Os dois bateristas que George Martin dizia que Ringo Starr não conseguiria igualar
Por Bruce William
Postado em 04 de dezembro de 2025
Ringo Starr vive naquele limbo curioso da história do rock: é um dos bateristas mais conhecidos de todos os tempos, mas segue sendo subestimado por muita gente. Quem olha só para o aspecto técnico no sentido virtuosístico costuma tratá-lo como "o menos talentoso" dos Beatles. Mas boa parte da força do grupo passa exatamente por essas escolhas discretas de bateria, que encaixam nas músicas sem precisar de solo a cada virada.
Mesmo assim, o próprio Ringo nunca se colocou no patamar dos "monstros" da bateria. Ele quase não fazia exibição gratuita, preferia apoiar a canção - e quando precisava sair um pouco da linha, sabia como fazer barulho, relembra a Far Out: o turbilhão de pratos em "Helter Skelter", a pancadaria no fim de "Long Tall Sally" ou o pequeno solo de "The End", em "Abbey Road", que só aconteceu porque os outros insistiram. O foco era sempre servir à música, não disputar quem enchia mais compassos.

Quem tinha uma visão bem ampla disso tudo era George Martin. Como produtor, ele não apenas ajudou a moldar o som dos Beatles, como também trabalhou com nomes de rock, jazz e fusão após o fim da banda. Ao lidar com arranjos mais complicados e sessões cheias de músicos virtuosos, Martin teve contato direto com bateristas acostumados a encarar partituras intrincadas, mudanças de andamento e grooves cheios de detalhes.
Mas Martin sempre fez questão de elogiar Ringo pelo que ele era - e não pelo que ele não era. Ao comentar a bateria dos Beatles, ele resumiu assim: "Como baterista, Ringo é único. Ele não é um grande baterista técnico se você o mede contra alguém como Steve Gadd ou Jeff Porcaro, ele não conseguiria tocar como eles. Mas ele tem um som único. Quando você ouve o Ringo, você sabe que é o Ringo, não há mais ninguém como ele."
A comparação diz muito sobre o contexto. Steve Gadd e Jeff Porcaro viraram referência justamente pela precisão absurda e pela capacidade de navegar em arranjos sofisticados, cheios de síncopes e detalhes de dinâmica, o tipo de gravação que pede leitura de partitura, memorização de mapa e sangue frio em estúdio. Martin basicamente dizia que esse não era o terreno de Ringo: colocar Starr para encarar uma sessão no estilo de Steely Dan, por exemplo, seria pedir para ele jogar um jogo que não tinha a ver com seu perfil.
Isso não quer dizer que Ringo fosse fraco ou "incapaz"; significa apenas que seu forte era outro. Em vez de solos cheios de notas ou viradas impossíveis, ele criou batidas que viraram parte da melodia, daquelas que dá para "cantar" junto, algo que muita gente tecnicamente superior nunca conseguiu fazer. A própria fala de Martin deixa claro o recado: em termos de técnica pura, Gadd e Porcaro jogam em outra divisão; em termos de identidade, Ringo ocupa um espaço que ninguém mais preencheu, e é justamente essa assinatura que faz a bateria dos Beatles continuar reconhecível em poucos segundos, até hoje.
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