Não culpe as gravadoras: você que é um tosco mesmo!
Por Nacho Belgrande
Fonte: Playa Del Nacho
Postado em 07 de agosto de 2012
Por Paul resnikoff do Digital Music News
Primeira ofensiva de mercado falhou? Culpe as gravadoras.
Isolado da comunidade artística? Culpe as gravadoras.
Visão criativa manipulada? Culpe as gravadoras.
Tá com o nome sujo? Culpe as gravadoras.
Não que as grandes gravadoras não forcem você a assinar um contrato leonino, não arranquem todo puto que você tiver, não te levem â falência. Não que elas não manipulem sua visão criativa, e coloquem uma chancelaria de produtores e compositores no seu projeto até que você mesmo odeie sua música.
Elas vão sim, assim como o faziam antes. Nada mudou.
A diferença é que agora VOCÊ JÁ SABE QUE ISSO VAI ACONTECER, antes de você começar a elaborar o contrato ou a parceria. O que significa que, em 2012, as grandes gravadoras não são uma desculpa aceitável – pra nada. Ou seja, pra que o fracasso se reverta, estabeleça regras transparentes com a comunidade artística, desenvolva a visão criativa que você quiser, ou estabeleça-se como empresa.
Aquele jogo de colocar a culpa nelas está oficialmente morto agora. O que quer dizer que declarações do tipo são completamente ingênuas.
"A partir do momento que você tem um contrato, ele é válido por alguns meses, e daí você tem que negociá-lo de novo e de novo. Nós percebemos que é tudo muito saturante, o lance todo de licenciamento e questões legais. Há muitas áreas cinzentas. Você fala com os artistas e eles não têm idéia de como o novo sistema funciona, e ficam desconfiados das coisas novas."
Phillip Elbach, CEO da Wahwah.fm, em comentários pro site GigaOM antes de seu fechamento.
E você não pode culpar as gravadoras por se comportarem como se fizessem parte da indústria do boxe. Porque nós já sabemos que as grandes ficam com o dinheiro de seus artistas, não repassam os royalties devidamente, e geralmente se comportam de maneira não-trasparente e quase criminosa. Daniel Ek não deveria estar no mesmo palanque que Walt Mossberg, fingindo que os artistas são pagos por suas gravadoras, porque eles não o são. Disso todo mundo sabe a essa altura do campeonato, e o Spotify é culpado por associação.
Os investidores se ligam nisso, e já o fazem há anos. Isso não é mais dinheiro do Banco Imobiliário, eles se deram conta de tudo isso depois de tomarem no rabo no fim dos anos 90 e começo do século XXI. Mas ainda há quantias absolutamente gigantes de dinheiro entrando em conceitos musicais que evitam licenciamento de gravadoras. O que quer dizer que os maiores níveis de inovação estão acontecendo à margem das gravadoras, e frequentemente sem o envolvimento delas. E as maiores mudanças dentre as que afetam a indústria estão vindo de fora, não de dentro.
Apenas leve em consideração algumas das maiores apostas da indústria: nenhuma é ligada diretamente ao licenciamento de grandes conglomerados de gravadoras.
(1) TuneIn, $16 milhões
(2) Sonos, $135 milhões
(3) Roku, $55 milhões
(4) The Echo Nest, $17.5 milhões
(5) Ticketfly, $22 milhões
Claro, alguma parte disso entra no conceito de música, não exatamente no de indústria musical. Mas talvez a questão seja exatamente essa: esse é o dinheiro que poderia ter ido para música licenciada através de gravadoras e editoras, mas ao invés disso, está rumando bem pra fora daquele pesadelo.
E as empresas que DE FATO mantêm o foco no licenciamento através de grandes gravadoras acabam ou entrando pelo cano ou tendo sérias distorções associadas a elas. Como o Spotify, que está parecendo cada vez mais com um grande exercício de magia negra e excesso de Wall Street, e menos com um serviço musical desfrutável e duradouro que você estará usando daqui a dez anos. Na verdade, as grandes gravadoras são parte dos jogadores dessa partida, e beneficiárias de todos os investimentos sendo feito. E as principais ganhadoras de ‘eventos de liquidação’ [como falências de empresas menores do setor].
O que é uma pena, porque o Spotify é facilmente um dos melhores softwares musicais que já surgiram. Mas eles são, no final das contas, parte do problema, eles estão fazendo negócios com as grandes gravadoras – ainda que de olhos bem abertos. E daí eles culpam seus próprios parceiros pelo problema.
A questão é o que o Spotify está fazendo MESMO em nome da inovação nesse espaço. Talvez nada. O executivo da UMG, David Ring, explicou recentemente que a maioria dos empreendimentos musicais começa em um modelo inviável já de cara, e isso não é culpa das gravadoras. Porque não é o licenciamento que engole artistas novos, são os modelos errados de negócio.
O problema é que se você CONSEGUIR achar um modelo certo, ele não é seu de verdade. O contrato de licenciamento pode ser cancelado a qualquer modelo. Essa característica pode mudar ao longo do tempo, mas não tão cedo. A UMG faz uma fusão com a EMI, que faz outra fusão com outra coisa, o catálogo implode na ordem de importância com o tempo e se torna cada vez mais empoeirado no quesito licenciamento.
Mas isso não é o que está rolando agora, não é a dura realidade do espaço que habitamos. O que significa que a real inovação deve acontecer fora das restrições do licenciamento, e ela não pode ter um componente de culpa. É o único modo de se levantar uma boa quantia de dinheiro, estabelecer um negócio, e fornecer um retorno razoável. É também a única maneira de proteger sua visão criativa, e conter a enxurrada de modelos musicais corruptos.
Então não culpe as gravadoras. Evite-as, ou faça algo completamente diferente.
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