Kiko Loureiro: faixa a faixa, o novo álbum solo "Fullblast"
Por Thais Azevedo
Postado em 08 de maio de 2009
Depois do lançamento de dois álbuns que de tão diferentes poderiam até serem considerados complementares, pairava no ar a interrogação: E agora? Qual será a próxima empreitada de Kiko Loureiro?
O processo criativo de um artista nasce da expressão subjetiva e incontrolável, cujo início se dá no coração, é filtrada pelo cérebro e flui para o intrumento. A inspiração para uma composição deve surgir sem pré-conceituação. FULLBLAST nasceu nessas circunstâncias, fluindo naturalmente da energia do rock-heavy e temperado com os ritmos, sons e linguagens brasileiras.
A idéia deste trabalho é deixar aflorar a ambiguidade das personalidades musicais de Kiko, mostradas de forma pura seja em seus lados extremos ou em fusão. Encontram-se em FULLBLAST, desde uma faixa de violão e percussão com raiz no puro samba, até uma faixa de puro heavy-metal, que resgata as origens do guitarrista no começo do Angra. A meta principal durante a composição do álbum foi encontrar uma linguagem em que estes universos musicais se encontrassem em uma intersecção, convivessem em harmonia e se complementassem.
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O "terceiro lado" desta dialética musical de Kiko Loureiro é a paixão por orquestração e música erudita, que Kiko ainda não havia expressado de forma tão contundente em seus projetos solos, mas que estavam presentes no Angra. FULLBLAST traz o resultado do desafio de transcender estilos e suas limitações, misturando ao máximo as informações, e ainda assim mantendo coesão e uma sonoridade particular.
Comentários faixa à faixa - por Kiko Loureiro:
HEADSTRONG
O riff da entrada me traz à memória os meus bons momentos procurando aprender as técnicas e músicas do Eddie Van Halen. Os temas principais traduzem o que eu mais ouvi logo após meus primeiros dedilhados na guitarra, como por exemplo Steve Vai e Satriani. O interlúdio é uma quebra jazzista que ocorreu futuramente nos meus estudos. A parte latina em 7/8 que surge em seguida é pura influência dos últimos anos com o trabalho "Universo Inverso". Nesta música, acredito ter encontrado a forma de mostrar minha história musical. Headstrong funciona como uma viagem aos meus aprendizados, de forma claramente cronológica, sem no entanto ter sido feito de forma premeditada. Portanto Headstrong (de cabeça erguida) seguimos a vida para receber, absorver e evoluir.
DESPERADO
Por algum motivo que desconheço, a introdução cria na minha cabeça imagens dos Desperados, ou daqueles Zapatistas mexicanos, e claro da imagem dos Cangaceiros brasileiros. Assim, por reflexo instantâneo, deixei este nome. Essa faixa é uma viagem de ritmos e texturas bem brasileiras e pesadas que se fundem buscando sempre algo novo para mim. A percussão está propositadamente presente para criar esta sonoridade. Gostaria de ressaltar o berimbau afinado com as guitarras, criando uma textura nova dentro dos meus trabalhos. As tonalidades variam constantemente, criando atmosferas diferentes. Não só na instrumentação, mas na harmonia, é fundamental para criar camadas sonoras variantes. Senti como uma missão e uma experimentação, buscar arriscar mais nas percussões e harmonias brasileiras.
CUTTING EDGE
O desafiador que mora dentro de mim sempre aparece com estas idéias. Melódica e rápida, esta música é um desafio para mim e para quem toca ou pelo menos aprecia a plasticidade, tensão e emoção que a velocidade traz.
EXCUSE ME
Gosto sempre de trabalhar com contrastes no álbum, as notas rápidas e harmônicas complexas, com baladas em tom maior. Trazem paz quando eu as toco. As notas longas e espaços são ótimos para explorar a expressividade da guitarra que é, afinal um dos intrumentos que proporcionam uma riqueza infinita de expressão. O título e o clima da música está relacionado ao sentimento de quando você desaponta alguém que gosta e respeita.
SE ENTREGA, CORISCO!
Quem não conhece a frase do filme do Glauber Rocha? "Deus e o Diabo na Terra do sol". A trilha sonora, que já conheço desde pequeno, é uma das obras primas da música brasileira e a cena é das mais marcantes do nosso cinema. A música tem toda o clima do Nordeste brasileiro e, apesar de não ser um, posso dizer que moro em São Paulo, a maior cidade nordestina do Brasil. Vale dizer que os sons da introdução sou eu conversando com um vendedor de cd pirata no largo treze em São Paulo. Lá encontramos vários filhos de Corisco vendendo CDs a dois reais.
A CLAIRVOIYANCE
Em uma tarde de chuva compus esta música. Partiu de uma pequena idéia que eu já tinha e que virou parte da música Waiting Silence, do Angra. A partir da mesma idéia inicial, criei esta música. O violão, que está com afinação de viola caipira, traz a qualquer execução, uma forma mais intuitiva, pois afinal as notas estão todas "fora" de lugar. Assim, o caminho que os dedos conhecem não funcionam e o cérebro fica perdido, esperando só a percepção sonora. Clairvoyance é aquele que enxerga além, uma situação quase de percepção extra sensorial.
WHISPERING
Esta é a faixa mais antiga do álbum. Já tinha composto parte da melodia e a parte B em um momento de espera, antes de entrar no palco para uma apresentação na Tailândia. Mais uma semi-balada bem aos estilo americano pop, que estão sempre em tons maiores. A tradição da música latina e/ou portuguesa que nos influenciou muitas vezes é bem melancólica pelo fato de estar sempre em tons menores. O tom maior deixa a música mais feliz e esperançosa, porém para não deixar de lado a raiz, coloquei no final um longo improviso bem latino em tom menor para não esconder a melancolia que temos dentro da gente.
OUTRAGEOUS
A dialética e dualismo de uma melodia repetitiva contra um riff mais furioso é o conceito desta música. Inicia com uma das minhas predileções, uma atmosfera World Music, com orquestrações e derbak, que incita um som mais arábico. Mistura três coisas que gosto muito de tocar, violão, percussão e criar orquestrações. Esta lembra muito o Angra, não só pela velocidade constante da bateria, mas pelo estilo de riff e melodia.
MUNDO VERDE
Contrastante com a faixa anterior, esta é um puro samba. Sempre tive e terei orgulho da nossa música, com sua união de complexidade e capacidade de atrair qualquer um, mostrando a real possibilidade da convivência entre erudito e popular. Sem power chords e muitos acordes complexos, este tema mostra o extremo outro lado da minha musicalidade. O título soa ecológico, mas no fundo o verde vem da música estar em D maior. Por algum motivo sinestésico, sempre ouço "verde" quanto toco um Ré maior.
PURA VIDA
Em Costa Rica, as pessoas se cumprimentam com o "Pura Vida", uma mensagem bonita, que transmite que "a vida é bela", Sempre indicando vibrações positivas para o próximo. Esta faixa, baseada inteiramente em um Maracatu, foi a última do álbum. Em meio a gravações da bateria, achei que o álbum estava muito complexo e precisando de uma música que respirasse mais. Algo que não tivesse solos complicados e bateras nervosas. Compus a idéia em uma noite antes de voltar para o estúdio para o último dia de gravações de bateria. Criamos o loop do Maracatu e pedi para o Mike tocar sobre e ouvir os acordes. A melodia simples com as percussões e orquestrações formam uma camada boa para criar melodias com muita expressividade.
AS IT IS, INFINITE.
Turnês, quartos de hotel, tour bus, avião e salas de espera são mundos muito solitários. Assim, meu melhor amigo acaba sendo o violão. O tempo passa sem questionar e esta sensação de atemporalidade sempre aflora boas idéias e composições que refletem e transmitem em notas e acordes os momentos alí vividos. Adoro o som do acorde menor com sexta. A música está cheio deles, em diferentes tonalidades.
O FULLBLAST ESTÁ A VENDA NA LOJA DIE HARD, NA GALERIA DO ROCK, EM SÃO PAULO.
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