A gota d'água pra Charles Gavin deixar Titãs: "E se eu pular do 24º andar desse hotel?"
Por Gustavo Maiato
Postado em 19 de março de 2024
Em entrevista ao Braba, o baterista Charles Gavin refletiu sobre a decisão tomada em 2009 de sair da banda que fez parte de sua vida artística por décadas. Ele disse que chegou a ter pensamentos que considerou como suicidas.
"Em 2009, nós fizemos o disco ‘Sacos Plásticos’, último disco que eu gravei com os Titãs. E uma questão, até da banda ser grande, é que a gente raramente na carreira parou de fazer show para gravar disco. Sempre fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Sempre achei isso muito complicado porque, assim, gravar um disco é algo que exige muito de você. Exige muita dedicação e, basicamente, concentração. Como é que você faz isso estando na estrada?
A estrada é para garantir o pão de cada dia, OK, legítimo. Mas o disco também garante o pão de cada dia. Com ‘Sacos Plásticos’, não foi diferente. A gente prosseguiu com a turnê que a gente tinha naquele momento, aquelas turnês que nunca terminam, né? Então, era ensaios de criação, final de semana, show de sexta a domingo ou quinta a domingo, voltava para São Paulo para fazer ensaio de criação. Eu tinha já duas filhas pequenas, em 2009. Dora nasceu em 2002, tinha 7 anos; Sofia nasceu em 2005, ela tinha 4 anos.
Duas filhas pequenas crescendo, a gente na estrada o tempo todo. Eu mal voltava pro Rio de Janeiro e quando voltava era para trocar de mala, mala de roupa lavada, mala de roupa suja, zero inspiração para criar alguma coisa. É um desânimo que eu não tenho participação criativa quase nenhuma nesse disco. Eu não contribuí com nada em termos de músicas, de composições ou de sound design, nada. E assim, eu segui a cartilha do baterista, que está ali para cumprir o seu papel.
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Isso aí, eu nunca fui um cara dentro de banda que só cumpriu o papel da bateria. Eu sempre fui um cara que, quando possível, fiz músicas com outros, mesmo não tocando instrumento de cordas. Foi uma fase difícil, a minha família crescendo. Eu optei por ser pai bem mais velho, então a paternidade me transformou em um ser melhor, com toda a certeza, muito mais empático, muito mais compreensivo, muito mais maduro, recomendo a todo mundo, tem que ter filho na vida para você ser uma pessoa melhor, dentre outras coisas.
Então, a família clamava mais pelo pai em casa, entendeu? Eu pensei: ‘Não vou delegar a criação das minhas filhas só para a mãe.’ Então, já tinha essa questão. Não sair da estrada, a família está crescendo, você nunca está no Rio e está gravando um disco. Eu entrei numa espécie de surto emocional, intelectual e físico. Em 2009, eu tava esgotado fisicamente, emocionalmente, intelectualmente, tanto é que não produzi nada que se preste, né, apesar de ter gravado o disco.
Ei cheguei para os Titãs e falei: ‘Olha, eu preciso de uma pausa. Eu preciso de uma redução da carga de trabalho. Não estou suportando.’ E ali dentro, essa minha revelação não reverberou não. Mas eu tava surtando. Achei que eu ia ter no mínimo depressão, pânico, coisas desse tipo. A gota d'água foi assim: a gente chegando da estrada, vai pro hotel que era ali atrás do MASP, um hotel de frequência de muitos empresários orientais, assim, só tinha coreano, chinês, japonês. O café da manhã era totalmente japonês. O hotel era bom.
Eu cheguei um dia no hotel tão cansado, exausto, e sempre pedia andar alto. Eu sempre gosto de ficar em andar alto, gosto de vista, não gosto de ter uma parede na frente da minha janela, assim, uma coisa meio claustrofóbica. Esse hotel tinha 25 andares, eu estava no 24º. Então, eu cheguei esse dia depois da estrada, cansado de muito show assim. A camareira esqueceu as janelas abertas do hotel, assim. Entrei no quarto, tava tudo aberto, assim, né, no 24º andar. Aí eu tive um insight: ‘Se eu der um mergulho pela janela agora, está tudo resolvido’. Fiquei assustado com esse... Não foi nem desejo, foi um insight assim, sabe?
Depois, isso começou a se repetir com alguma frequência, não apenas em hotéis, mas também em aviões. Eu entrava no avião, aí, como se fosse outra voz aqui dentro da cabeça dizendo: ‘E se for lá no final do avião, abrir a porta e sair voando, tá tudo resolvido.’ É interessante a mente, o que está dizendo pra você, né? A solução dos problemas é um voo. O que é isso, né? Aí eu fui pra minha terapeuta e expliquei que eu tava preocupado. Falei: ‘Eu sou suicida?’ ‘Não, cara, você não é suicida, você não tem esse perfil. Não vou te dar nenhum remédio. Você está esgotado. É meu, o meu diagnóstico é você está absolutamente esgotado.’
Eu estava pedindo socorro, muito parecido com Arnaldo, até com a saída do Nando. Os processos de desligamento numa banda sempre são críticos, né? É uma fragmentação, são difíceis de administrar. Mas, fato é que quando alguém está pedindo pra sair, não é um trabalho solo, não tem um trabalho solo. Era uma questão... até de vida, entendeu?"

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