalmente ligado e apaixonado pelo metal. E mais: esse público é extremamente fiel, e continua não apenas comprando CDs e DVDs originais de suas bandas favoritas, como cultua o colecionismo e faz questão de adquirir os mais variados itens para os seus acervos.

O heavy metal é muito mais do que um gênero musical. O metal é um fenômeno cultural, que funciona como elo de ligação entre indivíduos de classes sociais diferentes nos mais variados países, unindo pessoas de todos os continentes. Isso foi retratado de forma brilhante pelo diretor e antropólogo canadense Sam Dunn nos documentários "Metal: A Headbanger's Journey" e "Global Metal", que estão aí para quem quiser ver.

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O heavy metal não é um estilo musical consumido apenas por adolescentes em busca de afirmação social. O fã de metal costuma se manter fiel ao estilo durante toda a sua vida. Eu tenho quase 40 anos. Ao longo da minha história musical, a minha curiosidade me fez entrar em contato com os mais variados estilos, do jazz ao funk, do blues a MPB. Porém, a única constante, o meu eterno porto seguro quando o assunto é música, sempre foi o heavy metal. Eu, como você, não sou burro. Eu não sou ignorante, não sou tapado, enxergo muito além do meu umbigo e sou capaz de falar sobre diversos assuntos. Eu não sou um acéfalo como o personagem Detonator acredita. Sou instruído, tenho curso superior, sou pós-graduado na minha área e ocupo uma posição de chefia e liderança em minha profissão. E isso não acontece só comigo. Tenho amigos médicos, engenheiros, advogados, jornalistas, professores, enfim, pessoas com as mais variadas atividades que, assim como eu, são não apenas fãs apaixonados, mas, acima de tudo, consumidores vorazes de heavy metal.

Eu, os meus amigos e, tenho certeza, você que está lendo esse texto também, não nos vemos na figura deturpada e preconceituosa de Detonator. Aquilo é uma piada sem graça, que presta um desserviço enorme para a sociedade, vendendo uma visão burra e ultrapassada sobre os headbangers.

Vou até mais fundo: o heavy metal não precisa da MTV, mas a MTV precisa do heavy metal. O metal, que nunca foi uma música amigável e produzida para o consumo em massa, criou, ao longo da sua história, os seus próprios meios de divulgação, uma ampla rede de mídia que conta a história do estilo de forma independente, à margem dos grandes veículos. Isso acontece em todo o mundo, e ficou ainda mais forte com o surgimento da internet. O heavy metal teve um papel fundamental na popularização da MTV em seus primeiros anos, porque foi através dos clipes do estilo e dos fãs apaixonados pelo som pesado que a emissora se firmou nos Estados Unidos e provou ser uma ideia viável comercialmente. Hoje, com o mercado fonográfico vivendo uma nova realidade, onde a mídia física perde cada vez mais valor para os downloads e o mundo virtual, o suporte da MTV a um gênero é um fator muito menos importante do que já foi um dia, ainda mais quando falamos de um estilo com as características particulares do heavy metal.

O Rocka Rolla é um engodo, uma produção de extremo mal gosto, ultrapassada e sem sentido. Mais do que isso: a figura do Detonator é uma ofensa, um insulto, a quem ouve e consome heavy metal. Eu não sou igual a ele, e você também não é. Eu não me enxergo naquele indivíduo escroto, e tenho certeza de que você também não. E essa opinião não é a de um cara bitolado que parou no tempo e quer, a todo custo, retomar os "mágicos" anos oitenta, muito pelo contrário. Essa opinião é a de um cara que percebe o estilo mais forte do que nunca, se renovando e se reinventando em inúmeras variações, cada vez mais extremas e apaixonantes. É isso que a MTV precisa entender: o heavy metal está muito longe daquilo que a emissora pensa que o estilo é.

Eu não sou um imbecil. Já em relação a quem comanda a MTV, tenho lá as minhas dúvidas.




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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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