O motivo que levou Jerry Adriani a se recusar a gravar clássico de Raul Seixas
Por Gustavo Maiato
Postado em 17 de agosto de 2025
Raul Seixas e Jerry Adriani construíram uma amizade marcada por parceria artística, incentivo mútuo e também por algumas divergências de opinião. Foi Jerry quem, no fim dos anos 1960, encorajou Raul a deixar Salvador e tentar a sorte no Rio de Janeiro, mesmo em plena lua de mel com sua primeira esposa, Edith.
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O cenário estava longe de ser glamouroso. Sem dinheiro e passando dificuldades, Raul e Edith aceitaram acompanhar Jerry em uma turnê pelo Rio e Nordeste. A lua de mel do casal aconteceu dentro de uma kombi, com Raul abrindo os shows de Jerry à frente do Raulzito e os Panteras. Essa proximidade fez com que a amizade se fortalecesse e a colaboração entre eles fosse constante nos anos seguintes.
Em entrevista registrada no livro "O Raul que Me Contaram", Jerry revelou que Raul chegou a compor a música "Medo da Chuva" pensando para ele gravar eventualmente. A faixa, assinada por Raul e Mauro Motta, acabou se tornando um clássico do repertório de Raul, mas não na voz de Jerry — pelo menos não naquela época.
"Eu gravei ‘Tudo que é bom dura pouco’, toquei muito bem na época, foi produção dele também. Gravei o ‘Doce, doce amor’ e ‘Tarde demais’, antes do ‘Doce, doce amor’. E depois o ‘Doce, doce amor’, que é uma composição dele com Mauro Motta. E ele havia feito pra eu cantar na época o ‘Medo da chuva’", recordou Jerry.
Raul Seixas e Jerry Adriani
Apesar da amizade e da admiração, Jerry decidiu recusar a proposta. "Porque a letra falava de igreja, religião, padre, de umas coisas que eu... Eu discutia muito com o Raul, nós discutíamos muito religião." Ele explica que Raul "era meio ateu na época" e que esse era um ponto de constante debate entre eles: "Quando ele falava que não acreditava em Deus, eu subia as paredes. Eu dizia: ‘Você um dia vai acreditar ainda’."
Jerry acredita que essa mudança de visão acabou acontecendo com o tempo. "E, realmente, eu acho que foi isso que aconteceu. Eu acho que, quando ele foi embora, ele já estava acreditando que existia uma coisa maior que regia esse universo todo."
Mesmo sem ter gravado a música na época, Jerry não a deixou de lado para sempre. Anos mais tarde, no álbum "Outro", decidiu incluí-la no repertório. "Gravei nesse meu novo trabalho totalmente diferente o repertório. A única música mais antiga foi essa, mas fiz absoluta questão de colocar. Mas o repertório é absolutamente diferente de tudo o que já cantei até hoje."
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