A banda punk que fez Neil Young se reinventar nos anos setenta; "irritou muita gente"
Por Bruce William
Postado em 28 de junho de 2026
Neil Young nunca foi um artista muito confortável dentro de molduras. Mesmo quando parecia pertencer a uma cena, logo encontrava um jeito de escapar dela. Folk, country rock, guitarras distorcidas, discos acústicos, ruído, canções confessionais, bandas de apoio diferentes: sua carreira sempre teve algo de estrada secundária, dessas em que o mapa oficial atrapalha mais do que ajuda.
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Por isso, sua reação ao punk foi mais interessante do que a de muitos colegas de geração. Enquanto parte dos músicos dos anos 1960 olhava para aquela explosão de simplicidade, raiva e barulho como se fosse uma ofensa à ideia de "boa música", Young enxergou ali uma sacudida necessária. Não precisava gostar de tudo. Bastava perceber que alguma coisa havia se movido.
David Crosby, por exemplo, não teve grande paciência com o punk. Para ele, aquele som parecia pobre, infantil e sem valor musical. Young, seu antigo parceiro, viu a mesma cena por outro ângulo. O punk atacava justamente a acomodação que ele também detestava: excesso de controle, perfeição de estúdio, gente demais opinando, rockstars confortáveis demais com a própria importância.
Segundo a Far Out, Young falou sobre o impacto de Johnny Rotten e dos Sex Pistols com uma mistura de distância e admiração. "Eu nunca conheci Johnny Rotten, mas gosto do que ele fez com as pessoas. Ele irritou muita gente que, eu acho, precisava acordar. Gente do rock and roll que, nos anos 70, estava dormindo e achando que era tão legal pra caralho, que sabia o que tinha que acontecer. Eles me diziam: por que você não faz um disco de verdade? As pessoas perceberam que havia mais naquilo do que perfeição e overdubs."
A fala combina muito com o momento em que Young chegou a "Rust Never Sleeps", lançado em 1979. O álbum não é punk no sentido estrito, claro. Não soa como Sex Pistols, Ramones ou The Damned. Mas carrega uma urgência parecida: a recusa em ficar parado, a vontade de queimar energia antes que ela vire ferrugem, a ideia de que um artista precisa se mover mesmo correndo o risco de desagradar.
O próprio título já aponta para isso. Ferrugem sugere abandono, imobilidade, corrosão lenta. Young parecia interessado no oposto: seguir tão rápido pelos elementos que os circuitos se desintegrassem antes de apodrecer. Era uma imagem brutal para falar de criação artística, e uma resposta direta à tentação de se acomodar depois de anos de respeito, dinheiro e prestígio. "Eu acho que arte é uma coisa privada. Não estou compartilhando meu momento criativo com quem quer que esteja no corredor. Ferrugem implica que você não está usando nada, que está sentado ali deixando os elementos te comerem. Queimar significa que você está atravessando os elementos tão rápido pra caralho que está realmente queimando, e seus circuitos, em vez de corroerem, estão se desintegrando."
O que interessava não era tocar três acordes, cuspir no palco ou adotar uma estética específica. Era a permissão para romper com a ideia de disco "bem comportado", de carreira administrada, de perfeição como objetivo final. O punk lembrava que rock and roll também podia ser atrito. Em "Rust Never Sleeps", essa tensão aparece na própria estrutura do álbum, dividido entre momentos acústicos e elétricos. "My My, Hey Hey" e "Hey Hey, My My" funcionam como duas faces da mesma sentença: é melhor queimar do que apagar lentamente. A frase ficaria ainda mais famosa anos depois por motivos trágicos, mas no contexto de Young era uma declaração contra a paralisia artística.
Os Sex Pistols, nesse sentido, serviram menos como modelo musical e mais como detonador. Johnny Rotten era a figura que entrava na sala e fazia os veteranos perderem a pose. Para Young, isso tinha valor. O rock precisava ser lembrado de que não era apenas uma indústria de discos bem gravados, turnês grandes e artistas protegendo reputações.
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