Os Beatles: Nunca Seguros
Por Angela Joenck Pinto
Postado em 03 de janeiro de 2000
30 de dezembro de 1999. George Harrison é atacado dentro de sua própria casa por um estranho, armado com uma faca. Depois de levar quatro golpes no peito, é salvo pela esposa que atinge o agressor. Os três vão para o hospital, onde George passa a virada do ano 2000.
O recente atentado contra a vida do guitarrista nos traz lembranças de outros episódios envolvendo os Beatles. Alvo de ameaças dos desequilibrados do planeta Terra, a banda nunca esteve realmente segura desde que começou a fazer sucesso. Protegidos por fortes esquemas de segurança, os integrantes do grupo viram a morte de perto muitas vezes. Já nos anos 60, organizações como a Ku Klux Klan ameaçavam destruir shows, jogar bombas no palco e assegurar que os "hereges" Beatles fossem banidos da sociedade. 1970 passou, a banda acabou e seus integrantes continuaram recebendo ameaças. John Lennon recebia cartas anônimas informando que seria morto em breve. Mas não eram só os anônimos que assustavam os Beatles. Em 1977 o próprio guitarrista da banda de Paul McCartney, Jimmy McCullogh, apontou uma arma para a cabeça de Paul e Linda enquanto o casal dormia na sua fazenda. Sem coragem para consumar o ato, Jimmy fugiu e tempos depois foi encontrado morto em sua casa.
Porém, o perfil dos agressores é normalmente o de uma pessoa perturbada, com problemas emocionais sérios e distúrbios psíquicos. Assim as autoridades definem Mark David Chapmann, o assassino de John Lennon. Apesar de parecer bastante saudável ao olhos do público, Chapmann diz que ouvia vozes que lhe diziam para matar o ex-beatle. Ele pede até hoje que Yoko Ono (viúva de Lennon) entenda o que fez ao seu marido, dizendo que não matara uma pessoa de verdade, mas sim uma capa de disco.
O assassinato de John Lennon deixou os companheiros da banda receosos sobre aparições públicas e turnês. Precisou muito tempo para Paul McCartney se apresentar em público novamente com sua banda. Já Gorge Harrison fez meia dúzia de shows. Ringo Starr formou a All Star Band somente no início dos anos 90.
Talvez o mais grave seja o fato de todos estes agressores serem definidos pela mídia como "fãs". Com isso, os verdadeiros fãs ficam mal vistos pelos Beatles, que se afastam cada vez mais de quem os admira. Um sentimento de perigo contínuo amedronta aqueles que nos alegraram por anos a fio, sempre proporcionando boa música como um meio saudável de divertimento. Não é uma situação justa.
Isso tudo nos leva ao seguinte questionamento: Por que? Por que os Beatles? Sempre eles? Nunca se soube, por exemplo, de atentados contra os Backstreet Boys. Isso que eles são mais jovens, mais bonitos e certamente estão em maior número que os extintos Beatles.
Possivelmente a resposta esteja na revolta que esses perturbados têm contra as pessoas que atingem um sucesso estrondoso e uma fortuna que jamais conseguirão ter. E o ícone máximo da música são os quatro rapazes pobres de Liverpool, que conseguiram subir na vida e chegar ao topo do mundo. Não é a toa que depois do atentado a George, a polícia britânica tenha dado aviso de "alerta vermelho" aos outros ex-Beatles.
Enquanto Paul, George e Ringo viverem, serão amedrontados por estes loucos que andam soltos por aí. A mãe do acusado de invadir a mansão dos Harrisons coloca a culpa do acontecido no "sistema". Se fosse assim, todos nós procuraríamos um Beatle para esfaquear. E as coisas não funcionam desta maneira.
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