Andreas Kisser: o Brasil passa por um momento idiótico, ou você é A ou é B
Por Bruce William
Fonte: Tenho Mais Discos Que Amigos
Postado em 16 de janeiro de 2017
Durante conversa com Felipe Deliberaesm para o Tenho Mais Discos Que Amigos, Andreas Kisser falou sobre diversos assuntos, incluindo o novo disco do Sepultura, "Machine Messiah", confira o papo aqui e mais abaixo alguns trechos.
Andreas Kisser - Mais Novidades
TMDQA!: Você participou da Semana Internacional de Música em São Paulo e falou sobre ser uma banda brasileira no exterior. A agenda de vocês já está cheia de fevereiro a julho com shows pela Europa e Estados Unidos. Como é, pra você, ver que conseguem marcar turnês mais facilmente lá fora do que por aqui? As coisas ainda andam mais devagar no Brasil?
Andreas: Não é questão de andar devagar ou não porque são duas coisas diferentes. Lá fora você toca de segunda a segunda e aqui, embora tenha progredido, isso ainda é quase impossível. No Brasil as bandas se apresentam de fim de semana. Para efeito de comparação, em cinco semanas da nossa turnê com o Kreator faremos 27 shows. Na Europa tem transporte público de qualidade, estradas boas, e a geografia em geral ajuda. Aqui, pra ir de São Paulo a Recife é um sacrifício. O Brasil não tem tradição de receber turnês de rock como as de fora. A linha férrea é debilitada, as estradas são perigosas. Mas temos tocado muito por aqui e temos tido a oportunidade de fazer trilha para séries de TV e filmes, de tocar com gente como o Zé Ramalho, então aproveitamos o Brasil de forma diferente dos Estados Unidos e Europa. Fazemos turnês por aqui desde 1989 e já melhorou muito – temos a possibilidade de tocar em lugares como o Paraguai, o Peru e a Colômbia quando antes era só Brasil, Argentina e Chile.
TMDQA!: Vocês chegaram a fazer um dos shows que estavam previstos com o Lobão, depois os outros foram cancelados. O que achou da reação negativa de uma parte dos fãs? Você entende, concorda com as reclamações deles sobre vocês serem uma banda que tanto luta contra o sistema e que agora ia se juntar com uma espécie de símbolo da direita política, ou existe um lado que eles não estão enxergando ou entenderam errado?
Andreas: Eu respeito a opinião de todo mundo, mas acho isso completamente patético. O Brasil passa por um momento idiótico: ou você é A ou é B. Não tem discussão, ninguém ouve a opinião do outro, existe muita fobia, muita intolerância e desrespeito. O show com o Lobão em Belém foi sensacional, um show energético, com as bandas se dividindo no palco, uma hora só a gente tocando, outra hora só ele, outra hora juntos… mas nós já tocamos com a Ana Cañas, com o Zé Ramalho, e ninguém ficava questionando essas parcerias. Não tem plataforma política nisso. Nós defendemos a arte, o deixar o cabelo crescer, o fazer tatuagem, o exacerbar a sexualidade. Tudo isso é a arte mostrando caminhos diferentes. Nós não somos políticos, somos cidadãos. Vimos que o Brasil não está pronto para certas coisas. Vimos que no palco funciona, mas fora dele não. Infelizmente. Mas espero que role outra oportunidade.
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