O álbum que vendeu pouco, mas quem comprou montou uma banda; "Eram ideias bem simples"
Por Bruce William
Postado em 20 de março de 2026
Dá para contar a história de "The Velvet Underground & Nico" (1967) como um desses acidentes raros: um disco que saiu pequeno em vendas, mas grande em consequência. Ele nasceu em Nova York, com Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Maureen "Moe" Tucker, e foi gravado em sessões ao longo de 1966, num estúdio de ensaio da cidade.
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Na época, quem tentou traduzir o impacto em palavras foi Richard Goldstein, no New York World Journal-Tribune. Conforme reproduzido na Music Radar, Richard descreveu o som como "uma série selvagem de impulsos atonais e feedback eletrônico", e puxou uma imagem ainda mais pesada ao dizer que aquilo parecia "um casamento secreto entre Bob Dylan e o Marquês de Sade". Pode soar exagerado, mas já dá o clima do que era: uma banda empurrando distorção e assunto espinhoso para a frente, sem se preocupar em agradar.
Andy Warhol entrou como mentor/manager, co-produtor e o cara da capa icônica. Para ele, não era "só" uma banda: era "uma chance de combinar música e arte". E foi dele também a ideia de colocar Nico no projeto, o que muda a temperatura do álbum em três faixas em que ela assume os vocais ("Femme Fatale", "I'll Be Your Mirror" e "All Tomorrow's Parties").
No miolo, Lou Reed tratava a composição como uma coisa direta e "de rua", do jeito dele. Anos depois, lembrando desse período, ele resumiu o método: "Eram ideias bem simples. Três acordes, aumenta o volume e faz a letra ser sobre alguma coisa… eu estava tentando te dar um choque da rua." Robert Christgau, no mesmo programa britânico The South Bank Show, foi na jugular ao chamar Reed de uma voz lírica "autêntica e original" dos anos 60 - um elogio que diz mais sobre identidade do que sobre técnica.
John Cale descreveu o lado "laboratório" do som: ensaio diário por mais de um ano, viola modificada, cordas de guitarra, arco de contrabaixo e a busca por um ruído que ele comparou a um B-52. A frase que entrega a intenção é dele mesmo: "Distorção era uma das coisas que a gente tinha interesse em enfiar goela abaixo das pessoas."
E aí entra Moe Tucker, que faz o papel de chão firme no meio do caos. Ela disse que não tinha treino formal de bateria e que estava "batendo" mesmo, mas justamente por isso se concentrou em manter o pulso: "Eu me concentrava em tocar a mesma batida… assim, quando todo mundo voltava, tinha para onde voltar." É uma descrição boa do que o disco faz: estica, desmonta, desafina, volta, e segue em frente.
O álbum foi um fracasso comercial quando saiu, mas virou referência para quem veio depois - de Bowie ao punk. E a frase mais repetida (porque funciona como epílogo perfeito) é a do Brian Eno: "O primeiro álbum do Velvet Underground só vendeu 10 mil cópias, mas todo mundo que comprou formou uma banda."
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