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O rock progressivo e o punk

Por Gustavo dos Santos
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Antes de qualquer coisa, cabe esclarecer primeiramente o papel do rock na segunda metade do século XX e, em segundo lugar, de uma de suas ramificações, o rock progressivo ou prog rock, prog para os íntimos.

Desde o seu surgimento, por volta de 1955, nos EUA, o rock esteve na frente da maior parte do acontecimentos considerados perigosos e era potencialmente ameaçador para os detentores do poder no mundo ocidental. A mudança dos costumes, revolução sexual, lutas pelos direitos dos negros e dos homossexuais, tudo isso teve como trilha sonora o rock, que no final dos anos 1960 vivia o seu auge.

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Acontece que por volta de 1970 o chamado sonho hippie desabou debaixo de muita pancada e tendo como pano de fundo a morte de um negro assassinado por um membro de uma gangue de motoqueiros fascistas no festival de Altamont. Nesse momento chegamos ao ponto em que vou expor o segundo esclarecimento desse artigo.

O rock progressivo já existia em 1970. Tinha sido uma consequência natural da psicodelia, movimento surgido por volta de 1967 que advogava a expansão da mente por meio de "aditivos químicos" e que foi reponsável pelo surgimento de um estilo do rock que primava pela experimentação sonora a qual acabou dando origem ao já citado prog rock no momento em que bandas como KING CRIMSON e PINK FLOYD começaram a lançar álbuns com músicas de 20 minutos ou mais.

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Na época, esse estilo era aclamado pela crítica e pelo público, ou parte dele, até que no meio da década surge o punk rock, com suas músicas de três minutos com nenhuma técnica e se sustentando apenas com sua ideologia esquerdista de araque e endeusado por críticos, como a raposa chamada Lester Bangs (apesar de ele ter de desiludido rápido) e todos os seus filhotes (estes ainda se iludem) que estão por aí até hoje, inclusive no Brasil.

Estas pessoas costumam dizer que o rock progressivo era uma música escapista, que ia contra à "estética do pop" onde, para ser bem claro, quanto pior, melhor. Além disso, agora chegamos ao assunto principal deste artigo, diziam (e ainda dizem) que o prog rock era elitista e que o punk trouxe a música de volta ao povo, pois o rock estava cada vez mais distante dele. Como se isso não fosse bastante, dizem também que o rock progressivo transformava artistas em deuses e afastava o público do artista.

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Bem, o prog não é totalmente inocente de algumas dessas acusações. Fomentou o endeusamento de ídolos, assim como o próprio punk. Ou Sid Vicious, o baixista do SEX PISTOLS não é um ídolo? Quanto ao afastamento do artista, até mesmo Roger Waters, baixista do PINK FLOYD, ícone do rock progressivo, diz o mesmo. E o punk também pecou nesse aspecto, pois os músicos dessa forma musical nunca evitaram em fazer shows em grandes salas de concertos e, em alguns casos, até mesmo em estádios. Para piorar, os já citados SEX PISTOLS chegaram a fazer apresentações em shopping centers, o que os aproximavam do público, porém expunha o paradoxo que era músicos supostamente esquerdistas e antissistema se apresentando nessas catedrais do capitalismo.

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O escapismo estava presente em músicas de bandas progressivas como o YES, porém, músicas de muita gente bem-quista pela esquerda, como MERCEDES SOSA e MILTON NASCIMENTO que foram feitas quando ainda estavam no auge, não tinham nada de politizadas (alguém poderia me dizer qual é a mensagem política da música "Cravo e Canela" do álbum "Clube da Esquina"?), o que nada macula a carreira deles, pois eram artistas que expunham seus pensamentos ocasionalmente, não líderes revolucionários. Afinal, Marx quando quis criticar o capitalismo profundamente, escreveu um livro, não compôs uma música para um grande editor de partituras da Alemanha do século XIX, quase que equivalentes às grandes gravadoras do século XX.

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Além disso, músicas como "The Gates of Delirium" do YES, que fazia uma crítica à guerra, ou "21st Schizoid Man" do KING CRIMSON, denunciando a loucura dos tempos modernos, não eram nem um pouco "alienadas", ao contrário de, digamos, "Pet Sematary" dos RAMONES que falava da importantíssima preocupação dos membros do grupo serem enterrados em um cemitério de animais.

Quanto à questão da "estética pop", isso só mostra a caretice disfarçada de alguns críticos. ELES querem transformar o rock em algo típico de adolescentes que mal sabem tocar, longe do mundo dos adultos, tornando-o mais inofensivo. Acontece que o rock progressivo, quando nos proporcionava uma cena como uma banda como o EMERSON, LAKE AND PALMER tocando uma peça do compositor erudito MUSSORGISKY, acabava por ridicularizar os clássicos ao tocar em alto volume e adaptar letras a músicas consideradas quase que sagradas por certos músicos de orquestras. Imaginem aquele maestro bem mal-humorado e elitista ouvindo MUSSORGISKY sendo demolido por três cabeludos ingleses e como cereja no bolo, um deles passando um módulo de teclado Moog por entre as pernas durante a execução de "O velho castelo", uma das partes da suíte "Quadros de uma exposição"? Existe algo mais esquerdista do que pegar uma obra burguesa (mas de qualidade inegável) e transformá-la em algo transgressor?

Esses filhotes de Lester Bangs esquecem que tudo o que o progressivo fez tinha origens na psicodelia, tão amada por quase todos eles, que tinha como característica misturar tudo o que desse na veneta ao rock, derrubando barreiras entre estilos e sem qualquer apego a nenhuma amarra, inclusive ao tal dos três acordes, muito diferente do punk, que em atitude muito autoritária, tratava como traidor do movimento quem tocava uma música um pouquinho mais intrincada.

Para terminar, o punk não trouxe a música de volta ao povo. Ela continuou na mão dos mesmos donos de gravadoras que viram em bandas como SEX PISTOLS e RAMONES e cantores como ELVIS COSTELLO (que gravou recentemente alguns álbuns de música clássica, bem piores e mais elitistas do que qualquer coisa que o tecladista do YES, RICK WAKEMAN, tenha feito em sua pior fase) uma grande oportunidade de ganhar muito dinheiro facilmente em uma época de crise econômica.

O rock progressivo tem vários aspectos questionáveis, porém aqueles que atiram pedras contra ele costumam ter seus podres também. Talvez seja hora de reconhecer que estas bandas dos anos 70, que influenciaram muitos artistas de diferentes estilos, como por exemplo, MILTON, LÔ BORGES e todos os músicos DO CLUBE DA ESQUINA, fizeram música de qualidade, bem feita e bem trabalhada. Não quero dizer que a simplicidade é ruim e que apenas a sofisticação é boa, até porque muitas bandas progressivas fizeram músicas bem simples (ouçam "One of These Days" do PINK FLOYD), mas obrigar a todos os artistas a fazerem música de três acordes para não serem atacados é algo no mínimo questionável.

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Flavio Maranhao
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