O gênero do rock que inovou e fez sucesso, mas Angus Young nunca engoliu
Por Bruce William
Postado em 10 de fevereiro de 2026
Ninguém confunde AC/DC com outra coisa no instante em que Angus Young encosta a palheta na corda. Desde o começo, a banda se vendeu como rock'n'roll puro, e isso inclui o lado simples e teimoso da ideia: tocar do mesmo jeito, do mesmo lugar, sem se preocupar com a moda que estiver passando.
Antes mesmo de ter "marca" e mito, eles já tinham um mapa. O som vinha daquele rock antigo de Chuck Berry e Little Richard, com riff direto e ritmo puxando a música pelo colarinho. Angus podia até flertar com frases de blues aqui e ali, mas sempre a serviço de fazer a engrenagem da banda girar do jeito mais pesado possível.

E aí entra um detalhe que muita gente sente, mas nem sempre descreve bem: AC/DC tem um tipo de balanço que não depende de virtuosismo, mas de encaixe. Você pode tocar as notas certas e ainda assim soar "reto demais", sem o peso e a malícia do riff. O que segura a banda é a cozinha, é o "rolar" do ritmo, é isso que faz o som parecer maior do que a soma das partes.
Quando o hard rock dos anos oitenta explodiu no Sunset Strip, um monte de banda apareceu dizendo que tinha AC/DC na veia. Só que nem sempre vinha junto o que faz a coisa funcionar: a sensação de groove e espontaneidade, e não um pacote pronto de imagem, figurino e atitude ensaiada. Angus, pelo visto, assistia a tudo isso com um olho meio atravessado.
A implicância dele não era, obviamente, com a "guitarra com distorção" nem volume alto: era com o teatro de banda montada, a estética de pose como parte obrigatória do gênero. E ele resumiu isso num retrato bem específico, falando dessa "coisa do heavy metal" (no sentido daquele hard/hair metal mais de vitrine), em fala resgatada pela Far Out: "Acho que a gente estava bem longe dessa coisa do heavy metal, porque eles são todos bem parecidos muitas vezes. Todos têm esses passos planejados e sempre tem o loiro e o baterista que fica sorrindo pra câmera. Então, pra nós, a gente só pode ser a gente mesmo. É assim que a gente é. A gente nunca conseguiria posar. A gente nunca foi esse tipo de banda 'poser'."
O alvo ali é claro: não é um disco, nem um riff, nem um músico específico. É a lógica de "imagem primeiro", com banda parecendo coreografada e feita pra câmera. No universo do AC/DC, isso não combina com a proposta, que é tocar como se estivesse num palco pequeno, mesmo quando o palco é gigantesco.
E dá pra entender por que esse tipo de rock "montado" irritava: gravadora adorava empacotar som pesado como produto de prateleira. Visual repetido, fórmula repetida, e a música muitas vezes virando acessório. Mesmo quando saíam algumas faixas boas no meio do caminho, o que ficava era a sensação de linha de produção.
Quando o grunge entrou e varreu parte daquele cenário, tem quem veja isso como mudança de gosto; no raciocínio do Angus, a leitura é mais simples: menos pose, mais banda tocando como banda. Do jeito que ele descreve, a discussão nunca foi "qual é o rock certo", e sim quem estava ali pra tocar, e quem estava ali apenas pra desfilar.
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