A banda rebelde e diferentona que impressionou o vocalista do Sex Pistols
Por Bruce William
Postado em 24 de junho de 2026
John Lydon entrou para a história como a voz debochada e venenosa dos Sex Pistols, mas reduzi-lo ao caos punk de 1976 é perder uma parte importante da figura. Antes de virar Johnny Rotten, ele era o sujeito de cabelo laranja que circulava pela loja SEX, de Vivienne Westwood e Malcolm McLaren, em Londres. McLaren viu ali uma presença estranha o bastante para testar no grupo que estava montando. A escolha mudou a música britânica.
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Com Steve Jones, Glen Matlock e Paul Cook, Lydon virou o rosto mais reconhecível de uma banda que parecia feita para quebrar vidraça mesmo quando só estava tocando. "Anarchy in the U.K." saiu em 1976 e, dali em diante, os Sex Pistols passaram a representar uma Inglaterra em crise, com desemprego, greves, ruas sujas e uma juventude sem muitas promessas no horizonte.
Em "Punk Rock: An Oral History", de John Robb, Lydon descreveu aquele cenário sem nostalgia. "Era um lugar muito deprimente, completamente acabado. Havia lixo nas ruas, desemprego total - praticamente todo mundo estava em greve. Se você vinha do lado errado dos trilhos, não tinha esperança nenhuma e nenhuma perspectiva de carreira. Daquilo vieram os Sex Pistols e depois um monte de imitadores babacas."
Mas Lydon nunca foi apenas um militante da guitarra suja. Mesmo com toda a imagem pública ligada ao punk, seu gosto musical sempre foi mais amplo do que muita gente imaginaria. Ele já citou discos de Kate Bush e Cliff Richard entre seus favoritos, escolhas que não combinam muito com a caricatura de Johnny Rotten cuspindo no passado. Só que a caricatura nunca explicou bem o homem inteiro.
Depois do fim dos Sex Pistols, isso ficou mais claro com o Public Image Ltd, onde Lydon levou sua voz para terrenos mais tortos, frios, experimentais e menos previsíveis. O punk, para ele, não era uma jaqueta de couro congelada no tempo. Era mais uma recusa a aceitar que a música precisasse obedecer ao bom gosto de gente satisfeita demais consigo mesma.
Por isso faz sentido que um dos discos que mais mexeram com ele tenha vindo da Alemanha, em 1978, bem longe da bagunça londrina. "The Man-Machine", do Kraftwerk, não tinha a sujeira elétrica dos Pistols, mas carregava outro tipo de ruptura. O grupo alemão trabalhava no Kling Klang Studio como se estivesse fabricando pop para uma década que ainda não tinha chegado.
Com faixas como "The Robots" e "The Model", o álbum ajudou a desenhar o futuro da música eletrônica e do pop dos anos 1980. Vozes econômicas, clima robótico, melodias secas e uma frieza quase elegante faziam tudo soar distante da tradição roqueira. Para quem achava que punk era apenas velocidade e distorção, ali estava outra forma de provocação.
Lydon falou sobre o Kraftwerk em entrevista à Pitchfork (via Far Out ) e contou que chegou a conhecer um dos integrantes do grupo. A surpresa foi menos musical do que visual. "Conheci um dos membros do Kraftwerk no ano passado e fiquei muito surpreso - eles não eram nada como eu imaginava pelas capas dos discos. Estavam usando o que eu chamaria de camisas dos Beach Boys. De um jeito estranho e torto, eles disseram que eu tinha influenciado eles. Não acreditei nem por um segundo, mas aceito."
O encanto de Lydon pelo Kraftwerk vinha justamente dessa estranheza. "Eu amava qualquer coisa deles. A maneira fria e sem emoção como apresentavam uma canção pop sempre me divertiu, era tão nova, tão impassível, cínica e, de algum modo, calorosa. Tão à frente de seu tempo."
A frase ajuda a entender por que "The Man-Machine" podia atingir alguém vindo do punk. O disco não gritava contra o mundo; parecia observá-lo de uma sala iluminada por luz fluorescente, com máquinas no lugar da banda de garagem. Para Lydon, aquilo também era rebeldia. Só que uma rebeldia de laboratório, seca, robótica e visionária - exatamente o tipo de futuro que o rock muitas vezes fingia não estar vendo.
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