Carcass: Anos em cadeira de rodas foram pior período de Ken Owen
Por Tiago Dantas da Rocha
Fonte: Decibel Magazine
Postado em 24 de abril de 2016
Por Dan Lake para a Decibel Magazine
Nem todos os sons extremos se originam de instrumentos analógicos amplificados. O ex-baterista do CARCASS, Ken Owen, descobriu maneiras de invadir seus ouvidos sem precisar usar uma guitarra e ainda te deixar pensando o que diabos foi que te atingiu. Nos dias de hoje, Owen faz uma mistura de atmosferas sintéticas com batidas mais agitadas e melodias peculiares através do uso do computador. Foi uma forma que ele encontrou de se expressar musicalmente após lidar com questões médicas extraordinárias durante os últimos 17 anos.
Além da entrevista completa com Ken Owen também é possível ouvir as 8 faixas do seu álbum via streaming ou compra-las em formatos de alta qualidade no link abaixo.
http://kenowen.bandcamp.com/album/symbiotic-possibilities
DAN: Por quanto tempo você vem criando músicas nesse estilo? E o que te motivou a isso?
KEN: Eu comecei a escrever música eletrônica há muito tempo atrás, provavelmente assim que me mudei para Nottingham em 1991. Eu costumava sair com alguns amigos que moravam perto de mim, incluindo Johnny Carter que na época tocava no PITCHSHIFTER, outra banda do Selo Earache com a qual o CARCASS saiu em turnê pelos Estados Unidos em 1990. Eu também estava profundamente envolvido no estilo techno de Detroit incluindo Jeff Mills, Robert Hood (Ambos DJs Techno), bem como bandas mais tradicionais de metal. Eu estudei tecnologia da música na faculdade Carlton Road em Nottingham e também na Confetti que por um acaso foi criada por Craig Chettle que trabalhou com o CARCASS na estrada como engenheiro de som e gerente de turnê. Eu fui laureado com um título de excelência/mérito por notas que me renderam um diploma nacional de bacharel em tecnologia musical o que me deu uma boa base no uso de alguns programas de música como o Cubase e o Reason. Eu costumava sair com amigos de Nottingham para alguns clubs como o Orbit In Morely em Yorkshire e o Que Club em Birmingham.
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DAN: Você admira o trabalho de outros artistas da música eletrônica? Quem? O que há nesse estilo que te deixa mais animado?
KEN: Eu sempre admirei artistas como Jeff Mills, Robert Hood, bem como artistas pop tipo James Arthur e COLDPLAY. Eu gosto da energia na música eletrônica e como pode soar áspera e também o fato de não haver limites.
DAN: O seu processo de recuperação influenciou de alguma forma nas ideias musicais que você explorou no álbum Symbiotic Possibilities?
KEN: Com certeza eu queria criar um álbum que fosse o mais positivo possível e que refletisse a minha atitude em relação a vida. Eu escrevi outro álbum chamado Socially Dead (Not A Full Stop But A Coma) sobre a minha doença e o processo de recuperação contínuo que possui alguns elementos mais sombrios, e obviamente que eu precisava fazer com que ele soasse mais frio e sem vida como foi o prognóstico inicial do meu caso quando aconteceu. Eu sofri uma hemorragia massiva no cérebro em fevereiro de 1999 causada por um aneurisma cerebral, o qual me deixou num estado de coma o mais profundo possível antes de entrar num estado de morte cerebral durante mais de 10 meses. Após esse período o problema ainda estava presente e havia 80% de chance que eu voltaria a ter outro aneurisma. Por isso em junho de 2000 eu decidi voltar ao Centro Médico do Queens para que ele fosse completamente removido. A cirurgia foi 100% bem sucedida, mas acabei por contrair uma encefalite (Infecção aguda do encéfalo, causada por um vírus, bactéria, fungo ou parasita, até mesmo substâncias químicas ou tóxicas e que pode ser fatal) e outras complicações pós-operatórias como a MRSA (do inglês Methicillin-resistant Staphylococcus aureus, ou Staphylococcus aureus resistente à meticilina, SARM, é uma bactéria que se tornou resistente a vários antibióticos - primeiramente à penicilina, em 1947, e, logo depois, à meticilina. Ela é contagiosa e pode causar infecção com risco de vida. SARM não é encontrada no ambiente natural (solo ou água). Ela vive no nariz e na pele de seres humanos, é transmitida por entrar em contato com uma pessoa infectada ou por exposição a um objeto ou superfície que uma pessoa infectada encostou.) Tudo isso em conjunto me deixou muito mal de saúde e para me recuperar dessa provação eu tive que ser submetido a um coma induzido por mais 5 meses. Eu passei a maior parte dos 3 anos seguintes num hospital o que me deixou quase que completamente institucionalizado. Num determinado momento eu cheguei a acreditar que nunca mais sairia daquele hospital. Um dia o meu pai me tirou de lá e me levou para uma excursão não-autorizada fora do hospital para me mostrar que a vida continuava a existir fora da enfermaria já que cada vez se tornava mais evidente que eu estava perdendo as esperanças. Quando finalmente os meus pais conseguiram permissão para sair do hospital, eu fui viver com eles numa vila muito bacana, amigável e quieta no norte do condado de Nottinghamshire, mas eu fiquei numa cadeira de rodas durante alguns anos, os quais foram o período mais depressivo da minha vida. Mas com todo o amor e dedicação de toda a minha família, e alguns enfermeiros particulares, eu consegui dar os meus primeiros passos usando um andador. Inicialmente eu precisava me apoiar nos ombros dos enfermeiros até que eu conseguisse caminhar sem ajuda.
DAN: E como está a sua saúde hoje, 17 anos após o aneurisma?
KEN: Hoje a minha saúde está de volta num nível que eu considero exemplar. Eu vou para a academia e passo 45 minutos em equipamentos cardiovasculares como cross-training e esteira, tenho aulas de Pilates em Nottingham e também costumo escalar no Centro de Escalada de Nottingham e normalmente eu costumo concluir até 5 rotas de escalada numa única sessão. Eu ainda sofro com tendões encurtados no lado esquerdo do corpo por causa dos 10 meses nos quais eu fiquei imóvel, entretanto eu procuro evitar que isso me desanime e estou muito feliz com o meu progresso físico.
DAN: O seu site menciona uma trilogia... O que você tem em mente para esses três álbuns como um todo? Outras partes já existem, ou você as criará num futuro próximo?
KEN: A trilogia consiste de Possibilities, Socially Dead e no momento estou trabalhando num novo álbum chamado Fatigue que está avançando muito bem. Como eu disse anteriormente, eu acredito que Possibilities tem algumas das características que eu usei nas músicas que ajudei a criar durante o tempo que compus para o CARCASS.
DAN: Você tem algum interesse em utilizar a música eletrônica como uma forma de se aproximar ao peso extremo no seu passado?
KEN: Eu acredito que o extremo é uma mentalidade e algo que deve estar enraizado nos meus genes. Eu tentei emular toda a aspereza do meu acidente e da minha música de antes no meu trabalho atual e fico feliz e satisfeito com tudo o que consegui na vida bem como na minha carreira musical. Também gostaria de aproveitar e agradecer a Jeff Walker e Bill Steer por me trazerem de volta a estrada em turnê com o CARCASS, o que para mim foi algo muito prazeroso. Ter tido a oportunidade de realizar um breve solo de bateria na frente de tantos fãs e todos que nos apoiam me fizeram perceber a importância da música e que os elos com o meu passado ainda eram fortes.
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