A lenda da cena rock nacional que trocou Mutilator por Sepultura: "Fiquei 22 anos com eles"
Por Gustavo Maiato
Postado em 09 de dezembro de 2025
Em participação no After Podcast, apresentado por Henrique Portugal e com participação de Lucas Penido, o lendário Silvio "Bibika" Gomes revisitou sua trajetória no underground mineiro e contou, com a sinceridade crua que lhe é característica, como deixou bandas promissoras como o Mutilator para se tornar uma peça essencial da engrenagem do Sepultura, onde permaneceu por mais de duas décadas. A entrevista, recheada de histórias de rua, encontros improváveis e bastidores do metal nacional, resgata um período em que Belo Horizonte respirava criatividade, perigo, amizade - e guitarras em volume máximo.

Logo de início, Henrique recorda o passado de Bibika como vocalista de metal antes de seu envolvimento profissional com o Sepultura. Ele confirma com humor autodepreciativo: "Eu tive algumas… Minhas bandas tinham duração média de dois meses e meio. Primeiro eu tive o Metal Massacre, aí a banda dissolveu. Depois montei o Armagedon, dissolveu. Depois tive o Guerrilha com Max, Igor e Jairo… também não durou." A sinceridade segue quando fala do Mutilator: "Foi a que fez mais sucesso, mas eu saí pouco antes deles lançarem o primeiro disco. Tem composições minhas no disco, mas eu saí… Eles me saíram da banda."
Bibika e Sepultura
O destino, porém, já estava traçado. Bibika não hesita ao explicar o salto: "Quando eu fui saído da banda, o Sepultura tava começando a acender. Aí falei: 'Vou ficar pulando de banda em banda? Não vou, não. Vou colar nesses caras aqui.' Colei - e fiquei 22 anos com eles." A frase, dita com naturalidade, revela muito sobre o período efervescente do metal em BH, onde a proximidade entre músicos e vizinhos era tão determinante quanto o talento.
Henrique, também figura histórica da cena, puxa uma memória afetiva: o início da convivência entre Bibika e os irmãos Cavalera. Ele pergunta sobre como tudo começou, e Silvio volta no tempo: "A minha história com o Sepultura começou na esquina do Clube da Esquina, na Divinópolis com Paraisópolis. Você lembra da casa do Cabrito? A gente ficava ali na esquina." Ele descreve um ambiente que misturava música, vizinhança, perigo e juventude: "Eu era da confusão… da turma das brigas de Santa Tereza."
Foi nesse cenário que alguém comentou sobre "uns lourinhos" recém-chegados de São Paulo. Ele se lembra de ter ido atrás para ver quem eram - e de quase assustá-los: "Eu vi os dois passando com Lee jeans e falei: 'Lourinho… não olha pra trás não, senão você vai morrer.' Eles apertaram o passo." Só depois descobriria a identidade deles: "Era o Max e o Igor."
A aproximação definitiva veio em uma quinta-feira na feira hippie de Santa Tereza, o grande ponto de encontro juvenil: "Eles estavam com um monte de disco debaixo do braço: Speak of the Devil, Iron Maiden, Saxon, Motörhead… Eu falei: 'Caramba.' Eles disseram: 'Mudamos pra cá, temos vários discos, vai lá em casa ver.' Aí começou a amizade."
O Sepultura, ainda em formação, ensaiava onde dava - literalmente. Bibika lembra com precisão quase fotográfica: "Primeiro na garagem do Ricardo; depois na casa do Gato, cujo pai era pastor metodista, mas liberal. O porão da casa virava sala de ensaio." Ele detalha até os equipamentos precários da época: "O Igor tinha um tarol e um prato num lata de tinta com cimento."
Henrique complementa com lembranças dos ensaios já mais estruturados, na casa de Paulo Xisto, e a conversa segue repleta de referências a ruas, casas, amigos e dispositivos improvisados que moldaram não só o Sepultura, mas a história inteira do metal brasileiro.
Confira a entrevista completa abaixo.
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