Heavy metal: radicalismo ou preconceito?

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Por Ronaldo Costa
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Já não é de hoje que o rock tem sua imagem definitivamente ligada à rebeldia, à contestação e à fuga do convencional. Talvez, por isso, tenha ultrapassado as fronteiras da música, tornando-se não apenas mais uma faceta dessa forma de arte mas também um fenômeno cultural e, para muitos, um estilo de vida, o qual despertou a adoração de tantos e, por outro lado, a desconfiança e antipatia de alguns setores mais conservadores da sociedade. Dentre as várias vertentes do rock, uma em especial consegue provocar sentimentos de amor e ódio em proporções iguais e gigantescas. É capaz de chocar e causar indignação em muitos, ao mesmo tempo em que angaria legiões de devotos. Este é o Heavy Metal.

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A grande maioria da população em geral tem uma visão amplamente distorcida do heavy metal, que foi mostrada e solidificada através de anos de preconceito e informações errôneas ou incompletas divulgadas pela dita “grande mídia”. Além disso, alguns dos admiradores e representantes do estilo, que não entenderam a sua real essência, jamais se esforçaram em tentar modificar essa imagem e, pelo contrário, até reforçaram no imaginário popular, com atitudes condenáveis, todas as noções deturpadas que se tem sobre os headbangers.

Quem tem ou teve contato próximo com o heavy e não se deixou levar por radicalismos excessivos sabe que a maior parte do que se mostra na mídia não especializada está bem longe da realidade sobre essa vertente do rock. Os chamados ‘metaleiros’ (termo horrível, na minha opinião) sempre aparecem como vilões em novelas e filmes ou então como indivíduos de pouca educação e péssimos modos. Há os que são mostrados como pessoas, digamos, limitadas intelectualmente ou, ainda, como arruaceiros, marginais e violentos. Quem não se lembra, quando da morte de Dimebag Darrel, do lamentável comentário do sr. Arnaldo Jabor sobre o heavy metal e seus apreciadores? Muitos, inclusive fãs de outros estilos dentro do rock, recorrem ao argumento de que os bangers são todos alienados, que metal é som de criança e adolescente, etc, etc, etc. Pois bem, o que há realmente de verdade sobre esses “monstros sociais”, sobre essas “almas perdidas”?

A maior parte dos aficcionados pelo gênero começa a ouvir e a gostar de heavy metal bem jovens, numa época onde ainda não foram contaminados com a massiva propaganda de idéias erradas e pré-concebidas sobre o estilo, que talvez seja um dos mais sinceros da música. O fã do rock pesado não apenas aprecia as músicas, ele vive para elas, toma o heavy como uma extensão de sua vida. É fiel, não se preocupa com modismos ou tendências, ao contrário, tende a repudiá-las. No entanto, essa temática aparentemente rebelde e desafiadora por vezes acaba sendo mal interpretada por alguns de seus próprios seguidores. Existem os que acabam por pensar que, para ser um headbanger, há a necessidade de parecer mau, de ser sujo, de se embriagar diariamente e dar vexame em locais públicos, de maldizer tudo aquilo que não está no contexto do metal. Com isso, a inconseqüência de alguns acaba denegrindo a imagem de todo um coletivo que apresenta uma característica em comum: a de gostar do mesmo tipo de música. Só que chega uma época na trajetória de qualquer um, onde o indivíduo é apresentado às responsabilidades da vida e, querendo ou não, é obrigado a perceber que algumas mudanças de comportamento são necessárias para que se possa sobreviver.

A questão é que não se pode, de forma nenhuma, generalizar qualquer situação. Existe um outro lado da história, que é composto por um enorme contingente de pessoas que buscam no metal uma forma de diversão, de entretenimento e de vida, sem ter a necessidade de fugir do convívio social e sem perder o respeito por aquilo que é exterior ao estilo. Coisas como o tipo de vestimenta, o tamanho dos cabelos e outras que formaram o estereótipo do headbanger jamais deveriam ser usadas como meio de se avaliar a real índole de um ser humano. Apesar disso, quantas vezes as pessoas olham com ar de reprovação (seja na rua, na escola ou no supermercado) para indivíduos dessa forma caracterizados, sem sequer conhecê-los? Muitos atravessaram décadas, tornaram-se pais de família, bons profissionais e continuaram a cultivar a adoração por esse tipo de som, só que, normalmente, não podem ser identificados pois deixaram de usar tênis de cano alto ou coturnos, roupas pretas e cabelos compridos.

É fato que o metal nunca se furtou a abordar assuntos e atitudes evitados pela opinião pública. Dentro desse contexto, temas considerados tabus sempre foram tratados com naturalidade e, algumas vezes, até com exagero pelas mais variadas bandas, até como forma de desafiar os costumes vigentes. Desde as raízes do rock mais pesado, que nem era ainda o heavy mais tradicional, grupos como o Led Zeppelin mostravam-se interessados em temas como o ocultismo. Há de se lembrar que Jimmy Page chegou a comprar a mansão que pertenceu a Aleister Crowley, bruxo inglês que sempre teve seu nome e idéias associados ao satanismo, ainda que a coisa não fosse bem assim. O Led foi talvez a banda que mais recebeu acusações de pacto com o diabo, que estaria implícito nas supostas e famosas ‘backward messages’ (mensagens gravadas ao inverso em discos e que procurariam esconder citações ao satanismo). Até o fenomenal sucesso da banda foi explicado por alguns da época como devido a um pacto com o “coisa ruim”. O Black Sabbath, banda que estabeleceu as principais características que viriam a delinear o heavy metal posteriormente, também apresentava um clima sombrio em algumas de suas músicas. Uma boa parte das coisas assustadoras que alguns levam aos palcos são apenas encenação, como tantas vezes “a tia” Alice Cooper insistiu em explicar. Porém, todas essas influências persistiram no séqüito headbanger que viria a se consolidar com o passar dos anos.

Alguns exemplos de como sempre se tentou associar o heavy às mazelas da sociedade podem ser facilmente observados. Eram destacadas as citações sobre os bangers, criaturas que se alimentavam de criancinhas e filhotes de animais indefesos. O famoso incidente que teve como personagens o vocalista Ozzy Osbourne e um morcego tornou-se um ‘prato cheio’ para aqueles que gostavam de associar o metal ao grotesco. O lendário Iron Maiden, além de assustar uma parte das pessoas com a imagem do monstro-mascote “Eddie”, viu alguns religiosos suplicarem para que todos queimassem seus discos, tudo isso devido ao álbum “The Number Of The Beast”, que de satanista não tinha nada, apenas tocava num assunto que está escrito até na Bíblia e que tinha sido inspirado em um filme assistido por Steve Harris. Com relação a influências sobre outros tipos de comportamento, a coisa não era diferente. O já referido Ozzy Osbourne foi acusado de estimular o suicídio com a música “Suicide Solution”. O Judas Priest quase acabou porque cismaram de acusar a banda de influenciar de forma definitiva no suicídio de 2 rapazes fãs do grupo. Durante o Rock in Rio 3, a noite destinada ao metal teve menos confusões, menos atendimentos médicos e menos ocorrências que a noite anterior, dirigida ao público ‘teen’. Nesse mesmo festival, quando Carlinhos Brown foi agraciado com uma chuva de garrafas de plástico e sabe-se lá mais o quê, alguém logo se apressou em dizer que “os fãs metaleiros do Guns N’ Roses” eram os responsáveis pelo curioso e, por que não, merecido episódio. O Queens Of The Stone Age, banda que, definitivamente, não toca metal, apresentou-se na noite do Iron Maiden. O baixista da banda achou legal entrar no palco como veio ao mundo. Adivinha o que disseram? Sim, “o metaleiro que entrou pelado no palco”.

Bem, é sabido por todos que existem subgêneros do heavy metal que pregam e praticam o satanismo sem qualquer constrangimento e há de se respeitar as peculiaridades de cada um. Da mesma forma, há aquelas bandas que abordam temas cristãos e de paz. Alguns ditos headbangers cometem atos de estupidez e agressividade, já outros são pacíficos ao extremo. A questão é: será que é correto colocar todos os artistas e fãs de um gênero musical numa vala comum de preconceito e sempre atribuir a estes críticas e acusações?

Se a mesma lógica que se utiliza para (ou contra) o metal fosse usada em tudo o que se vê, como seriam as coisas? Poderíamos então acusar Robert de Niro, que atuou no filme “Coração Satânico”, de ser um servidor do demônio? Muitos associam os “metaleiros” a atitudes violentas. Talvez um leigo que veja um mosh ou uma roda de poga se impressione com aquilo. Todavia, onde há maior chance de alguém ser vítima de uma agressão, num show de heavy ou num estádio de futebol? Várias vezes ocorrem brigas em bailes funk, contudo, não se vê a mídia associando o funk enquanto música à violência.

O fato é que, se há bandas que podem ser consideradas satanistas, também existe um número bem maior de seitas satânicas que nada tem a ver com o rock pesado. Da mesma forma, a violência sempre ocorreu em qualquer lugar onde houvesse uma sociedade constituída e não foi o surgimento do heavy que fez aumentá-la ou diminuí-la. A chance de surgir uma briga em um show de metal é a mesma de ocorrer uma confusão em um show de pagode ou música sertaneja. Pessoas boas e más são encontradas em todos os lugares onde se procurar, independente de raça, sexo, religião ou gosto musical.

O metal é um estilo repleto de clichês mas sua maior ambição sempre foi a de ser uma forma de entretenimento, de diversão, nada além disso. Um mundo que chama as bandas ‘metálicas’ de alienadas ou infantis por escreverem sobre temas épicos ou de fantasia é o mesmo que lota cinemas para assistir a filmes que tratam do mesmo assunto. E também é o mesmo que finge não saber que vários grupos também falam de história, política, comportamentos, paz e, pasmem, até de amor. Algumas bandas estão envolvidas em causas humanitárias e eventos beneficentes mas isso passa longe do que é divulgado pelos grandes veículos de comunicação. Este gênero musical, em termos de letras, nem é o mais contestador de todos mas acabou se tornando a antítese do ‘politicamente correto’, talvez por ser algo que jamais será domesticado ou aceitará fazer concessões para se adequar a uma imagem mais polida, socialmente aceitável e que possa servir como produto a ser vendido em larga escala.

Por isso, deve o headbanger acima de tudo ser autêntico, verdadeiro, viver e ouvir aquilo que gosta, independente do que se diga ou do que está na moda. Entretanto, não menos essencial é sacar que o limite de espaço de cada um é o espaço do companheiro ao lado. Jamais pode-se exigir respeito para si próprio se, antes disso, não se dedica respeito aos outros. Quando todos aprenderem a praticar isso, já se terá percorrido boa parte do caminho para mostrar às pessoas que o medo e o preconceito para com o heavy metal sempre foram infundados. Agora é a sua vez, leitor. Se você concorda com o todo ou com parte do que aqui foi escrito, opine, contribua, dê o seu ponto de vista. Todavia, se você é um dos que acha que as fileiras do rock pesado são formadas por “hordas de anticristos”, mostre também o seu pensamento, critique, esbraveje, mude a opinião deste que aqui escreve ou, quem sabe, tente modificar a sua idéia sobre este assunto.

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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