Marcelo D2 jura ter abandonado o discurso pró-maconha
Fonte: Veja Online
Postado em 04 de janeiro de 2004
Sérgio Martins
"Não sou rebelde, sou músico. Rebelde era o Che Guevara"
Por muitos anos, o carioca Marcelo Maldonado Peixoto, o Marcelo D2, foi sinônimo de encrenca. Vocalista do grupo Planet Hemp, ele criava letras a favor da liberação da maconha, atitude que já foi confundida muitas vezes com o que se lê no artigo 287 do Código Penal, que fala da apologia ao crime. "Nossos shows viviam repletos de policiais. Já eram quase parte do cenário", lembra o cantor. Em 1997, após uma apresentação em Brasília, a banda acabou sendo presa, enquadrada justamente no artigo 287. Seus integrantes foram libertados depois de passar oito dias atrás das grades. O Planet Hemp também tinha o hábito de organizar festas de arromba, recheadas de tietes e de moças alegres e desinibidas. Se depender das promessas mais recentes feitas por Marcelo D2, cenas como essas fazem parte do passado. "Encontrei outros valores: casar, criar filhos, morar numa casa legal. Igualzinho ao meu pai!", afirma D2. Será que o bagunceiro ficou mesmo arrumadinho?
O cantor jura que sim e dá até a data da guinada. Ela teria ocorrido em 1999, quando Marcelo, de 36 anos, se casou com Camila Aguiar, de 26. Os dois têm histórias bastante diferentes. Os pais de Marcelo se separaram quando ele era adolescente, e o cantor não se entendeu com o padrasto. Saiu de casa e passou um bom tempo sem endereço fixo, trabalhando como camelô até formar o Planet Hemp, no início dos anos 1990. Camila vem de uma família de ambiente de classe média alta, e mais harmonioso. Seus pais não fizeram restrições quando ela começou a namorar o músico. Pelo contrário. "Eles praticamente adotaram o D2", diz Marcelo Lobato, empresário do rapper. Camila tem jeitão tranqüilo e faz estilo meio hippie. Mas os amigos dizem que ela sabe como tomar as rédeas da casa quando necessário. Num recente especial da MTV, ela apareceu submetendo o cantor a uma bronca. Dizem que a cena se repete com alguma freqüência.
Camila e Marcelo têm um filho de 2 anos, Lucas, e estão esperando o segundo. O rapper é um pai corujíssimo. Chorou no primeiro dia em que levou Lucas à escola e se diverte fazendo o garoto repetir o vocabulário que lhe ensina – no qual se destaca a palavra skate. Marcelo D2 também estreitou laços com os filhos que teve em relações anteriores – Stephan, de 12 anos, e Lourdes, de 4. "Stephan não suporta nem ouvir falar em maconha", conta o cantor, que incluiu o garoto nas gravações e no clipe de Loadeando, uma das faixas de À Procura da Batida Perfeita, seu último CD.
A carreira de Marcelo D2 passa por uma boa fase. O Planet Hemp não acabou oficialmente, mas seus shows rareiam. Marcelo investe mesmo é na trajetória-solo. As apresentações do Planet Hemp eram constantemente canceladas por causa da militância "pró-erva". Sozinho, o rapper não enfrenta esse tipo de problema. Faz até quinze apresentações mensais, a um cachê médio estimado de 25.000 reais. As referências à maconha sumiram quase que completamente de suas letras. O velho ramerrão foi substituído por letras inspiradas em fatos do cotidiano, e Marcelo se esforça para criar um casamento entre o samba e o rap. Dois meses atrás, ele se rendeu ao charme da burguesia e tocou na Daslu, butique paulistana freqüentada pelos endinheirados. O ato rendeu críticas de que ele estaria "se vendendo ao sistema". O cantor não se abalou. "Não sou rebelde, sou músico", explica ele. "Rebelde era o Che Guevara."
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