Marilyn Manson: entrevista na revista V Magazine
Por José Leonardo
Fonte: Manson Brasil
Postado em 13 de janeiro de 2012
O Antichrist Superstar que liberou um exército de suburbanidades com a sua introdução mainstream do expressionismo gótico volta com Born Villain.
Deus. Por onde começar? Que tal começar há 2 minutos atrás, quando eu apertei o play do meu gravador em minha noite com Marilyn Manson e não ouvi nada além do silêncio, quase como estivesse tentando ver um vampiro no espelho. Ou nós podemos começar em 1995, quando eu fiz um buraco na minha porta do quarto enquanto ouvia Smell Like Children, o EP lançado após o Portrait of na American Family em 1994, e seguido pelo destrutivo Antichrist Superstar – todos produzidos pelo provado Trent Reznor. Antichrist Superstar ajudou a empurrar o punk e colocou a música industrial em um novo domínio demoníaco do surrealismo pop, uma pílula mais facilmente engolida pela massa americana. Ou nós podemos começar pelo fato do novo álbum de Manson, Born Villain, que será lançado em fevereiro pela gravadora Cooking Vinyl e pelo próprio selo do Manson, Hell, etc. Born Villain é o primeiro álbum de Manson após três anos e marca seu oitavo álbum de estúdio, e seu primeiro sem o selo da Interscope. Ou talvez possamos começar por onde começamos: Deus, o qual Marilyn Manson é considerado ser, não apenas pela sua legião de devotos, mas pelas incontáveis crianças dos anos 90.
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Marilyn Manson vive na parte de cima de uma loja de licor em Hollywood. A casa pertencia a Billy Zane, e Manson visitou a primeira vez sua futura casa quando ele chegou a Los Angeles a tentar se tornar um músico. Agora é uma covil perfeito: um estúdio de gravação, um banheiro com um "espaço garotas malvadas" (algum tipo de ex chuveiro ou sauna que agora é uma fechável caixa de vidro a prova de som), e um enorme e escuro espaço que serve como cinema, bar, estúdio de arte, e uma sala de reunião. Esse foi o lugar para onde Manson me levou quando abriu a densa porta de metal (possivelmente a prova de balas) de sua casa. "O que você quer para beber?", ele perguntou. Eu respondi o que quer que ele esteja bebendo, e eu comecei o primeiro de muitos copos de absinto. O que aconteceu depois foi um pouco de «visão» borrada, mas uma linda visão. Manson está no topo da lista de pessoas que eu quero conhecer, e nós nos demos bem assim como eu rezei para os cachorros negros do inferno para que fosse. O que significa muita bebida. E após um problema técnico com meu gravador digital, e uma desconhecida incapacidade do gravador analógico reserva em gravar a profunda, e rangida voz de Manson e toda gravação que ouvimos juntos – vou culpar o destino por isso. Então, teremos que nos basear na minha memória não totalmente confiável dessa noite.
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As primeiras frases que Manson me dirige são murmuradas. Ele ajoelha-se ao meu lado enquanto eu me afundo num puff preto dentro do covil. Alguns músicos e amigos estão sentados no enorme sofá preto, voltados para a gigante parede branca que serve como uma tela de cinema, carimbada com a cara de Jeremy Piven chorando histericamente. Estão a ver uma versão preliminar de "I Melt With You", numa cena em que (aviso de spoiler) um indivíduo barbudo rapa a barba e depois se mata. Lembro-me de afirmar que Wes Anderson dominou o mercado no que diz respeito a se barbear-pré-suicídio, mas Manson explica que existe algum tipo de ligação entre a remoção de pêlo corporal e a iminência da morte. Já voltaremos a isso.
No canto deste quarto estão inúmeras pinturas gigantes. Incontáveis porque são imensas, talvez trinta, mas também porque estão espalhadas e empilhadas umas por cima das outras. Marilyn Manson é um artista fenomenal, cujos retratos espantosos são uma espécie de versão "diabinho-no-ombro" dos seus amigos, aberrações, bastardos, e amados; são estudos de cortar a respiração sobre a negra, estragada sombra da beleza.
Sentamo-nos no seu estúdio e ouvimos o álbum durante horas. Eu toco a guitarra em que ele escreveu Superstar. Brinco com uma arma. Ele mostra-me o filme que Shia Lebouf realizou para a faixa principal do Born Villain.
Manson tem estado fora de cena desde há algum tempo, aparecendo em alguns eventos aqui e ali mas reclusivo de um modo geral, então antecipei que ele fosse me deixar um pouco à distância, se enclausurando nas trincheiras da mente única dos herméticos, excêntricos, brilhantes "avant-weirdos". Mas na verdade ele é um homem maravilhoso e caloroso. Talvez seja porque somos almas semelhantes. Ou talvez ele seja mesmo aquele génio gentil tal como foi varias vezes descrito durante o pior dos seus escândalos e momentos de linchamento pelas multidões. Lembro-me de não querer ir embora, lembro-me da gata branca Lily. Lembro-me de um monte de comida da IHOP ter aparecido. Manson mostrou-me um livro com dedicatória do Hunter S. Thompson, uma oferta para ele pouco antes do escritor ter acabado com a sua própria vida. "Vê aquela boneca? Pega nela." É uma espécie de boneca de testes de acidentes de viação (crash-test-dummy), no chão, usando uma peruca loura, com várias feridas infligidas – não relacionadas com carros – e é pesada como a merda. "É pesada como a merda," disse eu, provavelmente. "Estou a alugá-la a 150$ por dia," definitivamente recordo-me de o ouvir dizer, porque é uma extravagância tão única e inofensivamente estranha. Mas, com toda a honestidade, recordo muitas frases incríveis, só que naturalmente aquelas que eu me lembro são as mesmas que eu não posso (não vou) repetir.
Acima de tudo, lembro-me de que o álbum é incrível. É um dança-com-ele, fode-com-ele, uma besta antémica, perfeita para estes tempos de insurreição e revolta. A música de Manson sempre foi a canção de luta ideal para os enraivecidos e oprimidos, afinada perfeitamente com o tom da angústia geracional, mas aqui há maturidade. E definitivamente mais depravação, indicativa dos crimes sexuais e cobertura sem censura da guerra na Internet de hoje em dia, ou seja, da trasparência em todos os lugares errados (como os atos repugnantes da humanidade) e em nenhum dos certos.
Manson me diz que recentemente tem pintado com pigmentos de tatuagem. Pergunto-lhe se também tem uma máquina de tatuar, e ele aponta para ela. "Vamos usá-la," digo eu. "Vamos começar por essa barba então," diz ele, referindo-se à minha situação espessa e grisalha, que me custou tanta paciência e momentos constrangedores. Ele saca de numa navalha. E então o meu sonho de Marilyn Manson avançando para mim com uma lâmina tornou-se realidade.
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