O show lendário de Jimi Hendrix que o baterista Mitch Mitchell achou terrível
Por Bruce William
Postado em 27 de maio de 2026
Woodstock virou quase uma religião do rock. A imagem que ficou é a de três dias de paz, música, juventude, contracultura e momentos que parecem maiores do que a própria realidade. Mas quem estava lá nem sempre viveu a coisa desse jeito. Para Mitch Mitchell, baterista do Jimi Hendrix Experience, a experiência teve muito menos iluminação mística e muito mais lama, frio, atraso e exaustão.
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No livro "Jimi Hendrix - The Inside Story" (via Are You Experienced no Quora), escrito com John Platt, Mitchell lembrou que a banda deveria tocar na última noite do festival. A ideia era sair por volta das oito, ir até um campo de pouso local e seguir de helicóptero, mas a chuva forte impediu os voos. O jeito foi ir de carro, com estradas congestionadas e um temporal que parecia não acabar. Quando chegaram, ainda souberam que o festival estava horas atrasado e que não havia camarins disponíveis.
A banda acabou abrigada em uma espécie de casa afastada, depois de atravessar campos de lama. Mitchell não descreveu aquilo como aventura romântica. Disse que passaram o resto da noite congelando, sem conforto e sem grande clima de camaradagem, já que quem tinha um trailer ficava dentro dele. A frase mais seca talvez seja a que melhor resume sua lembrança: "Não estamos falando de diversão aqui."
Hendrix acabou fechando o festival na manhã de segunda-feira, 18 de agosto de 1969. O site oficial do guitarrista - jimihendrix.com - registra a apresentação com Mitch Mitchell na bateria, Billy Cox no baixo, Larry Lee na guitarra e vocais, Juma Sultan na percussão e Jerry Velez nas congas. O Bethel Woods Center, ligado ao local histórico de Woodstock, lista o show entre 9h e 11h15 da manhã, embora Mitchell tenha lembrado o início como algo em torno das seis. A diferença de horário não muda o essencial: a banda entrou quando a noite já tinha virado cansaço.
O público também já não era mais o mesmo da multidão que havia ocupado a fazenda de Max Yasgur no auge do festival. Muita gente precisava voltar para casa, para o trabalho, para a vida comum. Mitchell recordou a sensação desagradável de ver pessoas arrumando suas coisas e indo embora quando Hendrix subiu ao palco. Depois de esperar a noite inteira, o próprio público parecia tão grogue quanto os músicos.
Essa memória contrasta com a forma como a apresentação passou para a história. A versão de "The Star-Spangled Banner" se tornou um dos momentos mais analisados e simbólicos de Woodstock, muitas vezes vista como comentário musical sobre os Estados Unidos, a guerra do Vietnã e o clima político da época. Um estudo publicado no Journal of the Society for American Music observa que a interpretação de Hendrix foi lida tanto como resistência política quanto como ataque grosseiro ao hino, o que mostra a força e a ambiguidade daquele registro.
Mitchell, porém, lembrou que "The Star-Spangled Banner" não foi planejada especialmente para Woodstock. Segundo ele, a banda já tocava o hino com frequência nos Estados Unidos. Naquela manhã fria e úmida, ele chegou a colocar algumas viradas de bateria ali para manter as mãos aquecidas. É uma imagem quase cômica: enquanto o mundo depois enxergaria um momento histórico, o baterista estava tentando não congelar.
Para ele, o show não teve clima de consagração imediata. As músicas não encaixaram como poderiam, algumas viraram longas jams, houve paradas e recomeços, e a banda saiu querendo apenas ir embora. "As pessoas falam de Woodstock quase religiosamente, mas na verdade era lama, sem comida, sem banheiros e exaustão", resumiu Mitchell.
Talvez seja justamente essa diferença que torne a história mais interessante. Para quem viu o filme, ouviu o disco ou cresceu com a lenda, Hendrix em Woodstock é quase um monumento. Para Mitch Mitchell, foi uma manhã fria depois de uma noite interminável, com a banda cansada, o público esvaziando e a lama tomando conta de tudo. A mitologia veio depois. Na hora, pelo menos para o baterista, o paraíso hippie tinha cheiro de roupa molhada e vontade de ir para casa.
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