Tom Morello explica como o Rage Against the Machine atacou a censura nos anos 90
Por André Garcia
Postado em 12 de fevereiro de 2023
O Rage Against the Machine surgiu no começo dos anos 90, logo se destacando por não seguir as tendências, ao invés disso fazendo um inconfundível e contagiante rap rock politicamente engajado.
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Em 1993, então aos 29 anos, o guitarrista Tom Morello caía na estrada para promover o álbum de estreia da banda, autointitulado. Entre um show e outro, ele deu uma entrevista para o crítico musical Marc Allan, disponível no YouTube pelo canal The Tapes Archives. Entre outras coisas, o guitarrista falou sobre como a banda enfrentava o movimento pró-censura que então imperava nos Estados Unidos.
"Para dar um basta à censura, estamos organizando um boicote aos vendedores de discos que acatam a censura. É nossa crença que a batalha contra a censura pode ser vencida na esfera do varejo. Até agora, toda a pressão sobre as cadeias de discos tradicionais vem da PMRC e os fundamentalistas de extrema-direita, que são bem relacionados e bem financiados. Só que não são eles que compram discos, é o público do Lollapalooza, o público do Cypress Hill, o público do Rage Against the Machine que basicamente faz de exemplo a minoria de lojas em nossa comunidade que se curva à censura."
"Nós podemos virar a maré a nosso favor uma loja de cada vez. Primeiro é identificar as lojas de sua comunidade que se recuse a vender álbuns com o selo Parental Advisory a pessoas de qualquer idade. No momento, há 3 mil lojas nos Estados Unidos que se recusam a vender álbuns com o selo a menores de idade. Isso para mim é uma vergonha, porque tem gente de 15, 16, 17 anos — e até mais jovens que isso — que estão começando a entender as coisas e ver onde eles se encaixam no mundo. Negar às pessoas dessa idade, que estão despertando sua consciência política, música de artistas contestadores anti-establishment é um crime! Para mim essa é toda a questão da censura: negar o acesso da juventude a música de protesto, que questione o status quo."
"Em segundo lugar, depois que você identifica as lojas infratoras, é basicamente pedir para que elas façam a coisa certa, acatem à primeira emenda. Quer sejam álbuns comerciais ou banidos. [Parar de] vender apenas para maiores de 18 anos, de botar os discos na sessão de pornografia [risos]. Se eles se recusarem — o que provavelmente vão, já que partem do princípio de não levar jovens a sério — é mostrar que deveriam. Distribuindo panfletos na sua escola, ensino médio, faculdade, shows de bandas locais ou artistas famosos, bailes... onde quer que tenha compradores de discos reunidos, distribuir panfletos dizendo "Boicote a loja tal", basicamente."
"Com certeza [isso inclui Walmart e K-Mart], que estão entre os principais infratores. É claro que as lojas não estão nem aí para a primeira emenda, ou não estariam tão dispostas a se curvar à censura. Ao mesmo tempo, não as considero ideologicamente alinhadas a grupos como o PMRC, que alegam que discos do N.W.A. ou Rage Against the Machine estão provocando a decadência moral de nossa sociedade. Eles simplesmente não querem confusão, então a ideia é dar a eles um problema maior. É começar a cortar onde dói neles, que é no bolso. Quando eles se tornam menos competitivos que a concorrência, que vende qualquer disco para qualquer um, aí eles não acordar."
"Creio também ser parte fundamental de qualquer boicote o protesto. Fazer um protesto em uma propriedade pública e, de tarde em um fim de semana, na hora que as pessoas mais compram discos, você e uns amigos (ou quantas pessoas forem) levarem placas 'Loja tal apoia a censura'. Isso realmente causa um impacto. Não só por mudar a política das lojas, mas por fazer os jovens experimentarem seu próprio poder, e perceber que só ficar sentado no sofá reclamando da censura, ou de qualquer problema em sua comunidade (ou no mundo) não basta. É preciso agir. Isso é o que é necessário para alcançar mudanças."
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